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Mundo Segundo: um ancião do hip hop forjou a espada e regressa “Sempre Grato”

Deck97

O Expresso esteve à conversa com o músico sobre esta nova etapa criativa para a qual trouxe uma espada bem forjada

Falar de hip hop em Portugal é falar, inevitavelmente, de Edmundo Silva. Se o nome com que nasceu em Vila Nova de Gaia, há 37 anos, não será muito familiar, o nome artístico Mundo Segundo é uma referência deste género musical no panorama nacional.

O Expresso esteve à conversa, no Hard Club, com o homem que se fez artista na “Escola dos 90” – época em que trocou o skate pelas rimas para formar os ‘Dealema’ – e que há alguns anos trilha um percurso a solo. Neste novo ano, regressa pronto para novas batalhas e “Sempre Grato”, título do EP editado este mês e também do último dos sete temas que o compõem.

“Tenho muito a agradecer. Nunca pensei poder fazer carreira com o hip hop e desfruto de cada minuto. Nem toda a gente tem o privilégio de fazer aquilo que gosta e também por isso estou agradecido. Gosto de permitir, através da minha arte, que outros sonhem como eu sonhei um dia”, começa por dizer o músico, recordando os tempos em que “dissecava discos até à exaustão”, como quem descobria “um admirável mundo novo”.

“Cada um de nós tem a sua própria vida para viver. A sua jornada, a sua missão. Não é uma separação. É um começo, não é um fim. Vai ser um pouco solitária, mas é assim que as coisas são. O fraco reclama e fica inerte. O guerreiro faz e transforma”. É com estas palavras, ditas pausadamente no tema “O Forjar da Espada”, que Mundo Segundo abre o seu mais recente trabalho, até bucolicamente nos levar até ao refrão doce das “Margens do Douro”.

“Em cada processo criativo estamos a forjar a arte como uma espada. A metê-la no forno e a batê-la até ganhar a forma desejada. Uso essa espada para combater demónios interiores, porque com os exteriores lido bem. Tenho força para aguentá-los”, assegura o MC e produtor que em 2014 editou “Segundo o Ancião”, mas que com 23 anos de carreira garante ser um “aluno em constante aprendizagem”.

Novas paisagens sonoras

Este é um álbum marcado pela exploração de novas paisagens sonoras, mas alinhado com a identidade artística que define Mundo Segundo, marcada pela escola do “boom bap”. Recusa que a sua música tenha de se moldar ao que os media ou os promotores querem. “Nós é que fizemos o hip-hop e devemo-nos manter fieis”, vinca.

“Sempre Grato” está recheado de colaborações, com inseparáveis companheiros de armas, como Maze, “rapper” dos Dealema, mas também com parceiros mais recentes, como o jovem cantor de “soul” Macaia ou o brasileiro “Dr. Caligari”.

O destaque vai para o encontro de Mundo Segundo com Bezegol, dois artistas portuenses com uma admiração mútua e que se juntaram para mostrar que “Não há Competição” (título da terceira faixa e primeiro “single”). “Só estou a competir comigo e a tentar fazer melhor do que aquilo que já fiz. O Bezegol é alguém que aprecio muito musicalmente há vários anos. Não nos conhecíamos muito bem pessoalmente, mas surgiu esta oportunidade numa música em que fazia todo o sentido a voz dele”, explica Mundo Segundo.

Os últimos cinco anos marcam também uma nova etapa na vida do músico, que acabou por ter uma influência preponderante na composição de um trabalho livre de vícios. “Deixei de fumar e era muito complicado para mim estar em estúdio sem fumar. O maior desafio foi regressar e estar ali focado só com a ‘droga natural’ do meu corpo. É mais uma batalha para a qual forjei a tal espada”, assevera.

“Sempre Grato” será apresentado dia 21 de janeiro no Hard Club, no Porto, e dia 27 no Musicbox, em Lisboa. Além dos sete novos temas, nos dois espetáculos vão ser revisitados alguns clássicos do artista, cheio de novos projetos para 2017, entre os quais um álbum com Sam The Kid e o lançamento de um documentário sobre a génese dos Dealema.