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O que eu gostava de ter escrito sobre Bowie

O ARTISTA. Nunca ninguém conseguiu amarrar Bowie a um rótulo e isso é algo inimitável

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David Bowie morreu precisamente há um ano e deixou-nos um legado de genialidade, tolerância e humildade. Sobretudo de humildade

No dia em que David Bowie morreu o Expresso Curto era meu - e correu mal. Não tive o jogo de cintura para refazer o texto e escrevi apenas um parágrafo de banalidades e adjetivações, porque só me passou pela cabeça elogiá-lo. E pus o título: “Morreu David Bowie. Ponto final parágrafo”.

Bowie tinha 69 anos e havia que resumir a sua importância numa newsletter que se quer curta, como o nome, e entregue a horas, como deve ser. Só que há pessoas que não cabem em caixas de e-mail, porque tiveram percursos tão ricos e variados e chegaram a tantos lugares que se torna impossível seguir-lhes o rasto e calcular o impacto na vida dos outros.
Comigo, aconteceu assim.

Os dentes, o cabelo, a voz, o bar, o contrabaixista, os aborígenes, o par de sapatos de salto alto vermelhos e let’s dance. Aquele David Bowie não era o primeiro David Bowie, aperceber-me-ia mais tarde, mas era o meu primeiro David Bowie: um tipo louro, ligeiramente bronzeado, que dançava enquanto tocava uma guitarra vermelha de luvas brancas num pôr-de-sol australiano.

Nos anos 80, tudo era possível, nada era estranho.

Acho que achei piada ao videoclip e tenho a certeza que não gostei da canção, dissonante e complexa. Além disso, os meus pais não a ouviam, não tenho irmãos mais velhos, e como Bowie não é para miúdos, aquilo não era para mim. Não. Não. Não. E não.

Passei pelos Guns, pelos Metallica, pelos Nirvana e pelos Pearl Jam; deixei-me deles - ou melhor, minto-me dizendo que me deixei deles - e comecei a escutar coisas que o amigo do meu pai tinha na casa dele, dois andares abaixo da nossa. Uma delas, David Bowie.

De forma aleatória e ininterrupta ouvia a Space Oddity, a Heroes, a Blue Jean, a Jean Genie, a Rebel Rebel, a China Girl, a Modern Love, a Major Tom, a Absolute Beginners, e a Ashes to Ashes. Folk. Rock. Hard-rock. Pop. Eletrónica. Não consegui situar ou armadilhar David Bowie num género e isso é difícil para um puto que quer explicar a outro puto que som anda a ouvir. Não o compreendia, não me fazia compreender, Bowie era tudo ao mesmo tempo, nada havia a dizer.

Uma vez mais, Bowie ficou na gaveta, arrumado ao lado de outros autores indecifráveis para adolescentes impacientes. Vieram os Oasis e os Blur.

A minha relação com Bowie só normalizou mais tarde, na faculdade, aquele período na vida em que pessoas que se parecem umas com as outras e que gostam das mesmas coisas partilham experiências e curiosidades. E foi só então que percebi o que não percebia antes, ou melhor, porque não o percebia antes.

Li.

Era preciso ler sobre Bowie para entender Bowie, porque apesar dos bons refrães e da capacidade para construir melodias incríveis, ele não era imediato nem fácil, e tão depressa compunha épicos como se afundava em depressões.

E foi assim que descobri que os alter-egos do Ziggy e do Thin White Duke quase o levaram à loucura e que essa loucura foi alimentada pelo consumo (e dependência) da cocaína; que dizia ser sexualmente ambíguo sem realmente o ser; que se vestia como uma mulher e se deixava entrevistar de vestido pelo gosto de provocar; que estudou mímica, design e artes, por entender que cantar não chegava, era preciso representar. E entretanto vi o “Merry Christmas Mr. Lawrence”, o seu Poncio Pilatos na “Última Tentação de Cristo”, e até o pequeno papel no “Prestige” de Christopher Nolan.

Mais do que um cantor, cantautor, autor e ator, Bowie era um artista com uma imaginação ilimitada, multiplataformas, multimédia, o generoso ‘mecenas’ de Iggy Pop ou de Lou Reed que começou a sentir dores estranhas num braço em 2005 e que morreu a 10 de janeiro de 2016.

Se há coisa que eu gostaria de ter escrito no Expresso Curto de há um ano foi que ele me ensinou a ser mais tolerante e a apreciar a diferença, mostrando que os génios são os que quebram as regras e resistem a banalidades e adjetivações.

Bowie também é uma lição de humildade.