Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Fantasma órfão e cantora assustada mostram competência para amar ao som dos Clã

João Tuna

Os Clã completam 25 anos de carreira em 2017. Em vez de retrospetivas, iniciam o novo ano com um musical infanto-juvenil no Teatro Carlos Alberto, no Porto, habitado por um “fantasputo” irrequieto e apaixonado

André Manuel Correia

Uma cantora, em palco, prepara-se para a estreia e está assustada com tudo aquilo que não pode ver ou controlar. “Estão sempre a acontecer coisas do arco da velha”, queixa-se acerca das estranhas ocorrências na sala de espetáculos. O responsável é um “fantasputo”, órfão de pai e mãe, de seu nome Luca e com uma improvável competência para amar.

Este é o mote para o musical “Fã”, com temas originais dos Clã, encenado por Nuno Carinhas e libreto de Regina Guimarães. A banda liderada por Manuela Azevedo completa 25 anos de carreira em 2017 e leva ao Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, a partir desta quinta-feira, um espetáculo dedicado aos “supernovos”, no qual os afetos não sofrem de problemas de expressão.

Qualquer semelhança com o enredo da obra “Fantasma da Ópera”, onde também se assiste à paixão de um fantasma por uma jovem, não é mera coincidência e serviu de inspiração para Luca, um personagem muito “fantas-esperto”. Contudo, são as sonoridades pop-rock e a energia contagiante dos “Clã” que tomam conta do palco neste musical. “O rock não é para vidrinhos de cheiro”, avisa Sara, interpretada por Manuela Azevedo, à irmã mais nova Sabina (Maria Quintelas) que se prepara para enfrentar uma plateia pela primeira vez.

Música tocada ao vivo

Ao todo são oito temas originais, da autoria de Hélder Gonçalves, baixista e compositor da banda. Músicas tocadas ao vivo e habitadas por cigarras e formigas, ossos de porcelana, gatos pretos, barcos e aviões de papel, moedas da sorte ou fadas madrinhas. Tudo isso a embalar as peripécias de um “fantasputo”, interpretado por João Monteiro, que se apaixona por uma cantora entregue a uma luta constante para afastar os seus próprios espetros e inseguranças.

“Fã” trata-se assim de um encontro feliz e bem-humorado entre o teatro, a música e a dança, onde se brinca com o medo do escuro e se abre espaço à descoberta da luz. O invisível deixa de ser temido e passa a ser amado, porque “talvez se viva da sinistra alucinação, mais do que do real”, como diz a personagem interpretada por Manuela Azevedo

Após terem editado, em 2011, o álbum “Disco Voador”, os “Clã” ganham novamente “asas nos pés” para mais uma incursão pelo universo infanto-juvenil, concretizando o desafio lançado há um ano pelo encenador e diretor do Teatro Nacional São João, Nuno Carinhas. “Ficámos muito motivados, porque a experiência que tivemos com o ‘Disco Voador’ foi uma das experiências mais inspiradoras. Foi uma injeção de energia muito grande na banda e ia saber bem passar por isso novamente”, contou ao Expresso a vocalista Manuela Azevedo, que convida pessoas de todas as idades para assistirem ao espetáculo.

“Se há alegria quando se vem assistir a um espetáculo com um filho, um sobrinho ou um neto, é podermos olhar para eles e constatar que estão felizes. É, acima de tudo, um momento de partilha”, frisa a cantora, que aos 46 anos sobe ao palco juntamente com a banda para dar música e também para representar. “Somos apenas músicos a atrever-nos um bocadinho no teatro”, ressalva, entre risos. “O teatro é uma arte difícil. Requer muitos anos de estudo e de trabalho que nós não temos. Por isso foi com muita humildade, cautela e ajuda de um elenco muito generoso que fomos ultrapassando as nossas dificuldades”, explica Manuela Azevedo.

O que falta fazer

Formados em novembro de 1992, os “Clã” atingem este ano 25 anos de carreira, mas não são muito dados a esse tipo de comemorações, garante a vocalista da banda. “Não perdemos muito tempo a fazer contas ao que passou”, conta Manuela Azevedo, para quem o foco está sempre colocado em novos horizontes.

“Mais importante do que olhar para o que já foi feito é olhar para o que nos falta fazer. Enquanto a lógica da banda for essa, a de olhar para o futuro e desejar desafiar-se, os ‘Clã’ mantêm a sua razão de existir. Quando começarmos a olhar muito para trás, acho que vamos arrumar as botas”, acredita a artista. Por agora, as atenções estão todas centradas neste espetáculo e nada mais importa. “Ano novo, peça nova e muitos supernovos na plateia” é o desejo de Manuela Azevedo.

O espetáculo “Fã” estreia esta quinta-feira, pelas 21h, e estará em cena até 29 de janeiro. A última sessão contará com tradução para Língua Gestual Portuguesa e com o serviço de áudio descrição, como já vem sendo habitual desde o último trimestre do ano passado nos vários espaços geridos pelo Teatro Nacional São João.