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Aquele meio-termo doce

Conta do Facebook de Weyes Blood

Autodidata numa família de músicos, Natalie Mering deixou-se primeiro seduzir pela folk, quando cantava num coro de igreja e no coro da sua escola, e depois, a pouco e pouco, começou a entrar na cena rock e noise do lugar onde vivia. Hoje, é um dos nomes mais interessantes da folk vagamente eletrónica norte-americana. O seu disco lançado este ano, “Front Row Seat to Earth”, é prova disso. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

“Sangue Sábio” (“Wise Blood”, título original), primeiro romance da escritora norte-americana Flannery O’Connor, publicado em 1952, conta a história de Hazel Motes, um jovem de 22 anos desmobilizado do serviço militar que regressa a casa, em Eastrod, no Tennessee, e encontra um lugar desesperançado e em ruínas. “A casa estava escura como a noite e aberta ao negrume, e apesar de ele ter reparado que a vedação em volta estava meio caída e que ervas daninhas cresciam por todo o chão do alpendre, não percebeu de imediato que a casa era apenas uma concha vazia, que não havia ali nada para além do esqueleto de uma casa” (Cavalo de Ferro, 2007). Ao confrontar-se com uma comunidade profundamente religiosa, fanática, no lugar onde se instala, Taulkinham, Hazel dá início a uma intensa batalha espiritual. Natalie Mering (Weyes Blood) leu este primeiro romance de O’Connor quando tinha 15 anos e decidiu fazer do título o nome do seu projeto musical, com as devidas alterações ao nível da grafia. “Aconteceu literalmente assim: li o livro e roubei o título e desde então não voltei a pensar no assunto”, conta a artista norte-americana numa entrevista à “Interview Magazine”, revista fundada por Andy Warhol e pelo conhecido jornalista britânico John Wilcock em 1969.

Naquela altura, Natalie Mering começava a escrever e a gravar as suas primeiras canções. Nascida em Santa Monica, em Los Angeles, em 1988, mudou-se com os pais para a Pensilvânia 11 anos depois. Compunha e cantava para “evitar as armadilhas da cena hardcore” de Bucks County, o condado onde vivia, o quarto mais densamente povoado daquele estado norte-americano (censos de 2010). Autodidata numa família de músicos - o pai teve uma banda durante a new-wave do final dos anos 70 e início dos anos 80, com um primeiro disco produzido por Jack Nitzsche, o conhecido músico e produtor que trabalhou com Phil Spector e colaborou com os Rolling Stones, Neil Young e outros músicos da época, e a mãe escrevia canções que só muito mais tarde, já depois dos 50 anos, finalmente com tempo e dinheiro, viria a gravar -, Natalie Mering deixou-se primeiro seduzir pela folk quando cantava num coro de igreja e no coro da sua escola e depois, a pouco e pouco, começou a entrar na cena rock/noise/experimental da Pensilvânia.

Os pais, esses, trocaram o rock e a vida instável e secular pela família e a religião, “embora tenham mantido alguma da sua hipness” (Pitchfork, 2016). Em casa continuava-se a ouvir Stevie Wonder e Joni Mitchell, à qual Mering é, hoje em dia, comparada, assim como é comparada a Linda Perhacs, Vashti Bunyan, Kevin Ayers e Bridget St. John, e a sua voz faça ressurgir em algumas pessoas memórias de Joan Baez, Mary Travers, Karen Carpenter, Enya ou até de Nico. “Nos últimos quatro anos tenho tentado encontrar algo de poderoso e ao mesmo tempo informal na minha voz. Não gosto de cantar de uma forma demasiado nervosa e não gosto de cantar de uma forma demasiado apagada. Trata-se sempre de conseguir chegar àquele meio-termo doce”, disse a cantora norte-americana na entrevista à “Interview Magazine”.

Com pais “muito conservadores”, Mering foi educada de uma forma igualmente conservadora e de acordo com princípios que, também por volta dos 15 anos, começou a questionar. “Foi uma fase de grande revolta contra o cristianismo, em que passava o meu tempo a ler livros de filosofia esotérica oriental e a interessar-me por tudo o que não tivesse que ver com cristianismo e dogmas”, diz a cantora numa entrevista à revista “Pitchfork”.

Mering lançou o primeiro disco em 2007, “Strange Chalices of Seeing”, e só quatro anos depois voltaria aos álbuns, com “The Outside Room” (2011). “The Innocents”, lançado em 2014, fez dela uma das grandes descobertas da folk experimental ou, se quisermos, da folk experimental pastoral psicadélica atual. Seguiu-se em 2015 o EP “Cardamom Times”. “Front Row Seat to Earth”, lançado este ano, veio confirmar aquilo que já suspeitávamos: que Natalie Mering, na pele e no corpo de Weyes Blood, é simplesmente brilhante. Entre os seus outros projetos, contam-se as colaborações com Ariel Pink (é dela a voz feminina que ouvimos em “Early Birds of Babylon”, de “Mature Themes”), Drugdealer, Mild High Club, Jackie-O-Motherfucker e Nautical Almanac. As viagens e estadias mais ou menos demoradas em lugares variados têm sido igualmente uma parte importante de tudo isto: além das cidades já referidas, Mering viveu em Portland, Oregon, Baltimore, Filadélfia, Kentucky e atualmente vive em Nova Iorque.

A sua folk experimental pastoral virada para o futuro (e para a tecnologia, como ela própria diz) faz-se destes lugares e da vida em cada um deles. E se “The Innocents” era sobre o “amor e ideias adolescentes e a primeira relação séria”, que deu verdadeiramente para o torto nesse que foi o “melhor verão da vida”, e sobre o facto de “só os erros e a dor nos prepararem para a vida”, “Front Row Seat to Earth” é já a aceitação de tudo isso, é perceber, como se percebe quase sempre, que podia ser bem pior, e prosseguir então. É verdade que Natalie Mering ainda tem um pé no passado (“If I could learn to leave my troubles behind”, canta ela na magnífica “Seven Words”), mas tudo o que resta de si está já do outro lado. Natalie Mering está pronta para ser adulta.

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