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Um álbum sobre “os filmes de terror dos anos 70” que é também um álbum sobre o desejo e o amor

Jenny Hval

“Blood Bitch”, lançado este ano, é o seu álbum “mais ficcional e mais pessoal”: um álbum que é sobre “vampiros e os filmes de terror dos anos 1970”, mas que é também sobre as questões de género e temas como a sexualidade e o corpo feminino, e ainda sobre o amor, o desejo e a paixão. Nesta semana de ano novo, continuamos a escrever sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

É difícil falar sobre o novo álbum de Jenny Hval. Não musicalmente e em termos de influências ou afinidades - aquilo que ela tem feito pode estar algures entre a dream pop, o gothic metal e a pop experimental ou avant-garde, e o disco é provavelmente tudo isto, mas com uma dose extra de “feedback” e ruído sóbrio comandados por uma grande sensibilidade melódica, tendo já sido várias vezes comparada a Björk e a Laurie Anderson - mas sim em termos conceptuais, se é que se pode pôr a coisa assim. “Blood Bitch”, assim se chama o seu novo álbum, sucessor de “Apocalypse, girl” (2015), é uma “investigação sobre o sangue”, escreveu a artista norueguesa na nota de imprensa divulgada aquando do lançamento do disco, editado pela Sacred Bones. Em particular, sobre o “mais puro e poderoso, ainda que mais trivial, e mais aterrorizante sangue: a menstruação. O suporte branco e vermelho para papel higiénico que liga as virgens, as prostitutas, as mães, as bruxas, as sonhadoras e as amantes”.

Mas “Blood Bitch”, escreve ainda Jenny Hval, é também uma “história ficcional, alimentada por personagens e imagens dos filmes de terror dos anos 70”. “Através dessa linguagem, mais do que através do comentário social moderno, descobri que posso contar uma história diferente sobre mim e sobre o meu tempo: um diário poético da transitoriedade e transcendência modernas”. E quem é Jenny Hval? O mesmo texto fala sobre uma “artista de 35 anos que entrou numa loop de tours da qual não consegue sair e que usa uma peruca preta”; esta artista está “sempre acordada durante a noite, a tocar madrugada dentro”, e durante o dia “repousa sobre um sintetizador Arp Odyssey enquanto uma carrinha preta a transporta pelos EUA e pela Europa”; esta artista pode bem ser Jenny Hval, o que faz de “Blood Bitch” também um álbum sobre ela e não apenas sobre vampiros. Na mesma nota de imprensa lê-se ainda: “Este é o meu álbum mais ficcional e mais pessoal. É um álbum sobre vampiros, ciclos lunares e refrões lânguidos, e sobre o cheiro das folhas quentes e o inverno”.

Jenny Hval nasceu em Oslo em 1980. A sua aproximação à música acontece quando se torna vocalista de uma banda de metal gótico, os Shellyz Raven. Mudou-se para a Austrália para estudar escrita criativa e teatro na Universidade de Melbourne (segundo a revista “Spin”, também estudou filosofia, teatro e cinema, e só não estudou realização porque, segundo palavras da própria artista, “não era suficientemente sociável para conseguir fazer isso”). A sua tese de mestrado era sobre Kate Bush. De volta à Noruega, já em meados dos anos 2000, Jenny dá início a um projeto a solo, em que se apresenta com o nome Rockettothesky, e lança o EP “Cigars” (2006), que atraiu a atenção da crítica norueguesa. Seguem-se os álbuns “To Sing You Apple Trees” e “Medea”. Nos anos seguintes, e já como Jenny Hval, lança “Viscera”, “Innocence is Kinky” (ajudada por John Parish, produtor britânico que tem trabalhado com PJ Harvey e colaborou com Eels, Tracy Chapman, Giant Sand e Sparklehorse) e o já referido “Apocalypse, girl”, e publica, entre álbuns, o seu primeiro romance, intitulado “Perlebryggeriet”, além de o seu nome começar a aparecer esporadicamente em revistas, antologias e jornais.

Foi “Innocence is Kinky”, disco em que são aprofundados temas como a identidade de género, a sensualidade e a sexualidade, e o corpo feminino (nos quais continuará a trabalhar daí em diante), que levou o nome de Jenny Hval a outras paragens, onde foi comparada com Yoko Ono e Lydia Lunch, proporcionando-lhe também a oportunidade de fazer as primeiras partes de concertos de St. Vincent e Perfume Genius. “Apocalypse, girl”, lançado em 2015, chegou embebido de novas sonoridades e ideias e foi igualmente bem recebido pela crítica. Mas a maior surpresa foi mesmo “Blood Bitch”, este seu álbum lançado em setembro, que recebeu críticas bastante generosas nas principais revistas de música e consta das listas dos melhores álbuns do ano divulgadas habitualmente por esta altura (“The Quietus”, “Pitchfork”, “Fact Magazine”, “Stereogum”). Este seu álbum que é sobre “sangue menstrual” (“In the doctor’s office my speculum pulls me open (...) Regulating my aperture, vagine savant/Some people find it painful/ But all I feel is connected”), e sobre “vampiros, ciclos lunares e refrões lânguidos, o cheiro das folhas quentes e o inverno”, mas que é também sobre a paixão, o amor e o desejo (já ouviram a “Secret Touch”?)

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