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Despojos do Tarrafal

O documentário de Pedro Neves resgata as memórias dos moradores despejados do Bairro São João de Deus, um dos bairros mais problemáticos do Porto

DR

Se e quando alguém decide chamar Tarrafal a algo que não é o Tarrafal, aquele Tarrafal da ignomínia, da vergonha, da tortura, feito campo de concentração para oposicionistas ao regime de Salazar, o que se está a convocar é uma memória de horror para nomear uma realidade que, ao ser outra completamente distinta, evoca no presente similares sensações de pavor às de um passado distante.

O Tarrafal era no Porto. Continha no seu interior o “vale dos leprosos”. De novo uma metáfora. Era a forma de evocar quantos, ao frequentarem aquele espaço, tinham já iniciado uma viagem sem retorno por entre a degradação inerente à extrema dependência da droga. Passava-se tudo isto num bairro social situado na freguesia de Campanhã. Tinha nome abençoado pela veneração a um santo: São João de Deus era a designação oficial, mesmo se desde há muito, e não apenas por se ter transformado numa espécie de supermercado da droga, passara a ser conhecido pelo nome de guerra: Tarrafal.

Pedro Neves, um dos jovens realizadores portugueses que mais se tem vindo a afirmar na área do documentário, não resistiu a esta história de desolação e abandono. O essencial do bairro é hoje, apenas, uma memória cravada na angústia de centenas de famílias de lá expulsas durante os mandatos de Rui Rio enquanto presidente da Câmara Municipal do Porto.

Não é essa a história pouco edificante a interessar Pedro Neves. Com uma rara sensibilidade, com a delicadeza já patente noutros trabalhos, como “Acima das nossas possibilidades” ou “Esquecidos”, ensaia uma viagem através do nada. Um percurso pela desolação, para evidenciar tudo quanto ali se perdeu. Ou tudo quanto continua agarrado à memória de um território amaldiçoado, embora cravado no coração de quantos de lá foram expulsos.

Pedro faz dos despojos a matéria narrativa. Onde havia casas, escolas, mercearias, cafés, recantos que cada um tinha como seus, sobra apenas o vento a passear-se pela terra abandonada.

Há angústia, como há orgulho no olhar, na voz embargada daqueles homens, daquelas mulheres que, levados por Pedro Neves, regressam a um sítio amaldiçoado na cidade, abandonado pelas autoridades, ao ponto de, no auge da degradação, ter atraído mais de 1 500 consumidores de droga por dia. Havia medo de entrar no bairro, dizia-se. Sobretudo terá havido desprezo. Sobretudo terá havido incapacidade de pensar políticas sociais e humanitárias capazes de resgatar a dignidade perdida de um bairro construído na década de 1940.

Aí começa a história que Pedro Neves evitou e daria, por si só, um outro documentário. A opção será discutível, embora se admita o receio de que a evocação do desastre perpetrado entre 2003 e 2008, com a demolição das últimas torres e o despejo de inúmeras famílias, pudesse destruir um documento pensado, antes de mais, como um percurso pelos afetos daquelas mais de seis mil pessoas que chegaram a habitar o bairro.

Em 2003 existiam 28 blocos, 706 habitações e 144 moradias. Em 2005 metade do bairro já não existia. 430 famílias foram dispersas por outros bairros da cidade. No total foram efetuados 132 despejos, numa ação compulsiva com intervenção de grandes efetivos policiais.

O documentário arranca, de resto, com imagens de arquivo da RTP com os despejos e a atuação dos “bulldozers” nas demolições. Ao comemorar os sete anos da sua primeira eleição como presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Rio escreveu um editorial no qual, ao referir-se à demolição do bairro, a sua única promessa concreta feita durante a campanha eleitoral, eufemisticamente apresentada como “resolver este problema”, dizia não poder “exigir melhor forma de evocar a nossa eleição ao acabar com a maior chaga social que, durante anos, existia em Portugal”.

Durante anos e anos, nada mais foi feito no bairro, apesar das muitas promessas. Quase metade das 144 moradias ficaram vazias, com portas e janelas entaipadas por blocos de cimento. A maioria dos blocos foi demolida. Nos que ficaram de pé, os moradores passaram a conviver com um quotidiano feito de amontoado de ruínas, lixo, mato.

Rui Rio não resolveu, evidentemente, nenhum problema, muito menos acabou com qualquer chaga social. A fácil solução de arrasar com um bairro esgotou-se em si mesma, e no impacto visual e demagógico de uma ação musculada.
Há agora sinais de que a Câmara do Porto vai finalmente olhar para o Bairro São João de Deus e apostar na requalificação do espaço. Os moradores estão cansados de nomes dramáticos. Dispensam o Tarrafal. Querem apenas o seu bairro de volta.