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A geografia das almas

PINTURA A exposição “Memórias”, de Do Carmo Vieira, estará a partir do próximo sábado no Espaço Miguel Torga em São Martinho de Anta

FOTO PAULO PATOLEIA

Ao escavarem fundo, na procura do mais íntimo dos outros, os pincéis de Do Carmo Vieira construirão paisagens humanas. Vai expô-los a partir do próximo sábado no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta

Um rosto, todos os olhares. Um rosto, todos os recantos do mundo. Um rosto, todos os sulcos da existência. Um rosto, todas as finitas imagens. Um rosto, toda a voragem do universo. Um rosto, um sorriso. Um rosto, uma lágrima. Um rosto, um esgar triste. Um rosto, um esboço de felicidade. Um rosto, o espelho da terra. Um rosto, o espelho do tempo. Um rosto, o espelho. Um rosto.

Um rosto são memórias. Histórias esculpidas. Um tosto são sagas contidas numa expressão. Nas rugas feitas veredas de um tempo. Um rosto é a doce ternura de vivências passadas. Duras. Sofridas. Doridas. Amadas. Amantes. Belas. Feias. Únicas. Irrepetíveis. Um rosto é um discurso. Um rosto é uma pessoa. Um rosto é todas as pessoas. As pessoas são o rosto de um mundo. De uma terra. De uma existência.

FOTO PAULO PATOLEIA

Do Carmo Vieira é uma mulher de pequenos olhos perdidos num rosto sereno. Um dia, o tempo dirá se tarde, se cedo, chegou à pintura. Importa-lhe a condição humana. Fascina-a a ideia de construir a narrativa de cada rosto. Consome-a o desembrulhar das múltiplas ligações inerentes à trilogia constituída pelas palavras “velhice”, “dignidade”, “beleza”. Une-as um indelével cordão em cada instante questionado pela violência do hoje quotidiano.

Transmontana, cruzou-se um dia com o trabalho do fotógrafo amador Paulo Patoleia, de Torre de Moncorvo, e viu despertar-se-lhe no mais íntimo de si as recordações de infância, preenchidas pela memória dos rostos daqueles homens e daquelas mulheres feitas personagens de uma paisagem agreste, tantas vezes dura, quase sempre distante. Ao ver as fotografias de Paulo, Do Carmo Vieira não ensaiou uma viagem no tempo. Recuperou um tempo passado plasmado naqueles rostos mergulhados em histórias.

FOTO PAULO PATOLEIA

Construiu retratos. Paisagens humanas. Vai expô-los a partir do próximo sábado no Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta. Se é capaz de desfiar as vidas contidas em cada um daqueles rostos perante os quais é impossível adotar a indiferença como atitude, em boa verdade, não os conhece.

São homens e mulheres do mesmo povo que a viu crescer. Alguns e algumas terão já morrido. Ficou-lhes a memória do olhar. A memória daquelas expressões tão sábias, tão desdunadas de artificialismo. Tão absolutas na procura da simplicidade.

Há uns meses, quando a Fundação Escultor José Rodrigues quis homenagear o mestre recentemente falecido, convidou mais de 100 artistas plásticos a conceberem retratos evocativos de um dos quatro vintes da Escola de Belas Artes do Porto.

FOTO PAULO PATOLEIA

Foram apresentadas obras dos mais variados estilos e proveniências. Foram expostas as propostas mais diversificadas. Porém, para quem entrava na Fundação, impunha-se um retrato. Ao fundo, impositivo, declarativo, marcado por um tremendo sopro de verdade, impunha-se a obra de Do Carmo Vieira. O seu retrato de José Rodrigues não constituía apenas uma declaração de amor ao trabalho do mestre. Era em si mesmo uma glorificação da mestria contida no exemplo deixado pelo escultor e pintor.

Agora, ao diluir-se nestes retratos de velhos, Do Carmo Vieira, uma mulher ainda nova, cuida de, ao expulsar uma timidez intrínseca à sua forma de estar, lançar um manifesto. Talvez procure o silêncio, embora incomensurável seja o grito contido nos rostos daqueles velhos imaginários, feitos retrato dos velhos das nossas ruas, das nossas esquinas, dos nossos jardins, dos nossos cafés, tão desprezados pela vivência social construída ao longo das últimas décadas.

FOTO PAULO PATOLEIA

No planisfério dos sentimentos, o desafio de Do Carmo Vieira é uma interpelação da qual ninguém fica isento.

Ao escavarem fundo, na procura do mais íntimo dos outros, os pincéis de Do Carmo Vieira encenam a geografia das almas contidas na poética dos dias.