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A mocidade “chegou ao fim” e esta é a mais bela despedida

Rita Carmo

Há quem o considere o melhor álbum português do ano e nós temos algumas dificuldades em opor-nos a isso. Sucessor de “Gazela” (2011) e “Pesar o Sol”, (2014), “Os Capitão Fausto têm os dias contados” é um álbum de transição que diz adeus à “mocidade que chegou ao fim” em oito belas canções. Nesta semana de ano novo, continuamos a escrever sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

“Nunca esquecer que a mocidade nunca mais nos vai servir. Assumo o compromisso / deixo as nuvens entrar”

“Os Capitão Fausto têm os dias contados” tem surgido em muitas das listas divulgadas habitualmente por estes dias como o melhor álbum português do ano e é capaz de ser mesmo.

“Os Capitão Fausto têm os dias contados”, o novo disco Tomás Wallenstein, Salvador Seabra, Domingos Coimbra, Manuel Palha e Francisco Ferreira, sucessor de “Gazela” (2011) e “Pesar o Sol” (2014), é antes de mais um álbum de transição feito num período de transição, um álbum que assinala o fim de uma idade e a entrada numa nova idade, idades que só por convenção designamos por adolescência e vida adulta. Eles chamam-lhe “mocidade” e essa mocidade “chegou ao fim”. Agora é tempo de assumir “um compromisso” e “deixar as nuvens entrar”. É tempo de sair “debaixo das saias da mãe” e de “trabalhar”, que até pode nunca ter feito bem nenhum “mas é melhor do que ver o tempo a passar”, além de que o fisco “está à porta” e aos vinte e seis já não dá mais para “empatar”.

“Os Capitão Fausto têm os dias contados” foi composto, tal como o anterior “Pesar o Sol”, em Vascões, perto de Paredes de Coura, em setembro do ano passado, onde estes rapazes passaram dez dias “afastados de tudo”, sem Lisboa e as pessoas de Lisboa em cima a chamá-los para o dia e a chamá-los para a noite; dez dias passados a beber “copos relaxados” e a testar habilidades em jogos de tabuleiro, sendo menos produtivos do que esperavam – regressaram com duas músicas e uns arranjos novos, mas também com a mesma certeza de sempre: “Um retiro, seja em Vascões ou noutro sítio qualquer, é importante” (entrevista à Blitz).

“Os Capitão Fausto têm os dias contados” é um disco de oito canções; oito canções sobre a mocidade que chegou ao fim porque a faculdade e os estudos chegaram ao fim e agora é tempo de desenrascar. Mas como? Vamos fazer o quê? São muitas as dúvidas e as inseguranças, mas há um receio maior do que os outros, o de que tudo possa vir a falhar por falta de dinheiro. “O medo maior é esse”, confessa Tomás Wallenstein na entrevista à Blitz já aqui citada. “Por muito que apareçamos em todas as revistas, as nossas músicas passem em muitos sítios e muita gente conheça as minhas letras, às vezes não faço um rendimento suficiente para pagar uma renda”, acrescenta o vocalista, rematando com a frase: “Muito honestamente e tentando não ser politicamente incorreto, se eu não fosse burguês isto não era possível”. É a segunda vez que o ouvimos dizer isto em entrevistas, sinal de que não se arrependeu e de que tudo isto é verdade. Apostamos que é verdade.

Mas esse conforto financeiro acabou e a casa dos pais vai passar a ser só isso, a casa dos pais, de onde é preciso sair, porque “parar de crescer será morrer por debaixo das saias da mãe”, onde apesar de tudo eu “‘tou tão bem”. “Os Capitão Fausto têm os dias contados” é precisamente sobre isso, sobre a casa que é preciso largar, mas é também sobre “o amor que eu não quero perder” e o “amor” – honesto e livre ou fruto apenas do mero compromisso, porque “tem de ser” – a quem “vou dar a mão” e fazer ouvir “as pirosadas que eu vou pôr” e levar “a passear e talvez até casar num barco a vapor”. E não me “importo de ficar foleiro se assim for”. Meu amor.

“Os Capitão Fausto têm os dias contados” também é sobre isso, além de ser sobre a mocidade que chegou ao fim e que já não nos vai servir mais, e além de explorar outros gestos, como o de despedida, e outros sentimentos, como o sentimento de perda: “Minha mãe eu só te quero lembrar / Até morrer no peito eu vou-te levar”, canta Tomás Wallenstein na mais bela canção ouvida nos últimos tempos: “Morro na Praia”. E está tudo aqui.

Os Capitão Fausto dizem que “têm os dias contados” e nós sabemos que sim, que podem realmente ter os dias contados, porque a mocidade chegou ao fim e por muitas outras razões, mas nós aqui estamos a rezar, nós que nunca rezamos, para que isso não aconteça. Os Capitão Fausto não têm os dias contados.

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