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Elza Soares é a “mulher que veio para ficar” e vai ficar

Elza Soares no Vodafone Mexefest

Rita Carmo

Elza Soares teve uma vida trágica. Viu o marido e alguns filhos morrerem, entre outras desgraças. Nunca deixou de cantar. Aos 79 anos, lançou o seu primeiro disco de originais e o 37º da sua carreira. “A Mulher do Fim do Mundo” é o álbum de uma vida, um álbum de vida. Nesta semana de ano novo, continuamos a escrever sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

Elza Soares teve uma vida de desgraça e dor, mas em vez de se resignar ela decidiu pegar nessa dor e transformá-la numa lição, para si e para os outros, transformando a sua vida em arte e a sua arte em vida. “Antes de mais, a ‘Mulher do Fim do Mundo’ fala sobre a mulher, que eu acho que é um tema que está muito escondido, e a mulher geralmente é agredida em casa, mas não tem coragem de denunciar. Eu sei bem o que é isso e acho que estou numa posição em que posso falar sobre isso. Também passei por esses dramas”, conta a cantora brasileira numa entrevista recente.

Na década de 1980 (o ano é incerto), Elza Soares bateu à porta de um amigo para lhe dizer que ia deixar de cantar. Tinha um filho doente em casa e decidira trocar a música e os concertos por um emprego “longe da noite” que ainda não arranjara para pagar as contas e “salvar o menino”. O amigo, porém, impediu-a de o fazer. O amigo chamava-se Caetano Veloso. “Era como se o lugar dela estivesse desaparecendo do cenário brasileiro. Mas o Brasil não podia fazer isso com ela. O Brasil não podia fazer isso consigo mesmo”, viria a dizer mais tarde o cantor brasileiro.

Duas das maiores tragédias da vida de Elza Soares tinham acontecido recentemente ou viriam a acontecer pouco tempo depois deste encontro com Caetano Veloso. A estrela do futebol brasileiro Mané Garrincha, que conhecera em 1962, durante o Campeonato do Mundo de Futebol, em Santiago do Chile – jogava então Garrincha no Botafogo – e de quem estava separada há um ano, morrera de cirrose, em 1983 (o álcool, assim como os episódios de violência doméstica e as traições dele levaram a que os dois se afastassem). Pouco tempo depois, o filho de ambos, Garrinchinha, morreu num acidente de carro quando tinha apenas nove anos. Foram tempos muitos negros para Elza Soares, que decidiu então abandonar o Brasil e passar os anos seguintes entre os Estados Unidos e a Europa.

Mas a vida para Elza Soares já começara a ser difícil muito antes disso. Nascida em 1937 no Rio de Janeiro, na favela de Moça Bonita, filha de uma lavadeira e de um operário e violonista amador, Elza da Conceição Soares mudou-se pouco tempo depois para o pequeno bairro de Água Santa, na zona norte da cidade, onde foi criada. Aos 12 anos, o pai obrigou-a a casar com um homem dez anos mais velho, de quem teve cinco filhos: um morreu de subnutrição e outro foi entregue para adoção. Elza trabalhava então numa fábrica de sabão. Com os 16 anos já feitos, decidiu inscrever-se num concurso de talentos no Rio de Janeiro, o “Calouros em Desfile”, emitido pela Rádio Tupi e apresentado por Ary Barroso. Com um vestido roubado à mãe vários tamanhos acima dos seus magros quilos, Elza apresentou-se no palco do concurso. Ao vê-la assim, o apresentador, curioso, perguntou: “De que planeta você está vindo?”, ao que Elza respondeu: “Do planeta fome”.

Em 1960, ainda antes de conhecer Garrincha, Elza Soares, que começara por trabalhar com orquestras, lançou o primeiro disco, uma versão de “Se Acaso Você Chegasse”, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, que a par de singles como “Boato”, “Cadeira Vazia”, “Só Danço Samba”, “Mulata Assassina” e “Aquarela Branca” lhe trouxeram um grande sucesso nas décadas de 60, 70 e 80. De regresso ao Brasil, já depois da estadia nos EUA e na Europa e da morte de Garrinchinha, Elza renasce para a música. É de 2002 o álbum “Do Cóccix até ao Pescoço” (nomeado para os Grammys), em que ela canta “a carne negra é a mais barata do mercado”, misturando aí, e com grande desembaraço, o samba, o jazz, o funk e o hip hop.

Foi isso que abriu caminho para “A Mulher do Fim do Mundo”, lançado no ano passado e promovido no Brasil e a nível internacional este ano, um álbum que é sobre “a mulher que geralmente é agredida em casa, mas não tem coragem de denunciar”, mas que é também “sobre a negritude e o sexo”. Mas quem é, afinal, ou o que é que caracteriza a “mulher do fim do mundo”? Elza Soares explica: “É a mulher que luta, que acredita, que não tem medo, que está acima de qualquer coisa, lutando contra preconceitos e as coisas ruins do ser humano”. Trata-se do 34º álbum da sua carreira e o primeiro de inéditos, e foi feito em colaboração com um grupo de jovens músicos, uma verdadeira “união de quem bebeu muito do samba, mas que também vive numa cidade grande e que recebeu todas as influências dos géneros mais diversos, desde o punk, do reggae, do rock”, diz Guilherme Kastrup, produtor do disco, numa entrevista recente. Tem sido usado o termo “samba sujo” para descrever esta mescla improvável de géneros e influências, que parte de uma base tradicional e junta-lhe “distorções de guitarras, baterias assertivas e eletrónicas indisciplinas”, escreveu Jon Pareles, crítico de música do “New York Times”, que incluiu o novo disco de Elza Soares na sua lista dos dez melhores álbuns deste ano de 2016.

Elza Soares, que diz cantar “para as mulheres, para os negros e para os gays”, canta em “A Mulher do Fim do Mundo” sobre maridos agressivos e mulheres violentadas (“Cê vai se arrepender de levantar sua mão para mim”), travestis (Benedita que vai nas ruas da polícia e do choque e do ódio e do crack e “traz na carne uma bala perdida, uma bala de prata guardada”), homicidas e suicidas e prostitutas e toxicodependentes, e sobre o racismo e outros abusos, num disco que é de denúncia e luta e que vai à luta. Elza Soares vai à luta, ou não fosse ela a “mulher do fim do mundo”, a mulher que “luta” e que “acredita” e que “não tem medo”. A mulher “que veio para ficar”. Elza Soares veio para ficar.

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