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Guerra ao açúcar

Doce inimigo. Ao longo da última década, a indústria do açúcar tentou incriminar as gorduras saturadas pela má saúde dos povos ocidentais. Contudo, a farsa tem de acabar, diz Gary Taubes

Ao longo de décadas, a indústria dos doces e dos produtos processados conseguiu esconder do público os seus malefícios e condenar as gorduras saturadas como o principal culpado pela obesidade e doenças. Este livro mostra como os industriais do açúcar conseguiram comprar a ciência e enganar os consumidores

Não haverá melhor altura do ano para lançar, no mercado, um livro sobre saúde e hábitos alimentares. Certamente, muitos dos leitores ainda estão, resolutamente, a cumprir uma das mais frequentes resoluções do Ano Novo: comer bem e praticar regularmente exercício. Ou seja, ingerir menos calorias e queimar o máximo de calorias possível. Comer mais verduras e menos gorduras. Pois sim, a lista de “podes e deves” repete-se sempre por esta altura do ano, assim como a maior propensão para a leitura sobre estas temáticas. Este é, por isso, um lançamento editorial ao qual deve estar atento. É que para o jornalista norte-americano Gary Taubes, 'enfant terrible' do mundo alimentar e vilependiado pela classe de nutricionista, a causa da má alimentação dos povos ocidentais e de todas as doenças associadas (e que vão muito além da obesidade e dos diabetes) é só uma — e não tem nada a ver com os benefícios de uma dieta baixa em calorias e gorduras: o açúcar.

Taubes já tinha escrito sobre o tema, em 2002, quando assinou um artigo de capa do 'The New York', em que colocava em causa o combate acirrado ao consumo de gordura. O tema deu em livro (“Good Calories, Bad Calories”) e, anos mais tarde, novo livro, “Why We Get Fat”, em que culpa o sistema de saúde americano pela má saúde dos seus conterrâneos.

Para Taubes, dar açúcar a uma criança é o mesmo que oferecer um cigarro ao seu filho. A imagem pode ser agressiva, mas é mesmo assim, argumenta o jornalista. Seguindo a lógica dos maços de tabaco, também os pacotes de rebuçados e demais guloseimas devem conter a mensagem: “O açúcar mata”. É que provoca muito mais do que cáries dentárias, excesso de peso ou diabetes. Nos Estados Unidos, 10% das crianças têm doenças de fígado, e estas não têm nada a ver com o consumo de álcool. O açúcar está na sua base, assim como é um dos principais responsáveis, argumenta Gary Taubes, por doenças cardíacas várias, hipertensão, diversos tipos de cancro e Alzheimer. É certo que todos sabemos que o açúcar não faz bem, mas Taubes vai mais além do que ao poder maléfico deste ingrediente diz respeito.

Durante as últimas décadas, a “má ciência” e a indústria de comida processada fizeram das gorduras o principal culpado pelos problemas de saúde dos ocidentais. As consequências dos hidratos de carbono (onde se incluem a glicose e a sacarose), nomeadamente aqueles que são altamente processados e facilmente digeridos, foram pouco analisadas mas, diz Taubes, esses são exatamente a grande fonte dos problemas alimentares.

“A escrita de Taubes é tanto inflamada como profundamente investigada”, diz o 'The New York Times'. E vem no momento certo, diz a crítica, lembrando que, no último mês de setembro, um investigador da Universidade da Califórnia publicou documentos que mostram que, em 1965, a americana Sugar Research Foundation (atual Sugar Association) principal pagou a três cientistas da reputada Universidade de Harvard para encobrirem a ligação entre os açúcares e as doenças cardíacas, virando a atenção antes para as as gorduras saturadas.

Da mesma forma, a Coca-Cola e diversos fabricantes de doces procuraram procuraram sempre ter a ciência do seu lado, financiando estudos que demonstram uma fraca ligação entre o consumo de açúcar e a obesidade. A agência noticiosa AP denunciou, em junho passado, a associação americana dos industriais dos doces (National Confectioners Association) por ter financiado o trabalho de um professor de nutrição da Universidade do Estado do Louisiana, que publicou um estudo que afirma que as crianças que comem açúcar são mais magras do que as que não consomem o dito.

Desde da década de 1950, numa altura em que o governo norte-americano decidiu racionar o consumo de açúcar por, alegadamente, não fazer bem à saúde, que a indústria tem procurado manter este ingrediente bem presente na dieta dos países ocidentais — contra tudo e contra todos. A criação da tal Sugar Research Foundation, nessa época, marca o início de uma luta sem tréguas por parte de um sector que, tal como a indústria do tabaco, assumiu uma postura estratégica e de comunicação agressiva desde sempre.

Nestas guerras, convém ter um bode expiatório à mão, para desviar atenções, e foi assim que o consumo em excesso de caloria se tornou no principal culpado pela má forma e doenças da população, argumenta Gary Taubes. Afinal, de uma colher de chá tem apenas 16 calorias porquê escolher as guloseimas e os alimentos processados como responsáveis por doenças várias e a epidemia da obesidade?

“The Case Against Sugar”, de Gary Taubes, ed. Knop, 384 páginas, €15,60 (preço na Amazon)

“The Case Against Sugar”, de Gary Taubes, ed. Knop, 384 páginas, €15,60 (preço na Amazon)

Taubes enceta uma interessante e bem fundamentada narrativa, ao longo de décadas, sobre a indústria do açúcar e as suas estratégias, da mesma forma que faz um diagnóstico interessante (e assustador) dos consumidores contemporâneos. Não somos nós aquilo que comemos? E se estivermos a comer açúcar em doses bem mais generosas do que devíamos, mesmo que pensemos estar a ingerir menos calorias? É que mesmo em produtos que consideramos “magros”, diversas formas de açúcar (e que são viciantes) fazem parte da informação nutricional. É o mesmo que ser um não fumador num gabinete de fumadores, diria Taubes.

Mais uma vez, este é o tempo certo para fazer esta leitura. Certamente, no equilíbrio está o ganho. Afinal, mesmo que se retirem por completo os açúcares de uma dieta, dificilmente todas as maleitas associadas ao mesmo desaparecem. É no meio que está a virtude e, por isso, numa dieta equilibrada. Vá, retire alguns açúcares, mesmo que ingira mais calorias. E tente manter a resolução até ao final do ano. Vai um chocolate?