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Vai no Batalha

RIVOLI. No próximo dia 21 o teatro comemora 85 anos com 15 horas de programação contínua. “Montanha” é um dos espetáculos

D.R.

Comecemos por explicar o título de modo a nos entendermos no resto. Se cada localidade terá as suas expressões idiomáticas, esta é uma das mais características do Porto. Para satisfazer a tentação da caricatura concedamos a troca dos “v” pelos “b”. Admita-se, então, a alta probabilidade de muitos portuenses pronunciarem “bai no Batalha” como modo de rematarem uma conversa aos seus ouvidos recheada de criatividade narrativa. Não é bem a pós-verdade. É mesmo a denúncia da mentira pura. Ou seja, é tudo tão inverosímil que parece filme. Daí o “Vai no Batalha”, nome de uma das mais prestigiadas salas de cinema da cidade, praticamente fechada desde o Verão do ano 2 000.

Pelo caminho aconteceram várias tentativas de ressuscitar um espaço situado no coração da baixa com valor arquitetónico e artístico, seja pelo projeto de Artur Andrade, seja pelo baixo-relevo de Américo Soares Braga (1909-1991) colocado na fachada e alvo da Censura, tal como os painéis de Júlio Pomar, preso em Caxias por alturas da inauguração da sala, no Verão de 1947.

Com a Praça da Batalha a renascer das cinzas onde chegou a afundar-se, graças à recuperação do Teatro Nacional de São João, ao restauro do edifício onde antes funcionou o cinema Águia d’Ouro, e à transformação em hotel de luxo – numa zona com vários outros hotéis – do grande edifício das antigas instalações dos CTT, o Batalha começava a transformar-se numa excrescência numa zona à procura de vida nova.

“Brother”, do coreógrafo Marco da Silva Ferreira

“Brother”, do coreógrafo Marco da Silva Ferreira

Embora ainda sem a confirmação oficial, aqui fica a notícia pela qual muitos aguardavam. Está por fim resolvida a negociação com os numerosos herdeiros e o Batalha vai em breve regressar ao convívio dos cinéfilos do Porto. A Câmara Municipal vai assumir a programação de um espaço tão marcante na história e criação do Cineclube do Porto. Antes, porém, há obras a fazer, há material de projeção a adquirir, porque muitos foram os anos de abandono e degradação.

Neste roteiro pelas boas notícias, uma outra se impõe. A reabertura nos próximos dias de outra das míticas salas do Porto: o cinema Trindade. Já teve abertura programada para novembro. Houve atraso nas obras de restauro das suas salas e tudo indica, agora, que regressa a 26 deste mês ou, na pior das hipóteses, nos primeiros dias de fevereiro. Após o deserto absoluto, o Porto volta a ter na baixa salas para a exibição regular de filmes.

O Batalha vai permitir libertar o Rivoli, cada vez mais tomado pela vontade de assumir uma programação de nível internacional na área das artes de palco. É uma opção sustentada na constatação de uma realidade que em si mesma constitui um poderoso desmentido das justificações para os anos de degradação programática a que o teatro municipal foi votado. Em 2016 realizaram-se ali 150 espetáculos, 95 dos quais assinados por criadores ou companhias locais, e vistos por mais de 100 mil espetadores. O orçamento de €891 mil sobe este ano para €1,056 milhões, repartido pelo Rivoli e pelo Teatro do Campo Alegre, cada vez mais duas estruturas integradas num mesmo projeto. Tudo isto porque há públicos. Há gente interessada e disponível. Para o cinema, como o confirma a procura existente. Para as artes de palco, como se vê pelo sucesso de cada um dos espetáculos.

O orçamento do Rivoli subiu para €1 milhão

O orçamento do Rivoli subiu para €1 milhão

FOTO JOSÉ CALDEIRA TMP

A programação ontem anunciada mantém a chama das grandes apresentações de dança contemporânea, uma das imagens fortes do Rivoli. No entanto, passarão pelas duas casas – sem contar com as atividades de festivais como o FITEI ou Fantasporto - 85 criações das mais diversas áreas (da música, ao circo, da poesia ao teatro). 19 dos espetáculos são criações internacionais, dos quais 16 se apresentam em estreia nacional.

A ideia de que a durante muito tempo cinzenta baixa portuense estava sumida para sempre no estado comatoso a que foi votada é, afinal, uma daquelas situações capazes de convocar a expressão tantas vezes ouvida nas ruas da Sé e de Miragaia: Vai no Batalha.