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José Maria Vieira Mendes: “Comunicar é isso: mal-entendidos”

Dramaturgo, ensaísta, tradutor, acaba de publicar dois livros que reivindicam o direito a separar a literatura dramática da encenação. Escrever teatro. Teatro para ler

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

luís barra

Publicou dois livros (“Uma Coisa”, cinco textos dramáticos e o ensaio “Uma Coisa não é Outra Coisa”) para “resolver um problema”. Escrever textos para o Teatro Praga tinha chegado a um beco sem saída?
Sim, estou numa companhia de teatro e apercebi-me de que aquelas pessoas não precisam que eu escreva para elas. Se é assim e se eles são as pessoas com quem gosto de trabalhar, perguntei-me o que aconteceria à minha escrita? Tornou-se um problema a partir do momento em que percebi que a minha literatura dramática não teria para eles a utilidade que eu julgava normal a literatura dramática ter, um beco sem saída. Num workshop que organizámos propus escrever uma peça em duas semanas — “Terceira Idade” —, a partir do que lá discutíamos. A peça era sobre o que é escrever para uma companhia, para um ator, para teatro, o que é uma história... etc., sem qualquer objetivo além de lidar com o problema. Não sabia se o texto iria ser encenado, publicado, se faríamos um espetáculo, estava só a escrever. É por isso que acaba com “hoje é o dia mais feliz da minha vida”, de repente, tinha encontrado uma solução. Já tinha começado o doutoramento e entre as leituras encontrei esta frase do Wittgenstein no “Tractatus” que me ajudou muito: “A solução para o problema está na própria formulação do problema”.

Quer desenvolver?
Eu não encontrava a resposta à pergunta “o que é o teatro?” , “o que é a literatura dramática?”, “o que é uma pessoa?”, “o que é que sou eu?” porque não tem resposta. Tem uma resposta diferente cada dia ou para cada pessoa que responde. Quando a resposta tem vontade de essencializar, ou seja, dizer “esta é que é a resposta”, cristaliza aquela identidade. O problema está no modo como perguntamos. É a tradição da teoria do conhecimento ou filosofia epistemológica que pergunta ‘Como é que eu posso ter a certeza de que uma coisa existe? Como me convenço de que não estou a sonhar?’ Estava aberto um precedente terrível que nos leva ao abismo de não conseguir, de facto, provar. Foram 400 anos de imensos filósofos a tentarem responder a esta dúvida hiperbólica.

E nenhuma resposta é satisfatória senão do ponto de vista da convicção de quem a dá?
Exatamente! Ou respostas como “é um lugar-comum, toda a gente sabe”. Se começarmos a pôr em causa os pressupostos da pergunta libertamo-nos da necessidade da resposta. Esta paralaxe na maneira de olhar para o problema ajudou-me a encontrar a liberdade, falo da minha palavra.

Qual liberdade?
A libertação de uma ansiedade existencial que é temporária, uma invenção. O Foucault usava a expressão “invenção da liberdade” porque dizia que a liberdade não existe, existem sim as tentativas de inventar a liberdade. E de repente já não tinha esse problema de ‘Estou a escrever para quem?’ Estou a escrever, ponto!

Porque a resposta é sempre limitativa, é uma fórmula que fecha. Essa invenção de liberdade é uma criação de perspetivas?
Exatamente! É como escrevo na peça “Bilingue”: apago significados para abrir outros significados. Não é para encontrar o significado justo ou certo, é para encontrar outros significados. Se em vez de teatro eu disser “coisa” estou a apagar significados e a abrir a possibilidade de criar outros. Normalmente o que a filosofia faz é apagar um significado para chegar ao significado certo. Assim como a ideia de que há um entendimento perfeito é irracional e gera frustração. Se comunicar não for almejar o entendimento perfeito e for partir do princípio de que comunicar é isto: mal-entendidos, isso é que é falar... eu dizer uma coisa e a pessoa perceber outra.

Na relação com o objeto teatral ou no gesto de ir ver um espetáculo existe uma grande expectativa da “coisa” já lida. Muitas pessoas vão confirmar se as ideias que tinham estavam ou não certas...
... é como na vida [risos]. Percebo que precisemos de dominar alguns códigos, o problema é quando isso se sobrepõe a um usufruto mais libertário do objeto. E disso eu não me excluo, quando digo que resolvi o problema e consegui inventar alguma liberdade eu sei que continuo preso a tradições, à linguagem que utilizo e que tem uma tradição. Uso palavras que todos usam e conhecem, não é um processo de exclusão.

E não partiu para Marte!
Não fui para Marte, não. Continuo nos dois sítios. É uma espécie de afastamento e tomada de consciência de que não é preciso levar as coisas tão a sério. As coisas estão sempre a mudar e a perspetiva histórica também ajuda a relativizá-las.

Diz que a teoria e a crítica literárias são preguiçosas. Quer explicar?
No que li ao longo dos quatro anos em que trabalhei no ensaio notei que havia uma preocupação permanente em resolver a relação entre teatro e texto dramático. Isto surge no início do século XX com a figura do encenador e ganha corpo teórico, alimentando e entusiasmando muita gente. Teorizou-se muito o que é o teatro, o texto, se se aproximam, como devem fazê-lo: é o grande sumo da teoria do teatro até aos anos 80. A partir daí passa-se a falar do público, porém usando a mesma retórica sobre a relação palco/público. Fui rapidamente empurrado para a guerra entre o teatro literário e do teatro chamado antiliterário, uma guerra que limita qualquer racionalidade porque se fecha num essencialismo de vontades. Não quero que o livro seja capturado por essa discussão.

A filosofia dá-nos a noção do que está à nossa frente e atrás de nós?
Abre-nos a possibilidade enquanto pessoas que reconhecem as coisas. Uma pessoa a observar o mundo quer ver certas coisas e outras não. Por isso me irrita tanto os que dizem “este texto é uma porcaria, aquele espetáculo é uma porcaria”. Eu respondo, ai é? Então porquê? E tento fazer aquela pessoa ver quem ela está a ser naquele momento para que comece a deslocar o problema do espetáculo para si própria.

Boa sorte!
Sim, é muito difícil, mas é mais justo na relação entre nós e um objeto. Quando as pessoas dizem “teatro é isto” estão a excluir-se a si próprias enquanto pessoas que podem atribuir significado às coisas, estão a partir de uma ideia essencial como se não tivessem responsabilidade e tivesse de ser o espetáculo ou o texto a dizer-lhes o que têm de perceber. Como se o mundo fosse um dicionário...

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 de dezembro de 2017