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Cultura

Casa da Música abre esta noite Ano Britânico

O Coro Casa da Música participa hoje no programa da abertura oficial do Ano Britânico

Alexandre Delmar

Temporada de 2017 dá particular destaque á música feita ao longo de séculos nas ilhas britânicas

Logo à noite, na Sala Suggia da Casa da Música (CdM) há uma Sagração Britânica. O nome, escolhido pelos responsáveis da CdM acaba por ser um piscar de olhos a duas realidades associadas nesta programação. Por um lado o destaque para a música feita no Reino Unido, por outro uma referência a uma das principais obras a interpretar pela Orquestra Sinfónica do Porto, sob a direção musical de Baldur Brönnimann. Trata-se da peça “Earth Dances”, de Sir Harrison Birtwistle, este ano compositor residente da CdM, dedicada a Pierre Boulez e tida como uma espécie de Sagração da Primavera do século XXI.

O concerto está a despertar uma enorme expectativa e inclui ainda “Lachrimae”, de John Dowland, “Júpiter”, da suíte Os Planetas, de Gustav Holst e o célebre “Rule, Britania!”, com coro comunitário. A obra de John Dowland foi publicada em 1604 e é apresentada numa versão vocal com textos de alguns dos maiores escritores de língua inglesa.

António Jorge Pacheco, diretor artístico da Casa da Música, sublinha que a decisão de dedicar 2017 à música britânica fora já tomada há três anos. Recorda que em algumas situações tem sido desvalorizada a criação de música erudita no Reino Unido, não obstante todos os grandes nomes que lhe aparecem associados, como Haendel, Haydin ou Mendelsson. Apesar de não serem ingleses, foi na Grã-Bretanha que se afirmaram, e alguns deles naturalizaram-se ingleses numa altura em que a Inglaterra era muito recetiva ao acolhimento de estrangeiros.

Há quem sugira, diz Jorge Pacheco, “que entre Haendel e Elgar há um buraco negro. É um erro, desde logo por haver uma grande produção musical, com inovadoras diferenças enquanto modelo de negócio muito baseado na rentabilidade dos espetáculos”.

Duas idades de Ouro

O diretor artístico identifica duas idades de ouro na produção musical britânica: o período isabelino, no final do Renascimento, “com grandes compositores de nível mundial”, e o tempo de Isabel II, na segunda metade do século XX. De resto, o mais relevante compositor britânico vivo, Harrison Birtwistle estará em residência na CdM, com uma presença regular e profícua na Casa ao longo do ano.

Amanhã, sábado, a partir das 18 horas, o Remix Ensemble, dirigido por Peter Rundel e Pedro Neves, com a soprano Juliet Fraser, estreia em Portugal “Skin”, de Rebecca Saunders, para soprano e ensemble. Também em estreia em Portugal e também resultante de uma encomenda da CdM em parceria com outras instituições, segue-se “Van Gogh/Blue” e, por fim, “Theseus Game”, de Harrison Birtwistle, uma peça para grande ensemble e dois maestros.

Ao longo do ano serão múltiplas as propostas inseridas no Ano Britânico, a par da programação geral da CdM. António Jorge Pacheco destaca, entre 4 e 12 de Abril, os Concertos de Páscoa, com o Remix, a Orquestra Sinfónica e a Orquestra Barroca, que interpretarão uma retrospetiva da obra de James Dillon, Compositor em Associação 2017. Está programada a estreia nacional de “Stabat Mater Dolorosa”, pelo Remix Ensemble e o Coro Casa da Música. Juntarão, ao texto original que descreve as dores da mãe de Jesus crucificado, as reflexões de outros autores. A “Via Sacra” de Dillon é apresentada pela Orquestra Sinfónica, num concerto preenchido por obras instrumentais evocativas, de Messiaen e Benjamin Britten.

Música e Revolução

O festival Música e Revolução, entre 24 e 30 de Abril, vai centrar-se nos escândalos nos concertos Promenade. Não obstante ter havido a intenção, desde a sua fundação, em 1895, de transformar aqueles concertos num espaço aberto a algumas roturas capazes de transformar mentalidades, a verdade é que nem sempre tudo foi pacífico. Em 1995, por exemplo, quando a obra “Panic”, de Harrison Birtwistle, foi tocada na noite de encerramento dos Proms, a caixa de comentários da BBC ficou entupida com queixas do público. Em 1968, a peça “Worldes Blis”, de Peter Maxwell Davies, teve uma desastrosa recepção do público. No entanto, é hoje considerada uma das estreias mais fabulosas de sempre daqueles concertos seguidos em todo o mundo. Aquelas obras serão interpretadas no festival, bem como outras de John Adams e Arnold Schoenberg que passaram igualmente pelos Proms.

A não perder será, também, o programa “Censored Songs”, a 24 de Abril, constituído por temas da área pop-rock banidos pela BBC. É o caso de canções como “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles, e cuja abreviatura dava LSD, ou “Simpathy for the Devil”, dos Rolling Stones, bem como “Anarchy in the UK”, dos Sex Pistols, ou “London Calling”, dos Clash.

Por fim, neste conjunto de destaques do Ano Britânico, chamada de atenção para o Concerto de Natal, durante o qual será interpretado o “Messias”, de Haendel.

A totalidade da programação para o ano de 2017, com os seus múltiplos ciclos e outras iniciativas está contida neste PDF e permite tomar contacto com algumas novidades, como um novo festival temático, dedicado ao humor na música. Vai acontecer em setembro e promete ser um momento da programação a seguir com todo o cuidado.