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Quando o pai de António Costa mandou uma garrafa de Old Parr para Goa...

Desenho que ilustra o livro de viagens “Goa Ida e Volta” de Artur Henriques da editora Arranha-Céus

DR

O pai de de António Costa soube que o seu amigo Artur Henriques ia a Goa de férias e deu-lhe “uma garrafa de uísque Old Parr, velho de doze anos, para entregar em Margão, ao seu irmão João”. Henriques conta esta e outras memórias no livro “Goa Ida e Volta”

É um livro de memórias escrito por um homem que cumpriu o serviço militar em Goa e fez do desenho paixão e profissão. Artur Henriques trabalhou em várias agências de publicidade onde conheceu o escritor Orlando da Costa que como muitos outros opositores do regime do Estado Novo trabalhou em publicidade para ganhar a vida.

Em 1979, Artur decidiu voltar a Goa para se confrontar com as (suas) impressivas memórias dos tempos em que era um jovem militar mobilizado para as províncias ultramarinas.

Orlando da Costa soube da viagem do amigo e aproveitou para mandar uma lembrança para o irmão: “Desde Lisboa que trazia na bagagem uma garrafa de uísque Old Parr, velho de doze anos, para entregar em Margão, a pedido do meu amigo Orlando da Costa, ao seu irmão João, residente desde sempre em Goa, casado com uma finlandesa simpática, imune ao sol oriental”. O casal Costa recebeu com entusiasmo o portador da lembrança de Orlando: “Logo ali se combinou a feitura de uma caldeirada à moda de Lisboa, petisco cuja fama precedera a minha chegada”.

António Costa em criança com o pai, Orlando Costa, no Jardim Zoológico, em Lisboa

António Costa em criança com o pai, Orlando Costa, no Jardim Zoológico, em Lisboa

DR

Brindado à nascença com umas “mãozinhas” que lhe traçaram o “destino” de passar a vida a fazer “bonecos”, Artur Henriques partiu para Goa como muitos outros soldados, num tempo em que esse território era considerado um local razoavelmente interessante para fazer tropa. Ainda não tinha começado a Guerra Colonial e Goa, Damão e Diu faziam parte do [prestes a desmoronar] império português.

Goa marcou a alma de Artur Henriques .... e deixou-lhe uma enorme vontade de regressar. Cinco anos depois do 25 de Abril de 1974, “apesar de ter mulher e um filho de três anos”, volta porque “já não podia adiar mais” esse desejado.

“O jantar em casa do casal Costa surgiu com rigor e requinte, sendo as honras da refeição feitas por um chacuti de cabrito e por um lombo assado com molho picante, acompanhado de quiabos. Foi servido um vinho português que repousava há anos na cave do dono da casa. Reparei na louça de porcelana portuguesa. O magnífico jantar foi acompanhado de música indiana, que três músicos executavam numa sala contígua. A Índia é um país de músicos; com mais de um bilião de habitantes, se dez por cento da população tocar qualquer instrumento musical, entendemos porque é que ali há sempre música no ar”.

Henriques recorda que “além dos anfitriões e de nós, estava presente um juiz e a mulher, amigos da casa, simpáticos, corteses e afáveis. Estudara e formara-se em Coimbra e vim a constatar
que tinha conhecido o pai da minha mulher, Luísa”.

Capa do livro de Artur Henriques da editora Arranha-Céus

Capa do livro de Artur Henriques da editora Arranha-Céus

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“Veio depois o convite do juiz para jantar em sua casa no final da semana, com o pedido de ser eu a escolher a ementa. Arroz de caril, como não podia deixar de ser”.

Artur, que gostava de cozinhar e espreitar as cozinhas alheias, pediu “para ver a cozinha, onde três mulheres se atarefavam na preparação do jantar”. Vinte anos depois de ali ter estado pela primeira vez – em 1957 – “com todas as alterações políticas que se tinham produzido, ainda era possível ouvir falar bom português e ser
recebido daquela maneira verdadeiramente indo-portuguesa”.

Este caderno de memórias gráficas e escritas foi publicado em junho do ano passado com a chancela da Arranha-Céus Editora.