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O coro dos desafinados

ANO BRITÂNICO Numa altura em que se discute o impacto que poderá ter o “Brexit” nas relações culturais com os países da UE, a Casa da Música dedica 2017 à música feita na ilha ao longo dos séculos

ILUSTRAÇÃO ANA TORRIE

Surgiram esta semana notícias preocupantes sobre o modo como o Reino Unido se prepara para negociar a saída da União Europeia. Teme-se o pior, com Theresa May a tentar chantagear a EU com as questões economias quando se sabe que quanto está verdadeiramente em causa passa sobretudo pelo controlo dos fluxos migratórios. A discussão está acesa e muitos intelectuais britânicos têm manifestado todo o tipo de preocupações sobre o futuro e o modo como a produção artística pode ou não vir a ser afetada, em resultado da alteração das relações culturais com os restantes 27 países.

O debate está aberto e terá no próximo sábado uma importante projeção pública em Portugal, graças à Casa da Música. No âmbito da abertura do ano musical dedicado ao Reino Unido, realiza-se a partir das 16h30 a conferência intitulada “O impacto do Brexit na vida musical britânica”. Participam Sir Nicholas Kemyon, diretor do Barbican Center, responsável pelos BBC Proms durante uma década; Cathy Graham, atual diretora de música do British Council em Londres; e Susanna Easturn, que tem tido cargos de direção em relevantes instituições ligadas à nova música. Junta-se-lhes Emmanuel Hondré, diretor do Departamento de Concertos da Philarmonia de Paris. A conversa será moderada pelo musicólogo Tom Service.

A Orquestra Sinfónica terá uma participação decisiva no Ano Britânico

A Orquestra Sinfónica terá uma participação decisiva no Ano Britânico

FOTO CASA DA MÚSICA

Será um importante momento de reflexão sobre os caminhos da música de um país que a propaganda alemã, no contexto da I Guerra Mundial, apresentava como sendo a terra sem música. Este foi, de resto, o título de um livro com relativo êxito e destinado a minimizar a cultura britânica. Ao proporcionar um panorama da música britânica através dos tempos, a Casa da Música abre portas e novas perspetivas para um outro entendimento do que de melhor se tem feito numa região que na segunda metade do século XX nos deu os Beatles, os Rolling Stones, os Pink Floyd, os Queen, os Clash, os Jethro Tull, os Sex Pistols, os U2 e tantos outros, mas também, desde o renascimento até os nossos dias, os trabalhos de compositores como John Dunstable e John Dowland, Gustav Holst, Benjamin Britten, mas também o naturalizado Haendel ou Harrison Birtwistle, apresentado como o maior compositor britânico vivo e que será ao longo de todo o ano o compositor em residência da Casa da Música.

Será um importante momento de reflexão sobre os caminhos da música de um país que a propaganda alemã, no contexto da I Guerra Mundial, apresentava como sendo a terra sem música. Este foi, de resto, o título de um livro com relativo êxito e destinado a minimizar a cultura britânica. Ao proporcionar um panorama da música britânica através dos tempos, a Casa da Música abre portas e novas perspetivas para um outro entendimento do que de melhor se tem feito numa região que na segunda metade do século XX nos deu os Beatles, os Rolling Stones, os Pink Floyd, os Queen, os Clash, os Jethro Tull, os Sex Pistols, os U2 e tantos outros, mas também, desde o renascimento até os nossos dias, os trabalhos de compositores como John Dunstable e John Dowland, Gustav Holst, Benjamin Britten, mas também o naturalizado Haendel ou Harrison Birtwistle, apresentado como o maior compositor britânico vivo e que será ao longo de todo o ano o compositor em residência da Casa da Música.

O britânico Harrison Birtwistle é o compositor em residência

O britânico Harrison Birtwistle é o compositor em residência

FOTO CASA DA MÚSICA

Dele serão apresentadas, na abertura do Ano Britânico, amanhã á noite, três obras destinadas a diferentes agrupamentos. A primeira, “Earth Dances”, para orquestra, é tida como uma obra chave e é dedicada a Pierre Boulez. No sábado, ainda de Birtwistle, o Remix Ensemble apresenta “Theseus Game”, uma obra, tal como muitas outras deste compositor, inspirada em temas mitológicos e que, para ser interpretada necessita da participação de dois maestros. Tal como explica Harrison Birtwistle no primeiro número do jornal “A CASA”, uma publicação bilingue da Casa da Música, a presença de dois maestros “não é, como se poderá pensar, uma ideia cosmética, mas sim uma ideia ditada pela música e pelo modo como duas coisas são independentes uma da outra e dependentes entre si”.

As relações de dependência constituem um bom mote para muito do que hoje está em questão com o Brexit. Como tem vindo a ser assinalado, a um coro poderoso a sustentar as posições de Theresa May, que não resulta apenas dos resultados do referendo efetuado no Reino Unido. Desde logo por se tratar de um coro contraditório, tantos são os seus membros que, em relação a este tema já afirmaram demasiadas vezes uma coisa e o seu contrário.

O Remix interpreta obra de Harrison Birtwistle

O Remix interpreta obra de Harrison Birtwistle

FOTO CASA DA MÚSICA

Na generosa ousadia contida nesta aposta da Casa da Música de colocar em destaque a música da Grã Bretanha – uma decisão tomada há já três anos, muito antes das turbulências suscitadas pelo Brexit – são estabelecidos laços subtis, no sentido de deixar portas abertas, mesmo se eventualmente o poder do coro dos desafinados venha a pretender apostar num fechar de portas. Não há música, mas ás pessoas. Com a certeza de que, sem pessoas, seja qual for a sua nacionalidade ou origem, não há música.