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Três tigres no deserto de Mojave

foto rita lino

O novo disco de Legendary Tigerman foi gravado no Rancho de La Luna, o mítico estúdio de Dave Catching cravado no meio do deserto de Mojave e por onde já passaram os Queens of the Stone Age, Arctic Monkeys, PJ Harvey e Iggy Pop. O Expresso esteve na Califórnia a assistir a quase tudo

Hugo Franco

Hugo Franco

em Joshua Tree

Jornalista

Os néones dos motéis à beira da Route 62 só iluminam uma pequena parte da paisagem. Tudo o resto permanece na penumbra, como que refém do frio do deserto. O silêncio é cortado pelo ronronar dos carros que tentam não exceder as 65 milhas por hora na autoestrada que liga Los Angeles ao coração do deserto da Califórnia. Uns poucos desaceleram e viram bruscamente para o escuro parque de estacionamento do Joshua Tree Saloon, o bar que às sextas abre sessões de karaoke para os últimos cowboys da noite.

Lá dentro, a luz de estrelas, os enfeites natalícios de dezembro e a música alta apelam a um pé de dança. Mas as temperaturas baixas parecem ter afugentado grande parte da clientela. Três vozes desafinadas deixam o palco e dão a vez ao Pai Natal local, que abandona a garrafa de cerveja mexicana no balcão e agarra o microfone de olhos fechados. Recebido com umas palmas frouxas, o velhote de óculos ajeita o barrete vermelho e, em segundos, torna-se a estrela da noite entre os jovens de cabelo rapado de folga da base militar mais próxima, que cantam com ele num coro desafinado um qualquer êxito country local. Os copos largos de cerveja ajudam a aquecer as gargantas e a esquecer as rotinas lá de fora.

O público despede-se do Pai Natal com uma quente salva de palmas. Entre os mais entusiastas há três músicos portugueses: Paulo Furtado, Paulo Segadães e João Cabrita, que estão instalados há duas semanas em Joshua Tree, uma povoação de 7414 habitantes, situada a 834 metros de altitude no meio do deserto de Mojave. Nessa noite não alinham em karaokes. Tinham passado o dia a tocar e a gravar músicas, preferindo agora assistir sentados ao despontar dos artistas locais. Sem grande sorte, pois o talento não mora no palco do Joshua Tree Saloon.

Na manhã seguinte, não muito longe dali, um lagarto aproveita o sol de inverno deitado em cima do muro de areia. Talvez adivinhe que é sábado. Gordo e de escamas escuras foge para um buraco próximo com a rapidez de uma lebre mal pressente a presença estranha de animais que não são do deserto. A estrada de terra batida afasta-nos um pouco da povoação, leva-nos ao início do deserto e termina junto a um portão com letras cravadas em metal: Rancho de La Luna. A propriedade do músico e produtor David (Dave) Catching, dos Eagles of Death Metal, está aberta aos forasteiros, embora não faltem avisos como este espalhados no quintal: “Private Property. No Unauthorized Access. Please Respect Our Privacy. Leave!” Umas poucas espingardas de pressão de ar estão escondidas, mas à mão — just in case. Há modelos parecidos que custam 29 dólares no Walmart mais próximo.

No deserto. Paulo Segadães, Paulo Furtado e João Cabrita no Parque Natural de Joshua Tree durante um intervalo nas gravações

No deserto. Paulo Segadães, Paulo Furtado e João Cabrita no Parque Natural de Joshua Tree durante um intervalo nas gravações

foto hugo franco

A brisa da manhã liberta melodias dos espanta-espíritos pendurados à entrada da vivenda. São os primeiros sons, ainda antes dos acordes das guitarras. Lá dentro, os três portugueses preparam-se para passar mais um dia fechados no estúdio de gravação do norte-americano nascido em Memphis. A banda de Legendary Tigerman fez uma viagem de nove mil quilómetros de avião entre Lisboa e Los Angeles, mais 130 milhas de carro pela Route 62, instalando-se num motel ali próximo para gravar um disco no local que inspirou lendas do rock’n’roll como Josh Homme, PJ Harvey, Dave Grohl, Alex Turner e Iggy Pop.

— O Jonathan está atrasado outra vez — queixa-se um deles. Os outros riem-se e vão dedilhando uma guitarra ou tocando no sintetizador retro para passar o tempo.

Nada de dramático. Jonathan Russo, o engenheiro de som da casa, não é conhecido pela pontualidade. Tem 33 anos e desde os 15 que passa os dias em frente à enorme mesa de mistura que domina a sala de jantar, por onde estão espalhadas dezenas de guitarras, acústicas e elétricas. O estúdio onde os músicos se fecham para gravar está na divisão vizinha do quarto onde dorme David Catching, que aproveitou a vinda de Legendary Tigerman para passar uns dias em Los Angeles. Regressará muito em breve. E pelo meio fica a cozinha, cheia de loiça, garrafas de bebidas brancas, teclados e mesas de misturas.

O carro guiado por Jonathan estaciona no quintal. Em vez de sair, o americano prefere ficar sentado mais uns minutos a ouvir uma das músicas gravadas no dia anterior e a fumar um cigarro. Quando entra em casa dá um forte abraço a cada um dos portugueses e faz um pedido:

— A música está muito boa. Mas podemos voltar a gravá-la?

— Porque não? — respondem os músicos bem dispostos.

Ninguém perde tempo e cada um ataca o seu instrumento: Tigerman ensaia a voz, “Sega” faz backvocals com Cabrita, que volta ao saxofone e experimenta nos teclados.

Apesar das repetições, do corta e cola, habitual no trabalho de estúdio, ou da tensão por se gravar em contrarrelógio (a deadline das sessões no deserto de Mojave está a poucos dias), os músicos usam a arma do humor com pontaria para superar obstáculos:

— Estão muito fortes, uns verdadeiros Pavarottis. Fazem-me chorar — vai repetindo Paulo Furtado para os dois colegas durante a tarde de sábado em que se ensaiam muitas vozes, umas poucas guitarras e até estalidos de dedos. Nas horas seguintes, é possível perceber que o próximo trabalho do ‘homem-tigre’, ainda sem título definido, tem algumas semelhanças com a sonoridade de “Femina” (o álbum de 2009) ou de “True” (2014). Mas sentem-se sobretudo novas vibrações saídas diretamente do deserto, que vão dos mariachis mexicanos à folk norte-americana. Algumas canções têm títulos (ainda provisórios) como ‘Black Hole’ (rock de ambientes noturnos) ou ‘To All My Brothers’ (seguramente um dos hits do álbum que sairá em setembro),

— Preciso de um bacalhau à Gomes de Sá. Vamos mandar vir uma dose por telefone — brinca Paulo Furtado quando a noite se aproxima e se apercebe de que estão há várias horas sem comer no estúdio/casa de Dave Catching.

No rancho é impossível ignorar a memorabilia rock. Está espalhada por todas as divisões. Logo à entrada salta à vista o disco de ouro de “Songs for the Deaf”, o terceiro álbum de estúdio dos Queens of the Stone Age (QOTSA), amigos de longa data da casa, tendo ali gravado dezenas de músicas na já extensa carreira. Ao lado do piano, outro disco de ouro, “AM”, oferecido pelos ingleses Arctic Monkeys ao dono do estúdio.

Na porta do frigorífico não faltam crachás e palhetas da banda da casa, os Eagles of Death Metal, e várias dedicatórias de amigos da estrada: “To David: Nice boots”, escreveu Lemmy, líder dos Motörhead, por cima de uma fotografia em que o cantor ostenta umas botas brancas com simbologia ariana. Também Dick Dale, pai do chamado surf rock, deixou ali a sua assinatura: “They don’t come any better”, escreveu numa alusão que nos escapa entre os dedos.

Nas estantes, há livros de todas as bandas de rock que possamos imaginar: Rolling Stones, Beatles, Queen, Willie Nelson e até um sobre o krautrock. Os DVD com concertos e documentários são ainda mais heterogéneos e vão de Led Zeppelin, Judas Priest, Jimi Hendrix, AD/DC, The Clash até Duke Ellington, Nat King Cole e claro, Elvis.

Um pequeno intervalo é aproveitado para o engenheiro de som fumar um cigarro e a banda medir o seu sex-appeal numa maquineta branca que quase passava despercebida no meio de tantos instrumentos. Paulo Furtado arrisca, mete uma moeda de 25 cêntimos na ranhura enquanto mantém o dedo indicador num sensor. A pontuação de 60 a 130 define se alguém é dono de um “Fantastic Body and Sexy” ou se, pelo contrário, não passa de um “Total Couch Potato”. O baterista “Sega” é o que tem melhor score: “Devem ser os hambúrgueres que me fazem sexy”, brinca.

Nessa noite, à falta do bacalhau à Gomes de Sá, optam, uma vez mais, pela refeição tradicional da terra, um hambúrguer com batatas fritas. Foi tudo engolido meio à pressa pois as gravações do dia ainda não tinham terminado. Por este andar, o nível de sex-appeal da banda ainda atinge a estratosfera.

Magia nos dedos de David

O JT Country Kitchen não é apenas um dinner encostado a uma bomba de gasolina, onde até aos domingos se servem panquecas, ovos com bacon ou omeletes de salsa à espanhola — tudo em tamanho XXL. No pequeno estabelecimento construído todo em madeira há pedaços de história local espalhados em molduras pelas paredes: o rocker Josh Homme ou o chef Anthony Bourdain também ali tomaram o pequeno-almoço, posando ao lado dos donos em fotos para mais tarde recordar. Este é um dos locais favoritos de Tigerman e companhia, que não perdem muito tempo nos ovos com bacon. É tempo de partir para o parque natural que dá a inspiração, ou parte dela, aos que aqui aterram.

É unânime. Os estranhos catos selvagens que são também árvores — batizados de “árvores de Josué” por um grupo de mórmones que atravessava aquele deserto no século XIX — causam espanto a todos os artistas que passaram pelo estúdio fundado por Dave Catching e Fred Drake em 1993. “Há algo de avassalador, maior do que nós em Joshua Tree”, descreveu Josh Homme, o filho da terra que arrastou para aquela região dezenas de artistas para gravarem não só as famosas sessões no deserto, que se iniciaram em meados dos anos 90, mas também álbuns que marcaram a cena rock nos últimos anos. O britânico Alex Turner, dos Arctic Monkeys, que ali gravou “Humbug”, conseguiu explicar em poucas palavras o que sentiu à revista “Rolling Stone”: “Uau, aquilo é um local especial!”

Os portugueses partilham um pouco da mística. “É um sítio mágico em que ficamos com o foco a 200% na música. Não te distrais e apanhas momentos como um sol a pôr-se entre os catos e vês um pássaro a voar”, explica Paulo Furtado, enquanto viaja de carro com os amigos pelo deserto de Joshua Tree naquela manhã de sol.

Não é a primeira vez que o ‘homem-tigre’ pisa a areia do território habitado pelos índios Mojave. Em maio, tinha viajado para o mesmo local acompanhado pelo fotógrafa Rita Lino e pelo realizador Pedro Maia para filmarem uma longa-metragem, “How To Became Nothing”, em que Furtado é também ator. “É uma road-trip de autodescoberta”, revela o músico de Coimbra, que escreveu nessa altura a maior parte das canções que fazem parte deste novo disco. O filme é lançado em breve e terá uma edição especial durante o lançamento do álbum [ver entrevista abaixo].

Em redor, o cenário podia ter saído de um filme de Wim Wenders, David Lynch ou Sergio Leone. Para onde quer que olhemos, não faltam Joshua trees de todos os tamanhos e feitios, algumas com perto de mil anos e cinco metros de altura, acompanhadas pelos matacões (boulders) — rochas arredondadas de baixa altura, procuradas por dezenas de turistas que fazem milhares de quilómetros só para as escalar. No dia anterior, Paulo Segadães tinha também trepado a algumas, mas nesta manhã ninguém vinha com muito tempo nem com sapatos adequados para grandes escaladas. A banda sai do carro para tirar fotografias e observar o deserto a perder de vista. E acede a ser fotografada ao lado de um cato que, por ser tão grande e verde, se assemelha a uma árvore de Natal. “Ainda dizem que estamos a imitar os U2”, brincam.

Nota de rodapé. A banda de Bono viajou durante alguns dias no deserto da Califórnia para ser fotografada por Anton Corbijn, também em dezembro, mas de 1986. Na capa do disco “The Joshua Tree”, que fez história, o grupo irlandês surge no deserto, a preto e branco. O cato que surgiu nas fotografias tornou-se um local de peregrinação de fãs e foi cortado ilegalmente, há dois anos. “Atenção que o disco dos U2 não foi gravado em Joshua Tree”, adverte Jonathan Russo, depois de os portugueses regressarem ao trabalho.

Trabalho e descanso. Uma sessão de gravação no Rancho de La Luna com Furtado na guitarra, Segadães na bateria e Cabrita no saxofone; em baixo, Tigerman num momento de descontração num dinner ao lado da Route 62

Trabalho e descanso. Uma sessão de gravação no Rancho de La Luna com Furtado na guitarra, Segadães na bateria e Cabrita no saxofone; em baixo, Tigerman num momento de descontração num dinner ao lado da Route 62

foto hugo franco

foto rita lino

Horas depois, já sem o sol no horizonte, o estúdio é invadido por uma mistura de aromas de vegetais frescos, frango frito e cerveja mexicana acabada de sair fresca da garrafa para os copos. Os músicos estão especialmente animados naquela noite: têm o dono da casa com eles, atento a tudo o que tocam. Mas, perto das sete da noite, Dave Catching mostra-se especialmente concentrado na operação, em tudo delicada, entre o fogão e o lava-loiças. “Estou a preparar uma receita que me foi ensinada por um amigo que vive na Suíça”, revela o homem de barbas brancas, boné na cabeça e sorriso fácil, enquanto vira com cuidado as pernas de frango nas duas frigideiras. O segredo do prato é deixar tostar um pouco a pele para que o frango fique estaladiço.

É uma tradição já com mais de duas décadas. O músico de 55 anos e membro dos Eagles of Death Metal (banda de garage rock que ajudou a fundar em 1997) costuma servir o jantar às bandas que recebe em sua casa. Mas Dave assegura com solenidade que não é para todos: “Só preparo refeições para bandas que são cool como eles”, diz, apontando para os portugueses, que dão os últimos retoques numa auto-harpa, instrumento nascido nas raízes do folk americano, utilizado pelos Beach Boys, e que fará também parte de algumas canções do novo trabalho de Tigerman. Afonso Rodrigues, membro dos Sean Riley & The Slowriders e Keep Razors Sharp, e amigo de Paulo Furtado, aterrou em Los Angeles na noite anterior, e está a puxar pela língua do americano, que revela ser um contador de histórias nato.

Dave conta aventuras passadas nas bandas de juventude em Memphis e na sua passagem por Los Angeles, onde disse presente a todos os estereótipos da trilogia sex, drugs and rock’n’roll. Com o frango e o empadão já limpos dos pratos (oficialmente a melhor ementa nos dias passados em Joshua Tree), a conversa fica um pouco mais emocional. O músico recorda-se de um jovem português que conheceu em Lisboa em setembro, junto ao Coliseu dos Recreios, onde atuou com os seus Eagles of Death Metal. “Viu-nos e disse-nos ter estado na sala de espetáculos do Bataclan, em Paris, entre a multidão, quando se deu o ataque terrorista. Ao falar começou a chorar. Ainda o convidámos para assistir ao nosso espetáculo mas não sei se ele apareceu”, revela.

Não é todos os dias que vemos uma lenda do rock a cozinhar e depois a lavar os pratos e a arrumá-los no escoador com a ajuda dos quatro convidados portugueses. Em Joshua Tree ninguém andou a partir pratos ou a destruir motéis. A quantidade de clichés associados à vida louca do rock’n’roll e avistados no deserto de Mojave foi zero. Furtado, Cabrita e Segadães (dois ex-tabagistas e um não-fumador) pouco mais beberam do que umas cervejas mexicanas, Corona ou Modelo, uns copos de vinho produzido nas vinhas da Califórnia e um ou outro shot de tequila oferecida pelos anfitriões. Longe parecem os tempos das famosas sessões do deserto de Joshua Tree em que as trips faziam também parte integrante das gravações. “Numa das sessões dos Kyuss [banda dos anos 90 de que também fazia parte Josh Homme], depois de toda a gente tomar uns cogumelos alucinogénicos, o Fred decidiu ir montar o cavalo, que se chamava ‘Kashmir’, e entrar pela casa montado nele. Foi hilariante”, conta Dave entre gargalhadas. Reza a lenda que os efeitos dos cogumelos duraram três dias.

Os restos do frango já tinham sido varridos para o lixo, mas havia ainda vinho nos copos. A noite lá fora estava cerrada e Jonathan Russo tinha acabado de colocar uma das músicas novas da banda portuguesa na mesa de som. Dave, apreciando o que ouvia, arrisca como quem não quer a coisa: “Se quiserem toco umas coisas country que aprendi em Memphis, por cima desta canção...”.

O que ele foi sugerir...

Num estalar de dedos, Jonathan traz do quarto uma das guitarras preferidas do músico americano, liga os cabos à mesa e carrega novamente no play.

Os primeiros acordes da guitarra country não saem muito bem. Dave torce o nariz:

— Podes voltar a colocar a canção, John?

John volta ao zero e Dave também.

Os portugueses sentam-se expectantes, de copo de vinho na mão, à volta do americano das barbas brancas, que nem à segunda tentativa parece ficar satisfeito.

Mais umas caretas e risos.

— Volta atrás, por favor.

— OK.

E à terceira os dedos do mestre fazem magia. Daquela que só acontece de tempos a tempos no rock’n’roll. Esta noite especialmente fria, a poucos dias do Natal, vai fazer seguramente parte da lenda do Rancho de La Luna. No final da sessão, muitas palmas, um sorriso humilde e alguns olhos brilhantes enchem a vivenda, à meia luz. Dave Catching passou oficialmente a ser um Tigerman.

The Legendary Tigerman: “Queria sair da zona de conforto”

Paulo Furtado. “É um sítio mágico, em que ficamos com o foco a 200% na música. Não te distrais e apanhas momentos como um sol a pôr-se entre os catos e vês um pássaro a voar”

Paulo Furtado. “É um sítio mágico, em que ficamos com o foco a 200% na música. Não te distrais e apanhas momentos como um sol a pôr-se entre os catos e vês um pássaro a voar”

foto rita lino

Como nasceu a ideia de ir gravar um disco para o deserto de Joshua Tree?
Paulo Furtado: Sobretudo porque queria sair da zona de conforto, ir para fora de pé dos discos anteriores. Simultaneamente, começou a nascer esta ideia do deserto. Já cá tinha vindo antes, em maio, para compor, fazer aquilo que seriam os visuais do disco e fazer uma curta-metragem (que evoluiu para uma longa-metragem) relacionada com o disco. Quando nessa altura fui ao Rancho de La Luna, o estúdio estava a ser remodelado. O facto de terem sido gravados aqui alguns discos importantes também contou. Ouvi falar do estúdio pela primeira vez depois de serem lançadas as ‘Sessões no Deserto’, em que participou a PJ Harvey. Agradava-me a ideia de estarmos aqui os três. Há muito tempo que não gravava como banda. E o facto de ter o João Cabrita e o Paulo Segadães comigo pedia também que nos afastássemos um bocadinho. Para estarmos numa zona de criação em que pudéssemos estar os três juntos e criar uma sonoridade mais particular. Era uma ideia de isolamento, de reinventar o meu formato de one man band e perceber como é que isso se faz. Também era importante estar com pessoas que não fizessem a mínima ideia de quem sou e que olhassem para mim apenas como mais um gajo que vai entrar no estúdio e ver o que ele vai fazer.

Quando chegaram ao estúdio, em meados de dezembro, já tinham as coisas preparadas ou a inspiração nasceu aqui na Califórnia?
P.F. — Houve muita coisa que nasceu aqui, mas vínhamos muito, muito preparados. Fizemos uma pré-produção em Lisboa, em que definimos o esqueleto e de que maneira as músicas poderiam crescer ou não. A parte de estrutura foi bastante trabalhada em Lisboa. E depois jogámos muito com a ideia de usar os instrumentos que existem no estúdio: usámos a auto-harpa, os teclados... Já tínhamos recebido uma lista com o material do estúdio. Havia muitos instrumentos particulares e com sonoridades raras, mas foi tudo muito instintivo. Gosto de guardar essa parte instintiva para depois trabalhar as canções. Estamos a fazer uma sonoridade um pouco diferente da dos discos anteriores.

O que fez aqui neste mesmo local em maio, juntamente com o Pedro Maia e a Rita Lino?
P.F. — Faço um esforço para que todos os meus discos transpirem para outras artes, usualmente o cinema e a fotografia. Neste trabalho decidi inverter completamente o processo e partir do pressuposto de que a partir do cinema e da fotografia chegaria à composição e gravação de um disco. No início do ano comecei a trabalhar com o Pedro e a Rita, em Berlim e Lisboa, no guião da viagem de um homem (interpretado por mim) pelo deserto, numa road-trip de autodescoberta em que o seu objetivo maior, pela procura e absorção de conhecimento, era transformar-se em nada. Neste processo a três definimos um trajeto, que começava em Los Angeles e ia até Death Valley, com o miolo da rodagem a ser filmado em Joshua Tree, definimos um pouco o personagem, que objetos levaria, qual seria o guarda-roupa (que acabou por ser o meu guarda-roupa obrigatório, calças pretas e camisa branca, quatro mudas, durante as três semanas, visto que estávamos constantemente a filmar) e algumas ações em determinados locais. Sabíamos que ele se tentaria ‘encontrar’ pelo batismo ou pelo fogo, sabíamos algumas coisas que iriam acontecer, mas deixámos uma grande parte do seu destino em aberto, recetivos à própria experiência da viagem. A ideia era filmar algo que seria uma curta-metragem e ao mesmo tempo fotografar todos os conteúdos do futuro disco, livro e filme, que seria composto nestas três semanas muito intensas. O processo era muito simples. Começava o dia muito cedo com a escrita (e posterior gravação, enviada sempre na mesma manhã para o Pedro e Rita) de um falso diário deste homem, que incorporava na ficção factos reais que ia vivendo. Esse diário influenciava as filmagens do dia, e todos os dias o processo se repetia. De noite, recolhia-me no quarto, com uma guitarra, e escrevia paralelamente as canções do disco. Muitas coisas foram contaminando as outras. O filme influenciava a escrita das canções e vice-versa, e o personagem do filme foi ganhando particularidades minhas. O processo foi tão intenso que só numa primeira montagem acabámos por compreender que tínhamos em mãos uma longa-metragem. Neste momento o Rodrigo Areias e o Bando à Parte envolvem-se como coprodutores do filme e existem filmagens adicionais em Berlim para finalizar o filme.

Como é que se chama o filme?
P.F. — Chama-se “How To Became Nothing”, estará em rotação em dois formatos durante o primeiro semestre de 2017, um de cine-concerto/live cinema, em que eu faço a banda sonora ao vivo enquanto o Pedro Maia manipula aspetos da montagem em tempo real, e estará em sala de cinema na sua versão ‘normal’ de longa-metragem. O filme mais tarde terá uma edição especial em conjunto com o disco.

Duas semanas depois de terem estado juntos no estúdio, o que é que ele tem afinal de especial?
Paulo Segadães: Em primeiro lugar, estamos a falar de um estúdio que não é comum: fica dentro de uma casa de uma pessoa viva. Os materiais estão espalhados pelas divisões da casa: amplificadores no quarto, bateria na sala, mesa de mistura e teclados espalhados pela cozinha. Não há estúdios assim. Há, por exemplo, aqueles pequenos estúdios caseiros de um músico, mas não têm uma dimensão destes. Só isso, por si, é fora do comum. Aliado a isso, é um estúdio com uma história muito forte, onde foram feitos discos de que todos nós gostamos. A premissa do estúdio é ser um sítio que é fora do mapa, estamos isolados e quando vimos para aqui é para fazer música.

P.F. — Tecnicamente não é um estúdio brilhante. Ninguém vem para aqui para encontrar o último grito da tecnologia. Vim para aqui muito para sentir o feeling do Dave: basta vê-lo tocar no estúdio para perceber que há muita música que passou por ele e pelo estúdio. É um sítio mágico em que ficamos com o foco a 200% na música. Não te distrais e apanhas momentos como um sol a pôr-se entre os catos e vês um pássaro a voar

David Catching: “No Bataclan 
vi o que há de pior 
na Humanidade”

foto hugo franco

Quando conheceu a equipa de Tigerman?
Em Lisboa, quando fomos tocar ao Coliseu dos Recreios, em setembro. Mas há algum tempo que trocávamos e-mails. Da maneira como eles falavam, percebi logo que eram uns tipos cool. Por aqui, só costumo receber amigos, ou amigos de amigos, ou se gosto da banda. Eles foram supercool e no fundo eles produzem-se a eles próprios e eu nem tinha de estar aqui, mas gosto muito deles e faço questão de cá estar. É a primeira vez que tenho uma banda portuguesa no meu estúdio. Até há pouco tempo não sabia nada sobre o rock português.

Qual é o seu tipo de participação neste álbum?
Principalmente só estou a cozinhar. E quando eles me perguntam se eu quero tocar um pouco de guitarra eu faço-o. É uma coisa muito descontraída.

O estúdio nasceu em 1993, fundado por si e por Fred Drake. Após 23, e depois de por cá terem passado tantos artistas de renome, o que acha que os atrai aqui ao deserto?
Não posso falar por eles, embora eles continuem a aparecer. Acho que vêm pela mesma razão pela qual eu gosto de aqui estar: esta casa está a dar uma grande contribuição à música. Escrever canções é uma forma de abrirmos a mente e de deixarmos as coisas fluir. Deixarmos que as coisas penetrem em nós e depois usarmos essas ideias e energia para gravar um disco. Pessoas como o Josh Homme dizem-me que gostam de estar aqui porque aqui se torna fácil que as ideias venham até nós — aquilo a que chamamos inspiração. Perguntei aos Arctic Monkeys por que razão gostaram de gravar aqui. Eles disseram que as razões eram as mesmas do Josh, e também porque se trata de um local pequeno, onde podem interagir todos juntos e ao mesmo tempo, forçando-os naturalmente a trabalhar como uma equipa. Alguns estúdios são tão grandes e têm tantas divisões que os membros da banda acabam por estar separados.

Tendo o deserto como cenário, também os ajuda na inspiração?
Completamente. É tão bonito cá fora. Além disso, os estúdios das grandes cidades têm à sua volta tantos concertos a acontecer ao mesmo tempo, tantas festas, há tantos amigos em redor... São muitas as distrações para uma banda, o que lhes retira a concentração. Pelo contrário, em Joshua Tree não há nada à volta. Fica-se muito focado no que se está a fazer no estúdio e não há grandes distrações.

Por que razão veio para o meio do deserto em 1993?
Quando o Fred se mudou para esta casa e a mãe dele se mudou para uma outra, próxima, eu vivia em Nova Orleães. Abri lá um restaurante. No início de 93, ele telefonou-me a contar que um amigo nosso, Dean Chamberlain (fotógrafo e realizador de videoclips), estava a vender uma boa parte do seu equipamento de gravação e que poderíamos pagar o que pudéssemos. Dizia que era impossível não comprarmos o material. Éramos amigos mas não sei por que razão me escolheu a mim, já que, embora fôssemos amigos, não éramos assim tão íntimos. De vez em quando vinha a Joshua Tree e gravava e divertia-me com o Fred. Além disso, o negócio do restaurante corria-me bem. Não tinha razões para vir para a Califórnia. Mas, por alguma razão que não sei explicar, disse-lhe que aceitava a proposta dele. Era um grande amigo, músico, engenheiro de som, produtor. Creio que o meu investimento foi de apenas 3 mil dólares. E tornei-me sócio dele. Na altura, pensava que iria ficar por um ano, descontraidamente a ver o que acontecia. Mas as coisas foram ganhando forma rapidamente. O restaurante teve um incêndio e fiquei sem ele e sem dinheiro já que o dono do prédio não tinha seguro. De um momento para o outro estava a gravar com os Kyuss (banda de Josh Homme antes dos QOTSA) e em digressão com uma banda do Fred, chamada Earthlings? E depois tudo mudou e fiquei para cá.

O momento mais negro na sua vida foi o do concerto do Bataclan, em Paris, na noite de 13 de novembro de 2015 em que morreram 89 pessoas vítimas de um ataque terrorista?
Sem dúvida. Vi o que há de pior na Humanidade. Era para ser mais uma noite divertida, entre pessoas que queriam estar ali a apreciar a música. E de repente estavam a ser assassinadas à nossa frente. Foi horrível. Não há explicação para estas pessoas que querem fazer mal a inocentes que apenas se queriam divertir e não estavam a fazer mal a ninguém. Não há nada de mais maldoso e cobarde. Esses assassinos nem sequer eram pessoas oprimidas, não cresceram sob opressão. Não consigo perceber mesmo o que se passa na cabeça destas pessoas. Muitas das vítimas eram jovens muçulmanos.

Julgou que iria ser o seu último dia de vida e dos seus amigos da banda?
Sim. Foi a pior noite da minha vida.

Pensou que nunca mais iria tocar em concertos?
Sim. Depois do que aconteceu não queria pensar em dar concertos. Por sorte, os U2 foram muito gentis connosco, são maravilhosos, e convidaram-nos a ir a Paris tocar com eles, logo no mês seguinte, e mostrar ao mundo que não deveríamos retirar às pessoas o prazer de se divertirem. Eu sabia que com eles estaria a salvo, pois eles são um nome tão grande que teríamos todas as condições de segurança. Provavelmente se eles não nos tivessem convidado não me veria novamente a dar concertos. Foi bastante assustador as primeiras vezes em que tocámos, pois estávamos sempre desconfiados.

O Expresso viajou a convite da Metrodiscos e Discos Tigre