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Acabou o tempo em que cada um podia ser o que quisesse

A Princesa Leia foi a primeira personagem feminista numa época em que não se sabia o que isso queria dizer

DR

O fim de Carrie Fisher é o fim da Princesa Leia e o principio do fim da infância de uma geração

Eu queria ser o Han Solo porque o Han Solo era o meu preferido. Acho que foi assim com muita gente. Tinha pinta, piada e era imprevisível. Também gostava do Luke Skywalker, porque nunca me ocorrera que um homem podia saltar verticalmente alturas impossíveis sem uma capa vermelha e um “S” no peito ou aquecer o corpo cortando as entranhas de um Tauntaun.

Do ponto de vista de um puto, as possibilidades eram infinitas. Era pegar num ramo ou numa vassoura, pôr uma toalha aos ombros, assobiar o som do lightsaber e enfrentar o primo, como Luke ou como Darth Vader, não importava. Era pegar na pistola de fulminantes e ver sair um raio vermelho a cada toque no gatilho. Era pôr um lenço nos olhos e dizer que se conseguia ver no escuro, porque era isso que a Força fazia – já levantar objetos só de olhar para eles foi algo que a Força nunca me conseguiu explicar. Era decorar as frases e imitar a voz, sobretudo isso, a voz do James Earl Jones. Aquilo era viver, estar vivo, ter coragem, não ter medo do tempo nem do futuro. Estava tudo na imaginação, dentro da nossa cabeça, cada um podia ser o que quisesse.

Menos ser a Princesa Leia.

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A Princesa Leia intrigava-me; uma mulher poderosa e irresistível, a primeira personagem feminista de que me lembro, numa idade em que não sabia o que isso queria dizer. Era à volta dela que tudo aquilo se passava: monarca, militar, mandona, sensual; o Han queria a atenção dela, o Luke também, o Imperador temia-a, o C3PO obedecia-lhe mecanicamente, o R2-D2 rolava a seus pés – ela só podia ser especial.

Com o tempo fui descobrindo que Carrie Fisher era igualmente especial, dotada do mesmo sentido de humor e ironia da princesa que mitificou e perseguiu para o resto de uma vida atormentada pela doença bipolar.

TRACEY NEARMY

Com ela e com outros como ela, apercebi-me que poucas coisas são o que parecem ser, que a eternidade não existe e que a isso se chama crescer, vestir-se e comportar-se como um homem adulto, deixar a inocência, as brincadeiras e a invencibilidade para trás enquanto os nossos ícones se rendem às únicas verdades absolutas – a doença e a morte.

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A morte de Carrie Fisher não é a apenas a morte de Carrie Fisher e do seu alter ego de penteado curioso, batom encarnado, de defender sporting blaster pistol na mão, com sorriso mordaz, às vezes cúmplice do Han Solo e para sempre irmã do Luke Skywalker e filha do Darth Vader, conhecida como Princesa Leia e depois como General Leia Organa, de vestido branco, uniforme masculino da resistência, e naquele – aquele – biquíni dourado über feminino.

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A morte de Carrie Fisher não é sequer a primeira morte que lamentamos em 2016, o ano que nos levou Bowie, Prince ou George Michael, três ícones da cultura Pop, e Leonard Cohen, um ser transcendente pelos temas que cantou, discutiu e escreveu, e que são universais: a morte, o amor, a religião. Os mortos e as mortes não se comparam, fazê-lo é um exercício discutível e perigoso, porque a importância de cada um deles está diretamente relacionada com a importância que cada um de nós lhes dá. E isso implica o gosto pessoal, o contexto, a idade e o grau de exposição à experiência – são demasiadas variáveis para um resultado que se quer justo.

Paul Hackett / Reuters

A morte de Carrie Fisher é outra coisa; é a morte que sacode a presunção de imortalidade da geração que cresceu nos anos 80. A minha geração, a primeira geração dos Millenials, a geração do Peter Pan, está oficialmente a envelhecer. Caindo a Princesa Leia, cai o VHS Akai e caem as cassetes de vídeo Fuji e National, as etiquetas brancas sobrepostas e escritas a feltro com os nomes Guerra das Estrelas 1, 2 e 3, Tubarão I e II (os outros não valem a pena), E.T., o Rocky e o Rambo; é o fim das quarta-feiras de Lotação Esgotada na RTP, dos domingos de Domingo Desportivo também na RTP, os desenhos animados dos Mestres do Universo na Grundig castanha lá de casa – depois de destruir o Apollo Creed, o Dolph Lundgren foi ainda capaz de destruir o He-Man no cinema.

Podia continuar com uma lista mais obscura de referências dos eighties, a década em que o Pop dançou ao som do Michael Jackson com o Walkman preto da Sony, mas isso seria inútil – além do mais, revelaria a quantidade de informações desnecessárias que o cérebro humano é capaz de aguentar. O refrão do Tarzan Boy dos Baltimora é uma delas; o holograma do R2-D2 da Princesa Leia não é.

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Os três Guerra das Estrelas foram de certeza os filmes mais incríveis que vi quando crescia e isto não são coisas que se esqueçam. São uma lição do bem e do mal, de como os bons se tornam maus e os maus podem ser reconvertidos no último instante, salvando o universo inteiro da extinção certa às mãos de um Imperador bexigoso e odiável. Tem duelos de espadas que são sabres de feixe de luz (o que é fixe), naves chamadas Mon Calami, Star Destroyer, X-Wing, Tie Fighter (ainda mais fixe) e a ágil Millenium Falcon (a mais fixe de todas) pilotada pelo caçador de prémios mais carismático da galáxia. A Guerra das Estrelas é o mundo como ele deveria ser.

O fim de Carrie é o fim da Princesa Leia e o início do fim da minha infância.