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Antes que tenhamos saudades

ELOQUENTE. Barack Obama discursa em Berlim, a 24 de julho de 2008

FOTO MATTHIAS WINKELMANN

Na semana em que Barack Obama deixa de ser Presidente dos Estados Unidos da América, uma coletânea de discursos permite revisitar os mandatos de um homem que fica para a História

Sexta-feira será, para muitos cidadãos (e não apenas americanos), um dia de inquietação e angústia. Após oito anos, o homem que em tempos simbolizou a esperança e a fé na mudança vai sair da Casa Branca. Nos últimos dias, um discurso de despedida e a condecoração-surpresa do vice-presidente Joe Biden serviram para reforçar o lado emocional da despedida. O mesmo mundo que em 2008 gritava “Yes, we can!”, e que se desiludiu quando as expectativas evidentemente excessivas se goraram, já tem saudades do primeiro negro a liderar o mundo livre.

Obama chegou à presidência do país mais poderoso do mundo graças, em parte, às suas capacidades de oratória. No “Courrier Internacional” pusemo-lo na capa em 2005, um ano após a brilhante intervenção na convenção do Partido Democrata que consagrara John Kerry como candidato contra a reeleição de George W. Bush. Reconduzido este último, não foram poucos os que olharam para o advogado de Chicago como promessa para 2008.

E foi assim que um indivíduo com escassa experiência política a nível nacional (fizera um mandato no Senado, depois de ter sido senador estadual no Illinois) venceu a favorita Hillary Clinton. Derrota que, não faz falta lembrar, se repetiu há dois meses, tendo de novo a ex-secretária de Estado, ex-senadora e ex-primeira-dama sido ultrapassada na oratória por um adversário teoricamente inferior.

Um livro recente reúne 26 grandes discursos de Obama, antes e durante os seus dois mandatos, escolhidos por dois colunistas do diário “The Washington Post”. Da oposição à invasão do Iraque e à subsequente “guerra estúpida” em 2002 à aproximação ao Islão numa intervenção feita no Egito, “We Are the Change We Seek” (Somos a Mudança que Procuramos) passa ainda pelas vitórias eleitorais, tomadas de posse, os discursos nas Nações Unidas e as evocações das vítimas de tiroteios escolares e matanças racistas. Falta, estranha o jornal americano numa recensão, o anúncio da candidatura presidencial.

Casal.Foram abundantes as referências a Michelle nos discursos de Barack

Casal.Foram abundantes as referências a Michelle nos discursos de Barack

d.r.

Luto e esperança

“Vemos Obama a alimentar esperanças em grande estilo; vemo-lo a negociar questões espinhosas com inteligência forense; vemo-lo ao ataque e vemo-lo de luto, em casa, no púlpito dos negros e na cena internacional”, descreve “The Guardian”. Embora não escape, por vezes, à retórica vazia, o ainda Presidente dá nota de coerência e reflexão, prossegue o jornal britânico. E a sequência dos seus discursos permite traçar o perfil e a evolução do seu tempo na Casa Branca.

O jornal analisa também as figuras de estilo preferidas de Obama, da anáfora (repetição de uma palavra ou expressão a começar frases sucessivas) à epístrofe (repetição no fim), e as frequentes menções à mulher, Michelle, às filhas Sasha e Malia e a uma das Avós do Presidente. A habilidade repetia-se na forma de ler – ou debitar de improviso – cada texto, o que faz de Obama um caso raro num país onde a oratória está “num estado pobre”, segundo “The Washington Post”.

Os editores não se deixam, apesar dos copiosos elogios, cegar pelo apreço por Obama. Também recordam, numa nota introdutória que o jornal considera “maravilhosa”, que o homem que agora deixa o poder “foi notoriamente ineficaz na defesa de dois dos seus maiores feitos: o estímulo económico [na sequência da crise global de 2008] e o programa de saúde que tem o seu nome [o Obamacare que Trump promete revogar].

“We Are the Change We Seek”, Editora: Bloomsbury, Autores: EJ Dionne Jr e Joy-Ann Reid (seleção e introdução), Páginas: 368, Preço $16,45 (€15,5)

“We Are the Change We Seek”, Editora: Bloomsbury, Autores: EJ Dionne Jr e Joy-Ann Reid (seleção e introdução), Páginas: 368, Preço $16,45 (€15,5)

Interessante é também constatar o cuidado da equipa de Obama relativamente às ocasiões em que cada discurso era proferido. Certa vez, em Des Moines (Iowa), testando o terreno para as primárias democratas de 2008, o candidato a candidato falou de cor perante uma plateia de 9000 pessoas, das quais 3000 tinham lá sido colocadas pela sua campanha. Só para garantir que… “yes, he could”.