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Mais dois monumentos reduzidos a escombros em Palmira

VASILY MAXIMOV / AFP / Getty Images

Depois de o Daesh ter reconquistado a cidade há menos de um mês, a destruição sistemática do património histórico volta a estar na ordem do dia. Desta vez, um tetrapylon e um anfiteatro romano foram atacados. E neste último, horas antes, pelo menos 12 pessoas perderam a vida

É apenas mais um degrau num processo de destruição que não começou ontem. O que não impede que cada novo episódio reforce a perplexidade perante a irracionalidade de uma guerra que vira a sua raiva contra as pedras.

Foi o que aconteceu esta madrugada, quando se soube que o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) tinha reduzido a escombros grande parte de um anfiteatro romano séc. II e de um tetrapylon [ou quadrifonte, monumento romano de forma cúbica com um portão em cada um dos quatro lados] na cidade de Palmira. Maamoun Abdulkarim, o diretor sírio de antiguidades, já reagiu, confessando ao jornal britânico "The Guardian" que os ataques à cidade, e em especial ao seu património histórico, são "um filme de horror" e um "escândalo" sem fim à vista.

"Palmira está ocupada e não há sinais de fúria da comunidade internacional. Estamos a tentar proteger a civilização, o que está além de quaisquer considerações políticas. Tem de haver solidariedade internacional", exortou o responsável. Em causa está a destruição gradual e sistemática da "Veneza do deserto" – como é conhecida a cidade situada no meio do deserto sírio, a 200 quilómetros de Damasco – desde que em 2015 ficou sob controlo do Daesh. Recuperada pela dupla ofensiva levada a cabo por sírios e russos em março de 2016, nove meses depois, em dezembro, voltava a ser tomada pelos terroristas. Até agora.

Relatos do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR) dão conta de que pelo menos 12 pessoas, entre as quais professores e funcionários do Governo, foram executadas esta quarta-feira pelo grupo jiadistas, algumas das quais no anfiteatro romano que horas depois viria a ser parcialmente arrasado,

Património Mundial da Humanidade da UNESCO desde 1980 e um dos mais importantes centros culturais do mundo antigo, Palmira tem visto ruir alguns dos seus grandes e insubstituíveis tesouros. Como o Templo de Bel, com dois mil anos, onde em agosto de 2015 foram executadas 25 soldados do exército sírio; e o Arco de Triunfo romano construído no séc.III. E apesar de os arqueólogos sírios terem conseguido retirar da cidade e enviar para Damasco mais de 400 estátuas e várias dezenas de artefactos, os edifícios ficaram à mercê da ira cega dos ocupantes. O motivo para tanta destruição não é menos irracional: o Daesh considera a preservação de ruínas históricas uma forma de idolatria.