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Cultura

Ecossistema febril

O corpo virado do avesso numa peça de André Braga e Cláudia Figueiredo

Dinis Santos

As mudanças climáticas, dentro e fora do corpo humano, pela Circolando

Claudia Galhós

Donald Trump, enquanto candidato à presidência dos Estados Unidos, afirmava que as mudanças climáticas são “uma invenção da ciência”. Enquanto presidente eleito lá reconsiderou e declarou estar de “mente aberta” para encarar a questão. As evidências da relação que temos com o ambiente não deixam margem para dúvida: a ação do homem sobre a natureza causou danos perigosos para a sobrevivência da espécie humana. Os artistas também têm alinhado na reflexão e no alerta sobre este tema.

É isto mesmo que faz a Circolando — companhia do Porto, dirigida por André Braga e Cláudia Figueiredo — na nova criação, “Climas”. Na verdade, mesmo antes desta peça para seis intérpretes, com música ao vivo e projeção de vídeo, já havia uma dimensão ecológica na obra da companhia, criada em 1999, na altura mais identificada com o novo circo.

De então até hoje, os materiais naturais foram protagonistas nos seus espetáculos, numa poesia visual que criaram em diálogo íntimo com a expressividade do corpo. Basta recordar a presença das matérias da vivência da escuridão pelos mineiros em “Cavaterra” (2004); o papel fundamental da madeira em “Casa Interior” (2006), no maravilhoso cenário construído com portas velhas; ou a areia na peça com o mesmo nome, de 2012, que inaugurou uma dimensão mais intimista e que afirmou a posição sensível da Circolando na dança e num género que integra múltiplas disciplinas. Podemos incluir também “Noite” (2015), inspirada na poesia de Al Berto, que dava continuidade a uma estética de ruína, também do corpo e das vivências humanas, mas ali muito marcada pela destruição, permitindo uma leitura paralela entre um comportamento humano perturbado e a pegada humana deixada no planeta, nomeadamente por via do petróleo, do desperdício, do consumo excessivo...

De modo intencional, um paralelismo da mesma ordem faz parte de “Climas”, tal como os próprios esclarecem, “entre o aquecimento global e um estado febril e inquietado”, em que “um espaço feito de cruzamentos foi tomando forma: estação meteorológica, sanatório, estância termal, laboratório artístico”. O “Diário das Nuvens” de Goethe é uma das inspirações, ao “reintegrar o céu na paisagem humana”. “O clima é presença”, afirmam, “um corpo inconsciente” que liga o humano ao cosmos.