Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O que há de comum entre Isabel de Portugal e a Virgem Cigana?

Luis de Morales foi um pintor reconhecido em vida. As suas imagens de Cristo e da Virgem são de tal formas intensas que ficou conhecido por El Divino Morales

DR

Pintou a saudade em traços esfumados, de forma intimista e piedosa. A intensidade dos rostos dos Cristos e das Virgens de Luis de Morales valeram-lhe o cognome de ‘El Divino’. No ano que agora termina, o Expresso recorda as imagens da Virgem de um dos pintores mais originais do renascimento espanhol. Homem da raia, passou tempo suficiente em Portugal para deixar aqui parte da sua obra

Não se sabe ao certo em que ano ou em que terra nasceu Luis de Morales, “um dos pintores mais originais do Renascimento espanhol”, cuja obra agradou ao público coevo, o que lhe garantiu um considerável êxito nos parâmetros do século XVI. O público espanhol aproximou-se da obra de ‘El Divino Morales' no ano que agora finda, já que três importantes museus revisitaram a sua obra. Madrid, ainda no final de 2015, acolheu a primeira exibição desta mostra itinerante no Museu do Prado; em fevereiro deste ano a exposição com “54 obras procedentes de diferentes museus, colecionadores privados e instituições religiosas” esteve patente ao público no Museu de Bilbao, e no verão em Barcelona.

Os organizadores da mais completa retrospetiva do ‘Divino’ − comissariada por Leticia Ruiz −dizem que terá nascido em 1510 e morrido em 1586; já Isabel Mateo Gómez, que destaca a influência portuguesa no traço de Morales, admite que poderá ter nascido em 1520. Morales foi um homem da raia, protegido por Juan de Ribera, que aos 30 anos já era Bispo de Badajoz.

Pintura da Virgem vestida de cigana, ou “Virgem do sombrero”, de Luis de Morales conhecido por ‘El Divino Morales’

Pintura da Virgem vestida de cigana, ou “Virgem do sombrero”, de Luis de Morales conhecido por ‘El Divino Morales’

DR

Sabe-se que trabalhou na estremadura espanhola e em Portugal (Elvas, Évora, Portalegre), que o seu ateliê fez escola, e que deixou uma obra vasta. As suas imagens de Cristo e as suas Virgens têm uma enorme carga emocional, a que não é alheia a sua “extraordinária técnica pictórica” como se lê na informação disponibilizada pelos organizadores da exposição itinerante.

Nas representações da Virgem e do Menino encontramos “quatro assuntos fundamentais: a Virgem de leite; a Virgem do sombrero, ou cigana; a Virgem com o Menino a escrever; e a Virgem da roca”. Em todas estas temáticas, “Maria aparece como uma jovem de rosto ensimesmado ou melancólico”, onde se encontra o “célebre sfumato que celebrizou o pintor”.

Pintura de El Divino Morales: Virgem ensina o Menino a escrever

Pintura de El Divino Morales: Virgem ensina o Menino a escrever

DR

Vale a pena recordar o que disse Isabel Gómez, historiadora de uma geração anterior à comissária da mostra Leticia Ruiz, sobre a importância de Portugal na pintura de ‘El Divino Morales’: “Morales, pintor complexo, junta o sentir maneirista” à “melancolia ou ‘saudade’ portuguesa. Talvez a sua grandeza tenha consistido em conseguir um estilo próprio com base em muitos ensinamento” e influências de diversas escolas, onde − além da flamenga e italiana − merece destaque a portuguesa.

Imagem da Virgem vestida de cigana

Imagem da Virgem vestida de cigana

DR


Para Isabel Gómez, devemos ter em atenção a “figura do pintor António de Holanda”, iluminista de D. Manuel I e pai do pintor e historiador Francisco de Holanda, na obra do Divino. A historiadora diz que a imperatriz Isabel de Portugal − filha de D. Manuel I, mulher de Carlos V e mãe de Filipe II − encomendou um retrato dela e do filho ao pintor, em jeito de Madona. Não se sabe se António de Holanda terá efetivamente tido alguma influência sobre Morales, mas Gómez reconheceu traços de Isabel de Portugal num quadro de Morales que viu na sala da leiloeira Christie's em Londres. Gómez admite tratar-se de uma “cópia feita por Morales do retrato” que Holanda fez da mãe de Filipe II de Espanha, e que carecia da “técnica espontânea e fresca do original”.

Morales morreu em 1586, seis anos depois do neto de D. Manuel I ter “herdado, comprado e conquistado” o reino de Portugal. O Museu Nacional de Arte Antiga tem várias obras de 'El Divino Morales'.