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A viagem para aquele lugar chamado felicidade

D.R.

Ouvimo-los quando ainda tocavam para poucos e ouvimo-los tocar para muitos. Vimo-los crescer enquanto banda, sabendo da sua passagem pelos maiores e mais ilustres palcos do nossos país e recebendo os aplausos do público e da crítica. Hoje, ninguém tem dúvidas de que os Sensible Soccers são uma das bandas mais interessantes da música portuguesa recente. Nesta semana de ano novo, continuamos a escrever sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

10 de dezembro de 2011, Lounge, Lisboa: O anúncio do concerto no Lounge passa despercebido, não é mais do que uma entrada discreta na secção de música e concertos das agendas culturais que circulam por aí. Ainda assim, decidimos ir, não porque nos excite a perspetiva de dar ou arriscar-nos a levar um tiro vindo do escuro, mas porque conhecemos dois dos membros da formação: tal como nós, cresceram em São João da Madeira, cidade do distrito de Aveiro. Conhecemo-los de vista, já nos cruzámos algumas vezes, temos alguns amigos em comum, frequentamos o mesmo bar. Os outros dois membros da banda são de Vila de Conde e não os conhecemos de todo. Podíamos aliás jurar que nunca os vimos na vida. Vieram a Lisboa e ao Lounge para apresentar o EP de estreia, que tem o mesmo nome da banda, Sensible Soccers. “Wild Piano”, “Fernanda”, “Twin Turbo” e “Missé-missé”, títulos que nos chegam avulso, que nada significam (ainda…).

Os quatro rapazes começam a tocar à hora marcada e não há de demorar muito até nos vermos impedidos de olhar lá para a frente, na direção do palco que não é bem um palco, não é de todo um palco, mas apenas o chão, onde eles estão, para os ver tocar. O espaço é pequeno, as cabeças procuram espaços por preencher, com feixes de luz, para poder espreitar. Assim será até ao fim, impedidos de ver, ouvindo apenas (e isso será suficiente). As reações no final do concerto não são assim tão díspares: todos parecem concordar que foi um bom espetáculo, uma boa surpresa para quem nunca tinha sequer alguma vez pronunciado o nome Sensible Soccers, que é também o nome de um jogo de futebol para computador. Nessa altura, ainda não sabíamos o que estava para vir. Suspeitávamos que eles mereciam tudo, mas estávamos longe de suspeitar e ainda menos de saber que as pessoas lhes dariam precisamente tudo.

Março de 2013, Party Sleep Repeat, São João da Madeira: Já não são os perfeitos desconhecidos de há dois anos nem aquela-banda-de-que-um-amigo-qualquer-nos-falou, mas ainda há muito boa gente por esse Portugal fora que nunca ouviu falar deles. Além do EP de estreia, homónimo, trazem já na bagagem mais um EP, “Fornelo Tapes”, lançado em janeiro de 2012 (Fornelo, como viríamos a saber depois, é o nome da freguesia do concelho de Vila do Conde onde o grupo ensaia e onde vivem pouco mais mil pessoas, segundo números do Instituto Nacional de Estatística).

Mas neste sábado, março de 2013, eles estão em São João da Madeira para tocar no Party Sleep Repeat. É a primeira vez que o festival se realiza e a ideia é prestar homenagem a Luís Lima, um jovem da cidade falecido em 2012, apaixonado por música e apaixonado pela música da banda nortenha, que chegou inclusive a entrevistar. O palco está montado na Torre da Oliva, uma das maiores fundições portuguesas, que produziu desde equipamento para a indústria da chapelaria e fogões em ferro fundido até tubos para canalizações. A antiga metalúrgica surgiu em 1925 e encerrou em 2010 depois de um processo de insolvência, existindo hoje em dia como Oliva Creative Factory, um polo empresarial com uma forte componente nas áreas da formação artística e atividade cultural.

As pessoas vão entrando devagar e o momento é de reencontro: reencontro de amigos e colegas, de conhecidos, alguns deles não se veem há mais de uma década. São João da Madeira é uma cidade pequena e jovem onde toda a gente se conhece (a dada altura, cada um vai para o seu lado, mas depois há eventos que juntam de novo as diferentes gerações na cidade). O concerto foi o que esperávamos (e atenção que as expectativas estavam bem lá no alto): envolvente do início ao fim e muito bonito. Seria daí a cinco meses, em agosto, que a banda nortenha lançaria “Sofrendo por você”, que em pouco tempo se transformou num dos maiores hits da internet portuguesa dos últimos tempos.

11 de março de 2016, Galeria Zé dos Bois, Lisboa: O quarteto que entretanto passou a trio (saiu o baixista Emanuel Botelho) está na Galeria Zé dos Bois (ZDB, em Lisboa) para apresentar o seu segundo e mais recente álbum, “Villa Soledade”, que teve edição brasileira pela Balaclava Records e francesa pela Forecast Label. Ao contrário do disco anterior, “8”, em que primeiro fizeram as músicas e só depois tentaram “gravar um disco à volta dessas músicas”, em “Villa Soledade” “já havia um carácter sónico que fez com que as músicas encaixassem facilmente umas nas outras outras”, viria a explicar mais tarde Hugo Gomes numa entrevista recente ao programa “No Ar”, da Antena 3. “Isso acabou por definir um pouco o conceito do álbum e tornou a coisa mais consiste”, viria a dizer Filipe Azevedo, guitarrista. E Manuel Justo, que tal como Hugo está encarregado dos sintetizadores (e outros instrumentos) viria a acrescentar: “Tínhamos a experiência de outras gravações e tentámos não cometer alguns erros que tínhamos cometido. Enquanto o ‘8’ parece mais uma compilação de temas, que até nos parecem bem agrupados, com ‘Villa Soledade’ fica-se com a sensação de que todas as músicas fazem parte do mesmo disco, e fazem mesmo. Foi tudo mais natural agora, as músicas resolvem-se mais facilmente. Quando, no final, ouvimos o álbum sentimos que pertencia tudo ao mesmo espaço”.

“Villa Soledade” resulta, em parte, do trabalho feito para o projeto “Paulo”, um concerto/espetáculo visual em colaboração com a artista visual Laetitia Morais, fruto de uma encomenda conjunta do GNRation, em Braga, do Festival de Curtas de Vila de Conde e do Teatro Maria Matos em Lisboa. O nome do disco remete para uma casa na estrada nacional que vai de Vila do Conde para Santo Tirso, mais concretamente em Santiago de Bougado, na Trofa, que Filipe Azevedo descreveu, em entrevista à Lusa, como uma casa “muito especial” e que é “uma homenagem muito exótica de um pai a um filho falecido”. Numa entrevista posterior ao Ipsilon, do jornal Público, o trio nortenho haveria de dizer que nessa mesma casa há uma “Torre Eiffel e réplicas fiéis do autor espalhadas, lápides com dizeres estranhos, macacos a beber de um chafariz”. Exótico, pois. Apesar disso, o disco não é sobre essa casa. É sobre o ambiente em que eles, Sensible Soccers, vivem, um ambiente “deprimido e cheio de esperança ao mesmo tempo” num Portugal “alienado e cheio de magia ao mesmo tempo”, explicou Filipe à Lusa.

Mas voltemos ao concerto de março deste ano. Os bilhetes esgotaram de tal modo rápido que a ZDB decidiu marcar outro concerto logo para o dia seguinte. A azáfama dos dias anteriores, com as idas a passo largo aos locais de venda dos bilhetes, onde havia pessoas atrás de balcões exibindo magros blocos de ingressos na mão, mais as mensagens nervosas trocadas nas redes sociais e telemóvel nesses dias, já deixava perceber o quão únicos estavam prestes a tornar-se estes dois concertos dos Sensible Soccers na ZDB. Di-lo quem lá esteve e assistiu ao milagre difícil de descrever que aconteceu em pleno palco saído das mãos destes três rapazes: um milagre que nos fez saltar imediatamente para um lugar onde ainda agora, se pudéssemos estaríamos, e que felizes estaríamos.

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