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Benedikt Taschen: “O maior órgão sexual é o cérebro”

Disco voador. O editor junto à sua casa, em Los Angeles

foto MATTHIAS VRIENS-MCGRATH

Transformou uma loja de BD, que criou aos 18 anos, num império editorial que vende desde livros de arte a obras que põem tudo a nu. Há quem lhe chame “o Hugh Hefner dos livros de mesa” e ele agradece o elogio

Nelson Marques

Nelson Marques

em Los Angeles

Jornalista

O disco voador domina a paisagem de Hollywood Hills, em Los Angeles, equilibrado em cima de um cilindro de betão com nove metros de altura, mesmo à saída de Mulholland Drive. A casa, conhecida como Chemosphere, chegou a ser considerada a mais moderna do século XX, mas esteve mais de uma década no mercado depois do antigo proprietário ter sido assassinado durante um assalto. Quando soube que estava à venda, Benedikt Taschen, o alemão que criou a famosa editora com o seu apelido quando tinha apenas 18 anos, comprou-a logo. “Senti uma obrigação de mantê-la viva, sabe?” Recebeu-nos no seu escritório, situado na base do invulgar octógono a que se acede por elevador. O espaço, como seria de esperar, está dominado por livros, com as novidades mais recentes espalhadas em cima da secretária, e por alguns quadros nas paredes. O editor, que fará 56 anos em fevereiro, começou a colecionar arte na década de 80, quando a Taschen evoluiu de uma loja onde vendia a sua coleção de BD para uma editora de livros de arte. Hoje, o catálogo vai desde obras homoeróticas à “Bíblia Luterana”. A entrevista durou duas horas, durante as quais Taschen raramente se sentou, fosse para prestar assistência à filha doente, para entregar impressões a uma funcionária da empresa ou, simplesmente, para nos mostrar um dos últimos lançamentos. Semanas antes, tinha estado em Portugal. Foi por aí que começámos a conversa.

O que andou a fazer em Portugal?
Fui ver a exposição de um amigo a San Sebastián, no País Basco, e depois apanhámos um avião para o Porto. Almoçámos em Leça da Palmeira na Casa de Chá [da Boa Nova] do Siza Vieira, que agora tem um chef ótimo [Rui Paula]. É um lugar extraordinário. Depois desci para a Curia e para o Buçaco. Gosto muito dessa zona. Descobri-a nos anos 90 e já lá estive algumas vezes. [Pega no telemóvel e mostra, fascinado, o hotel onde ficou]

É o Curia Palace.
Sim, sempre adorei esse hotel. Quis vê-lo de novo porque já não ia lá há uns 10 anos. É um lugar muito bonito, sem dúvida. Tem este charme grandioso, como se estivesse parado no tempo. E as pessoas são muito simpáticas.

Como é que o descobriu?
Descobri a Curia em 1995 ou 96. Estávamos de férias, alugámos um carro e acabámos por lá ir parar, por acidente. Depois voltei lá duas ou três vezes. Adoro Portugal. É um país lindo, gosto muito das pessoas e senti-me sempre muito confortável. Não é que vá muitas vezes. A Lisboa já não vou há uns anos.

É o mais novo de cinco irmãos. Qual a sua primeira memória da infância?
Uma das minhas primeiras memórias é de quando mudámos para uma casa nova, numa zona diferente de Colónia. Eu não tinha um quarto para mim, então guardava os brinquedos debaixo das escadas. Nem sequer tinha onde pendurar as minhas roupas. Então, era como se aquele fosse o meu quarto. Depois a minha irmã mais velha saiu de casa, o meu irmão foi viver para a cave e passei a ter um quarto. Devia ter provavelmente uns quatro anos.

Era uma criança muito solitária?
Os meus irmãos eram uns anos mais velhos do que eu. Os mais próximos, gémeos, tinham quase seis anos de diferença em relação a mim. Nessa idade é uma diferença muito grande. Brincava sozinho, nunca tive ninguém para brincar. Não é que ninguém cuidasse de mim, mas quando não temos alguém com uma idade próxima, temos interesses diferentes. Essa é talvez uma das razões pelas quais sempre estive rodeado de pessoas mais velhas, o que era ótimo, porque muitas tratavam-me quase como um adulto. Só brincava um pouco com os amigos na escola. Dito assim parece triste, mas não era o caso. Sendo o mais novo, fui sempre muito mimado. Não era como se me sentisse abandonado ou não fosse amado.

Costumava pintar.
Fi-lo durante uns anos, talvez entre os 7 e os 10, 12 anos. Depois parei, porque percebi que não tinha talento suficiente. Pintava sobretudo vampiros, porque nessa altura lia histórias do Edgar Allan Poe e esse universo fascinava-me.

foto MATTHIAS VRIENS-MCGRATH

Um dos seus irmãos suicidou-se quando o Benedikt tinha apenas nove anos. Como é que lidou com essa perda?
Naquela altura ninguém falava sobre o que tinha acontecido. Os meus pais não conseguiam lidar com aquilo, ou pelo menos não sabiam como. Foi a situação mais dramática que a família enfrentou e foi, seguramente, a razão pela qual o meu pai morreu relativamente cedo, aos 66 anos. Duvido que alguma vez tenha ultrapassado aquela perda. Não consigo imaginar a dor de perder um filho.

Tem cinco filhos, como os seus pais.
[Taschen é interrompido pela chegada de uma das filhas] É a minha filha mais nova dos três que tenho do primeiro casamento. Agora tenho mais dois mais pequenos, de 4 e 6 anos. Ela tem de gravar dentro de uma hora, mas está doente. É atriz, não dá para estar a cancelar. Qual era mesmo a pergunta? Ah, o meu irmão... Foi a nuvem mais negra na minha vida, não só para mim, para toda a família. Olhe, é o que é. O facto de estar quase sempre sozinho, depois a morte do meu irmão, tudo isso fez-me amadurecer mais cedo.

Os seus pais eram ambos médicos e costumava acompanhar o seu pai nas visitas que ele fazia aos pacientes. Nunca pensou seguir esse caminho?
Não, nunca foi uma hipótese. Gostava de acompanhar o meu pai, mas também não tinha alternativa. No caminho para casa ele tinha sempre de fazer paragens para visitar doentes. Adorava estar com eles. Aos médicos não lhes basta receitar algo para as pessoas tomarem, igualmente importante é a relação pessoal que se estabelece com eles. Às vezes, o ânimo que se dá a uma pessoa é o melhor medicamento. Isso deixou em mim uma marca duradoura porque, com os artistas, é muitas vezes importante ter esse tipo de relação. Tenho uma certa responsabilidade de tratar bem deles. Aprendi isso com o meu pai, a construir essa confiança. Não estou a dizer que os artistas são pacientes, mas temos de cuidar deles. Quando confiam em nós, temos de merecer essa confiança, dar-lhes resultados. É sempre assim, seja a trabalhar com um artista como o David Hockney ou com os arquivos da Disney ou da National Geographic.

Começou por colecionar BD. Disse numa entrevista que o Pato Donald e o Tio Patinhas lhe ensinaram tudo sobre o capitalismo.
Estas personagens são caricaturas, mas descrevem a psique e a alma americanas muito bem. A relação entre o Donald e o tio milionário, o homem mais rico do mundo, foi uma grande aprendizagem para mim. Ainda leio estas histórias aos meus filhos mais novos. Leio-lhes em alemão e eles adoram.

Com 12 anos já vendia, por correio, BD que importava dos EUA. Estava a experimentar o capitalismo?
Sempre tive curiosidade pelos negócios. No início comecei a fazê-lo para completar a minha coleção. Não via isso como um negócio, não pensava que outras pessoas se pudessem interessar. Mas, ao fim de algum tempo, já só era um vendedor e já não estava a colecionar.

Foi então que abriu uma loja em Colónia, a Taschen Comics. Tinha 18 anos.
Comecei por vender lá grande parte da minha coleção. Tinha algum dinheiro, mas os meus pais emprestaram-me uma boa parte. Pediram um empréstimo ao banco para tornar a minha ideia possível. Foi muito importante, porque é muito difícil conseguir dinheiro, sobretudo quando se precisa dele.

Nunca insistiram consigo para que fosse para a universidade?
Não, nunca tentaram influenciar-me. Cresci muito autónomo e sempre acreditaram nas minhas escolhas. A única coisa que me disseram foi que devia terminar a escola [secundária] e foi isso que fiz. Não me deram nenhum sermão por não ir para a universidade, nem ficaram desiludidos por não me ter tornado médico.

Porque é que nunca quis ir para a universidade?
Não é que eu às vezes não desejasse ter uma educação mais formal, mas também é possível sermos responsáveis pela nossa própria educação. Tinha vários amigos que deixaram de ir à escola aos 15 anos e eram autodidatas. A questão é o que se faz a seguir com o nosso tempo. A universidade, por si só, não diz nada, embora nos aponte numa direção mais esperada. Na vida, e na educação, o mais importante é que sejamos curiosos, que tenhamos interesse por diferentes assuntos, que queiramos saber mais. Não importa realmente se andámos na universidade ou não. Na Taschen publicamos livros sobre diversos assuntos e muitos deles têm que ver com a minha curiosidade de querer saber mais sobre um determinado tópico, com o facto de não ter tido uma educação formal.

É como se preenchesse as lacunas na sua formação.
Sim, como se estivesse a montar um puzzle.

Origens. Benedikt nos escritórios da Taschen, em Colónia, onde a editora foi fundada em 1980. Vive em LA, mas viaja “constantemente“ para a Alemanha

Origens. Benedikt nos escritórios da Taschen, em Colónia, onde a editora foi fundada em 1980. Vive em LA, mas viaja “constantemente“ para a Alemanha

foto PHILIPPE PETIT/PARIS MATCH/GETTY IMAGES

Começou muito depressa a ganhar dinheiro. Ao fim de dois anos já se tinha mudado para uma loja maior, com três andares.
E começámos a distribuir livros também para outras livrarias, não apenas na Alemanha, mas para outros países da Europa. Depois começámos a editar alguma BD, sobretudo licenças que comprámos. Isto foi no início dos anos 80.

A sua aventura no mercado dos livros de arte começou em 1984. Foi a uma feira nos EUA e veio de lá com 40 mil cópias de uma monografia do Magritte em inglês, que comprou a um dólar e despachou tudo em dois meses. Vendeu-os por quanto?
Pelo equivalente a 6, 7 dólares. É um negócio em que se lucra com os erros dos outros, mas, muitas vezes, não temos nada para vender. Foi então que começámos também a produzir livros de arte, fazendo-os em muitas línguas diferentes para manter os preços baixos. A independência foi sempre uma força motriz para nós, mas para sermos independentes temos de controlar todo o processo.

Qual foi o primeiro livro que publicaram?
O primeiro que editámos foi sobre Dalí, mas ainda com uma licença que comprámos. O primeiro que fizemos nós mesmos foi uma monografia de Picasso.

Editavam livros que cabiam tanto numa estante como na mala de uma mulher, mas o grande salto deu-se quando, em 1999, publicaram o gigante “Sumo” do fotógrafo Helmut Newton. Era um livro de 35 quilos que se tornou o mais caro do século XX: começou por ser vendido a 1500 dólares, hoje custa 10 vezes mais e a primeira cópia foi vendida em leilão por mais de 400 mil euros. Como é que surgiu a ideia?
Conhecia o Newton há muito tempo e adorava o trabalho dele desde os anos 70 na revista alemã “Stern”. Ele estava no auge da carreira e tentei perceber o que poderíamos fazer que nunca tivesse sido feito antes. Não queria criar apenas mais um livro que não fosse muito apelativo para ele.

Estavam a tentar criar o objeto de fetiche definitivo.
Absolutamente, foi isso que quisemos fazer. Na altura era também um statement sobre o lugar do livro num mundo digital. Correu muito bem e abriu-nos muitas portas que estavam fechadas. Pudemos fazer outras grandes produções que custassem, por exemplo, menos de 50 euros. Mas mesmo quando fazemos algo que custa 1500 euros, tentamos sempre que as pessoas não sintam que estão a pagar demasiado, que o preço não é justo. Este livro do David Hockney que acabámos de lançar [“A Bigger Book”, uma obra também com 35 quilos que percorre os 60 anos de carreira do artista plástico britânico] custa 2000 euros, mas não acredito que alguém pense que, pelo que recebe, está a pagar demasiado. Esse é o nosso ADN. Seja um livro de 10 euros, de 100 ou de 1000, não queremos, em primeiro lugar, aborrecer o leitor e, em segundo, não queremos desapontá-lo. Tratamos todos os livros da mesma forma.

Houve, nos EUA, quem quisesse censurar os mamilos da capa do livro do Helmut Newton. Chegou a dizer que a, seguir ao terrorismo, os mamilos eram o que os americanos mais temiam.
Aconteceu algumas vezes, mas não me preocupei muito com isso. Nunca fiz nada para provocar ninguém. Se as pessoas não gostam, não posso alterar isso. Era ridículo se tivesse de o alterar por causa das convenções sociais. Se consideramos Newton um génio, não podemos começar a alterar aquilo que ele fez. É precisamente isso que o torna especial. Temos de respeitar os artistas. Se começarmos a preocupar-nos demasiado com estas coisas fica muito difícil fazer o nosso trabalho.

Fez depois outro livro enorme, “GOAT” (“Greatest of All Time”), um tributo ao Muhammad Ali. Gastaram uma fortuna nele. Falou-se em 12 milhões de euros para produzir mil cópias.
Não me lembro ao certo quanto foi, mas deve ter sido à volta disso. Demorou muito tempo a fazer, foi um grande estudo, quase antropológico, foi preciso descobrir todas aquelas fotos. Aprendi muito sobre fotografia, vi os estúdios e as casas de várias dezenas de fotógrafos, acabámos por trabalhar depois com muitos deles noutros projetos. Aprendi também muito sobre a América desse tempo e seguramente sobre o Ali. Foi fantástico, muito desgastante é verdade, mas no final foi uma grande recompensa. Muitas pessoas de todo o mundo não só gostaram do livro como foi importante para elas. Fiquei muito contente, por tê-lo feito e também porque já não tenho de o fazer outra vez [risos].

Estou a olhar para o impressionante livro do Hockney, ali ao fundo da sala, equilibrado em cima de um tripé desenhado pelo Marc Newson, e penso: não pode ele ser considerado arte?
É algo impactante, sem dúvida, mas não iria tão longe. Não é seguramente um livro comum, mas como tenho demasiado respeito pela arte não o qualificaria como tal. Por outro lado, na tradição livreira, é algo muito avançado. É um caminho muito, muito longo para produzir algo assim. [Taschen levanta-se e caminha em direção ao livro, folheando-o de seguida]. O Mark Newson fez um trabalho estupendo com o design e acho que fizemos um bom trabalho com tudo o resto. E, claro, o Hockney fez o mais importante. É uma obra de arte? Talvez não, mas tenho de admitir que é algo fenomenal.

Quanto tempo demorou o projeto?
Este foi relativamente rápido, menos de dois anos.

Concentrado. Taschen no escritório da sua casa, um marco arquitetónico de LA

Concentrado. Taschen no escritório da sua casa, um marco arquitetónico de LA

foto KEN HIVELY/LOS ANGELES TIMES/GETTY IMAGES

Tem a reputação de ser alguém que não tem medo de correr riscos.
Não gosto de fazer as coisas pela metade. Ou então a alternativa é nem sequer começar. Quando fazemos um livro — por exemplo, este sobre a animação da Disney [pega em “The Walt Disney Film Archives”] —, queremos que seja ‘o’ livro definitivo sobre esse tema. Não quer dizer que se consiga sempre, mas tentamos.

Os seus filhos são ainda um pouco pequenos para lhes ler essas histórias.
Sim, até porque não conhecem os filmes. Mas o livro resultou muito bem. Mostra a grande variedade que ele [Walt Disney] tinha. Quando produzimos um livro podemos ter uma ideia sobre o resultado final, mas nunca sabemos ao certo como é que ele vai ficar. Ao mergulhar nos arquivos há sempre muita coisa que se descobre. Este [segura em “Castro’s Cuba”, outra novidade recente] foi um livro que começámos há 10 anos, o fotojornalista [Lee Lockwood] morreu entretanto, mas finalmente conseguimos concluí-lo. É um documento muito raro daquela época, dá-nos uma visão muito perspicaz de Cuba e de Fidel Castro nos anos 60. Não é uma história de glorificação.

Enviou o livro a Fidel?
Enviei. Não tive nenhuma resposta, mas estou certo de que o recebeu.

O projeto dos arquivos da Disney começou como?
Nesse caso, a ideia veio de uma rapariga que trabalha na Disney e que conhecia alguém na nossa empresa. Foi uma sugestão dela, o que é curioso porque tínhamos esta ideia no radar, mas, por qualquer razão, nunca avançámos.

Vai ser uma série.
Sim. Este é com a animação até 1968, ano em que se estreou o último filme supervisionado pelo próprio Walt Disney, que morre em 66. A seguir vamos publicar uma grande monografia dele, que inclui não apenas os desenhos animados, mas todo o pacote, os filmes inspirados na BD, a Disneyland e outros filmes. Depois publicaremos um livro sobre o Rato Mickey, um sobre o Pato Donald e outro com os filmes de animação depois de 68.

Quais são os ingredientes do sucesso da Taschen?
Quando era miúdo, percebi que alguns professores tinham a capacidade e o talento de tornar um assunto interessante. Em alguns casos nem sabíamos que esse assunto existia ou podia ser interessante. Isso foi sempre fascinante para mim e tentei transferi-lo para os livros, torná-los interessantes, divertidos, apelativos, também em termos de história. O lado visual, só por si, não chega. Precisamos sempre de uma narrativa, que até pode ser feita sem palavras, mas as palavras ‘colam’ tudo.

O seu compatriota Christoph Keller, que foi editor de livros de arte, afirmou recentemente que estes “já não são escritos para serem lidos, mas para sancionarem artistas”. Há quem diga também que, à parte os catálogos de exposições populares, raramente geram lucros. A Taschen é a prova de que nem sempre é assim?
Há exceções e, felizmente, somos uma delas. Caso contrário, já teríamos falido. Mas sim, em geral, este mercado não é fácil. Seria impossível fazer os livros que temos a 10 euros se não os fizéssemos antes em dois ou três formatos mais caros. Não poderíamos vender uma monografia de Leonardo da Vinci a €14,99, com esta imagem e com esta informação, se não a tivéssemos feito antes noutros formatos com preços mais elevados. Muitas vezes temos de fotografar os quadros todos, só isso dá imenso trabalho e custa muito dinheiro. Não há forma de o fazer isoladamente, é preciso ver tudo no conjunto.

Quantos livros venderam no ano passado?
Não faço ideia. Houve uma altura, há uns 15 anos, em que vendíamos um livro a cada três segundos. Hoje será mais ou menos o mesmo, talvez menos. Sei que não vendemos um livro do Hockney a cada três segundos [risos].

foto MATTHIAS VRIENS-MCGRATH

foto LESTER COHEN/GETTY IMAGES

Best-sellers. Com o artista plástico britânico David Hockney e com os fotógrafos Annie Leibovitz e Helmut Newton

Best-sellers. Com o artista plástico britânico David Hockney e com os fotógrafos Annie Leibovitz e Helmut Newton

foto ALICE SPRINGS

Quando é que começou a colecionar arte?
Há uns 30 anos. Desde meados dos anos 80 compro dúzias de obras todos os anos. Naquela altura, em Colónia, estava tudo a acontecer praticamente em frente à minha porta. Havia inúmeros artistas importantes a apresentar o seu trabalho na cidade e pude conhecê-los. O negócio estava a correr-me bem e comecei a comprar alguns quadros. Era um mercado muito diferente, havia muito menos colecionadores e especialmente destes jovens artistas contemporâneos. Comecei com os alemães, como Albert Ohelen, Martin Kippenberger, Günther Förg, e depois vieram os americanos, como Jeff Koons, Mike Kelley, Christopher Wool e vários outros. Nunca deixei de colecionar.

Há dois anos abriram uma galeria Taschen na baixa de LA.
Sim, é gerida por uma das minhas filhas. É um projeto diferente, funciona quase sempre como uma montra dos trabalhos que estamos a lançar. Por exemplo, vamos mostrar todo o livro do Hockney nas paredes, mas são apenas algumas impressões.

Ainda decide pessoalmente todas as obras que a Taschen publica?
Sempre. Envolvo-me mais nuns do que noutros, mas decido cada livro.

É um catálogo muito diversificado, que vai da arte ao sexo.
A arte e a fotografia são os dois temas mais importantes, mas há muitos tópicos que se sobrepõem. O Mario Testino é moda? É fotografia? Temos também muita arquitetura, um pouco menos de design, cinema... Sexo, infelizmente, não diria que é uma espécie moribunda, ainda vendemos bem, mas a internet teve um impacto muito grande nas vendas. É uma fonte muito poderosa e no sexo ainda mais, porque, antes dela, havia muito poucas alternativas. Tem também muito que ver com o que as gerações mais novas querem ver e como o conseguem hoje de outras formas.

Fala-se muito dos vossos livros sobre sexo, mas eles representam só 5% das vossas vendas.
Eu bem que gostava que assim fosse.

É menos?
Bom, posso dizer que seguramente não é mais, com muita pena minha. Adorava vender mais.

Porquê?
Porque sempre me diverti muito a vender livros sobre sexo. Sempre foi uma parte essencial do nosso programa, mas era muito mais importante há 15 ou 20 anos. Gostava que hoje fosse diferente. Publicámos recentemente um livro
de um extraordinário fotógrafo chinês chamado Ren Hang. Andamos sempre à procura de novos talentos e ele é-o seguramente.

Disse há uns cinco anos que, nos media, o sexo ainda era “oficialmente o Diabo”. Isso mudou?
Não faço ideia. O sexo sempre foi, e continuará a ser, uma força motriz fundamental da Humanidade. Fizemos recentemente muitos progressos, sobretudo nos direitos da comunidade LGBT. Como gosto de sexo e gosto do tema, sempre quis tratá-lo tão bem como qualquer outro tópico. Nunca me senti envergonhado por isso.

Chegou a pensar produzir filmes pornográficos.
Sempre me interessei pela pornografia e acho que a grande maioria das produções são muito estúpidas. Temos de nos lembrar de uma coisa: o maior órgão sexual é o cérebro. Sempre achei que podia fazer melhor, mas acabei por nunca avançar. E, muito provavelmente, nunca o farei. É um trabalho exigente e nesta altura não posso fazer outra coisa. Essa é a principal razão.

Houve quem o descrevesse como o “Hugh Hefner dos livros de mesa”. 
O que pensa dessa comparação?
É um elogio muito simpático. Tenho imensa admiração e respeito pelo Hefner, ele foi superinfluente na história da América na segunda metade do século XX, em todo o tipo de assuntos importantes, na emancipação das mulheres, na justiça social, sempre apoiou as causas dos afro-americanos. Deixou uma marca duradoura.

São amigos?
Não diria amigos, mas conhecemo-nos há muito tempo e vemo-nos algumas vezes.

As festas na Mansão Playboy fazem jus à fama?
É difícil dizê-lo. Gosto de lá ir, mas já não vou há uns 10 anos. Nas últimas vezes ele estava muito ocupado com os anunciantes e muita gente que trabalha com a revista, tinha de os entreter. Muito provavelmente, os anos 60 e 70 foram muito diferentes, mas, infelizmente, não estive lá, era muito novo.

Ainda vive entre Los Angeles e Colónia?
A minha residência primária é aqui, mas estou constantemente a viajar para a Alemanha e para a Europa.

Quando é que começou a vir a LA?
Há uns 25 anos. Sempre gostei muito da cidade e desde o início fui muito bem recebido. Gostei da diversidade de pessoas que encontrei aqui, do cinema, da música, da literatura. É uma mistura interessante. Sou um grande fã da cidade.

Esta sua casa, conhecida como Chemosphere e desenhada pelo arquiteto futurista John Lautner em 1960, é um marco de LA. Chegou a ser considerada a “casa mais moderna do século XX” e é tão popular que até apareceu em dois episódios dos Simpsons.
É uma escultura maravilhosa do século XX, uma marca do otimismo da América no futuro. Conhecia-a através de uma foto do Julius Schulman que tínhamos publicado dois anos antes num livro sobre o design californiano. Mais tarde, falei com um conhecido sobre casas do Lautner e ele contou-se que o projeto mais famoso dele ia ficar no mercado para sempre. Não pude acreditar. Foi lá no dia a seguir e comprei-a no ato.

Quando a comprou ela estava votada ao abandono, há mais de uma década no mercado. O que o convenceu?
Senti uma obrigação de mantê-la viva, sabe? A minha resposta inicial a ela foi protegê-la.

A casa tinha tido três proprietários antes, o último dos quais foi lá assassinado durante um assalto. Não pensou duas vezes antes de a comprar?
Não, estatisticamente faz com que seja muito menos provável que volte a acontecer [risos].

Ficaram famosas as festas que aqui deu nos seus primeiros anos em LA, com gente do cinema, músicos, atrizes porno...
Este é, provavelmente, um dos lugares mais exibicionistas do mundo para dar uma boa festa. Tive a felicidade de fazer grandes amigos e estava contente por poder estar perto deles.

Ajudou a que construísse uma imagem de excêntrico. “Um louco”, como o Helmut Newton afetuosamente o descrevia. Num anúncio da “Publisher’s Weekly”, a sua segunda mulher apareceu completamente nua ao seu lado. É algo inusual para um editor de livros.
Não me preocupo com isso. Para mim o mais importante é o que os nossos leitores e os nossos artistas pensam dos nossos livros. Nada mais.

De que artistas se tornou mais próximo?
O Newton, o [Billy] Wilder, o [William] Claxton, o [Julius] Shulman eram todos amigos muito próximos. Infelizmente, já morreram todos.

A América foi ao encontro das suas expectativas?
Sim, não era um território desconhecido. Muitas coisas pareceram-me familiares da televisão, do cinema, da BD, da música.

Como vê o futuro dos EUA com Trump? Está otimista?
Não interessa se é mais ou menos de metade, mas muitos americanos não estavam contentes, sentiam-se esquecidos. É irónico que tenham pensado que será este homem quem os irá salvar... É uma tragédia que tenha acontecido. Como sempre, há aspetos positivos. A geração mais jovem poderá perceber que nem tudo é garantido. Como no ‘Brexit’, não votaram o suficiente. Pensam que tudo é garantido e não é. Os protestos não adiantam nada agora, deviam ter protestado antes. E deviam, sobretudo, ter votado.

Tivemos o ‘Brexit’, agora o Trump, a Marine Le Pen ganha cada vez mais adeptos em França com o seu discurso nacionalista...São tempos preocupantes estes?
São. É muito triste que as pessoas tenham de acreditar nestes líderes populistas. Uma razão por que ainda é diferente na Alemanha, e a Merkel provavelmente irá vencer uma quarta vez, é que os alemães aprenderam um pouco mais com a sua história recente. É chocante o tipo de pessoas que estão agora a chegar ao poder. Quando vemos a bio-
grafia delas não há muito a acrescentar. É terrível.

Anda há vários anos a pensar fazer um livro sobre a Segunda Guerra Mundial. Tem que ver com o facto de ser alemão?
Sim, tem que ver com a minha biografia. Mesmo que não tenha estado lá — nasci 16 anos depois do fim da guerra —, as gerações que vieram a seguir foram muito influenciadas pela guerra. Gostava de o fazer, mas estes projetos são muito complicados, absorvem imenso tempo, é preciso encontrar a equipa certa. Talvez o faça um dia. Gostava muito.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 23 de dezembro de 2016