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Como nasceu a obra 
sobre aquele que nasceu em Belém

PARTITURA O “Aleluia” é a parte mais famosa d’“O Messias” de Händel

“O Messias” de Georg Friedrich Händel é uma das obras mais tocadas nesta altura do ano. Conheçamos a sua génese e história

Alguns leitores terão ouvido nas últimas semanas, ao vivo ou em gravação, “O Messias”, a oratória de Georg Friedrich Händel terminada em 1742 e dedicada ao nascimento de Jesus. Até os que não conhecem a obra já terão alguma vez trauteado as linhas iniciais do respetivo “Aleluia” (não confundir com a preciosidade homónima de Leonard Cohen) para celebrar o fim de qualquer impaciência. Não está a ver? Ora, tente. “A-le-luia! A-le-luia! Aleluia, Aleluia, Aleeeeluia!” (depois repete uns tons acima).

Todos os anos, pelo Natal, “O Messias” é interpretado em igrejas e auditórios um pouco por todo o mundo. Foi tocado mais de 70 vezes este Advento, segundo o site bachtrack.com, a última das quais na tarde desta segunda-feira em Glasgow. No passado dia 9 de dezembro, foi na portuguesa Gulbenkian. Nesta semana em que os Magos chegam a Belém, assinalando o fim da quadra, “O Messias” vai soar ainda em Dublin, cidade onde se deu a sua estreia mundial, e Londres. Daí a sugestão que trazemos hoje: “Messiah: The Composition and Afterlife of Handel’s Masterpiece” (O Messias: a composição e vida póstuma da obra-prima de Händel).

AUTORES. O compositor Händel pintado por Balthasar Denner e o libretista Jennens num quadro de Thomas Hudson

AUTORES. O compositor Händel pintado por Balthasar Denner e o libretista Jennens num quadro de Thomas Hudson

O autor do livro é Jonathan Keates, que há três décadas biografou Händel e agora faz o mesmo à sua obra. Esta nasce na corte britânica da dinastia Hanôver, onde o compositor alemão se instalara em 1712, num momento em que a ópera estava em quebra de popularidade (ainda assim, compôs algumas). Já a oratória é uma obra não encenada mas com quadros ou cenas mais ou menos narrativos que o público pode imaginar, explica o diário “The Guardian”, que considera que foi neste formato que Händel deixou “as suas peças mais maravilhosas”, como “Athalia”, “Israel no Egito” ou “Saul”, além daquela que aqui nos traz.

Um milhão para os necessitados

Keates conta a estreia da obra no Great Musich Hall de Fishamble Street, na capital irlandesa. O caráter sazonal d’“O Messias” e a sua frequente utilização para angariar fundos para organizações humanitárias contribuíram decisivamente para a sua popularidade, sem esquecer a qualidade musical. A obra já terá rendido mais de um milhão de euros, em valores atuais, ao Hospital Foundling, onde Händel permitiu concertos anuais com fins de caridade e a quem deixou uma partitura e partes da sua obra.

Numa época marcada, ainda, por debates religiosos que interessavam ao compositor, Händel deu à luz, em três semanas, recuperando de doença em Derbyshire, uma oratória de três horas, distinta das demais por não ter um enredo estruturado e linear nem personagens atribuídas a cada um dos cantores, antes excertos das escrituras bíblicas, num encadear de reflexões e profecias cuja atualidade se mantém.

Apesar disso, o livro espelha o entusiasmo de Händel pela natureza dramática da obra, que levou a que, não raro, fossem escolhidas para a executar vozes que, não sendo as de maior qualidade, pertenciam a cantores com grande capacidade de representação. De Susannah Cibber, a primeira soprano solista, escreveu o musicólogo Charles Burney: “A sua voz era um fio e os seus conhecimentos musicais muito negligenciáveis, mas, através de um pathos natural e da perfeita conceção das palavras, frequentemente penetrou corações, enquanto outros, com vozes infinitamente maiores, alcançavam apenas o ouvido”.

GRANDIOSO. O Festival Händel de Londres, em 1857, numa gravura da revista “Illustrated London News”

GRANDIOSO. O Festival Händel de Londres, em 1857, numa gravura da revista “Illustrated London News”

Como é próprio dos grandes feitos, “O Messias” teve e tem longa vida após a morte do seu pai. E, como todos os bebés, incluindo aquele que lhe serve de assunto, também a obra cresceu. Mozart foi contratado para reescrevê-la com mais instrumentos de sopro e os acrescentos não se ficaram por aqui. Os coros e orquestras que executaram a oratória seguiram um autêntico crescendo dramático, levando-a a um público mais vasto, mesmo que nem sempre respeitassem as origens.

“The Times” aponta uma interpretação no Palácio de Cristal de Londres, por ocasião do bicentenário de Händel, em 1885, como a maior de sempre: um coro de 4000 vozes e uma orquestra com 500 membros cantaram e tocaram para 90 mil espectadores. Digno de Rihanna, comenta o jornal. Keates escreve que esta tendência, por vezes, sufocava a obra. O escritor George Bernard Shaw chegou a afirmar que em Inglaterra se conhecia pior a obra de Händel do que nas ilhas Andamão: “Lá não têm consciência dele, enquanto aqui temos uma consciência errada”. Talvez o próprio compositor não se indignasse tanto, ele que afirmou: “Os ingleses gostam é de algo que lhes permita bater um ritmo, algo que lhes vá direito ao tímpano”.

ANÚNCIO Cartaz de uma interpretação da obra na Abadia de Westminster, com 800 artistas, em 1787

ANÚNCIO Cartaz de uma interpretação da obra na Abadia de Westminster, com 800 artistas, em 1787

Deus e o seu povo

O livro descreve Händel como audaz e “O Messias” como algo inaudito à época, por o libreto de Charles Jennens ser mais um comentário à Natividade e à Paixão de Cristo do que uma narração, com o coro num papel protagonista que quase representa “a forma como uma comunidade se relaciona com Deus e o que merece às suas mãos”. A acessibilidade torna-se, pois, crucial.

O autor das letras da oratória, um protestante idealista que rejeitava a dinastia real a quem Händel servia (preferindo aos Hanôver os destronados Stuart), chegou a pedir ao compositor que retocasse partes da música. Não teve êxito, mas os retoques subsequentes reforçaram, aqui e acolá, a imortalidade que hoje ninguém renega a “O Messias”.

O livro que aqui sugerimos não é sequer o primeiro sobre esta obra. Em 1963, Watkins Shaw publicou o breve volume “The Story Of Handel’s Messiah, 1741-1784”. Passados 30 anos, Roger A. Bullard dava à estampa “Messiah: The Gospel according to Handel’s Oratorio”, focado no libreto de Jennens e na utilização dos textos bíblicos.

Messiah: The Composition and Afterlife of Handel’s Masterpiece, Autor: Jonathan KeatesEditora: Head of Zeus, 224 páginas £16,99 (19,9€)

Messiah: The Composition and Afterlife of Handel’s Masterpiece, Autor: Jonathan KeatesEditora: Head of Zeus, 224 páginas £16,99 (19,9€)

Se nunca ouviu “O Messias”, fica a recomendação: ouça-o! Mesmo que já não vá a tempo de assistir à obra em palco, não faltam versões na Internet e nas lojas de discos. Nascido o Menino, como ontem o Novo Ano, é sobre este pano de fundo sonoro que lhe desejo um excelente 2017.