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Prendas que nunca falham (neste Natal ou noutra altura qualquer...)

O Natal está mesmo à porta. Se ainda não comprou presentes para toda a família, há uma solução que nunca falha: um livro. É a mais segura e intemporal das ofertas, neste Natal ou noutra ocasião qualquer. Entre a muita oferta disponível, selecionámos cinco títulos que não o deixarão ficar mal

“Bíblia – Volume 1”
Tradução de Frederico Lourenço
Quetzal, €19,90

Eis a verdadeira prenda para toda a família. Frederico Lourenço, o tradutor de Homero, ensaísta emérito, recente vencedor da edição de 2016 do Prémio Pessoa, iniciou este ano o projeto de verter para português a “Bíblia”, a partir da versão grega, a mais completa de todas. O primeiro volume junta os quatro Evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), com o foco na dimensão literária dos textos, que nunca surgiram tão belos na nossa língua. Um extenso aparato de notas, elucidativo e de espantosa clareza, explica o contexto histórico e linguístico destes livros fundadores, que testemunham a vida, as ações e as palavras de Jesus Cristo. Precisamente a figura que celebramos no dia de Natal.

“Não se pode morar nos olhos de um gato”
Ana Margarida de Carvalho
Teorema, €17,50


Para a tia que devora romances atrás de romances, ou para o primo que gosta de estar sempre a par das últimas tendências da literatura nacional, este é o livro perfeito. Nem mais nem menos do que a melhor ficção portuguesa de 2016, uma narrativa extraordinária que decorre, quase na totalidade, numa praia perdida da costa brasileira, onde ficam isoladas meia dúzia de personagens, após um terrível naufrágio. A história passa-se no final do século XIX, quando a escravatura já foi abolida mas continua a ser mantida clandestinamente. O talento de Ana Margarida de Carvalho consegue criar um caudal de factos, memórias e conflitos num lugar em que aparentemente não acontece nada. E fá-lo recorrendo a uma prosa de altíssima qualidade, criativa, fluida e de raríssimo fulgor.

“Zero K”
Don DeLillo
Sextante, €17,70

Tem um sobrinho intelectual, que só ouve Mahler e até devorou o “Ulisses” de Joyce no verão? Então o mais recente romance de Don DeLillo é a escolha certa. A premissa podia ser a de uma obra de ficção científica: um grupo de elite criou no deserto, algures no território de uma antiga república soviética, um sofisticadíssimo centro de investigação científica que preserva corpos em cápsulas criogénicas, à espera de futuros avanços tecnológicos. DeLillo faz deste lugar o espelho de um mundo à beira da catástrofe e preocupa-se mais com as suas personagens (o que elas são, como pensam, sofrem e se iludem) do que com a eventual salvação de quem pretende escapar ao caos do presente. Denso e poderoso, é um dos melhores romances publicado pelo escritor norte-americano desde a sua obra-prima (“Submundo”, de 1997).

“Mary John”
Ana Pessoa
Planeta Tangerina, €14,90

Para a filha mais nova, não muito dada a leituras, este talvez seja o presente que a vai apanhar de surpresa e trocar-lhe as voltas. A eventual desconfiança desfaz-se logo nas primeiras páginas, quando a protagonista, Maria João, abre a sua intimidade e se coloca no lugar daquela amiga sobre a qual queremos saber tudo. Combinando a prosa ágil e inteligente de Ana Pessoa (autora de “Supergigante”) com as fabulosas ilustrações de Bernardo P. Carvalho, “Mary John” é uma viagem fascinante pelos labirintos da adolescência, contada por quem o viveu, durante a difícil mas necessária travessia.

“O Túnel de Pombos”
John Le Carré
Dom Quixote, €18,90


Se o avô tem na sua estante vários volumes com as deambulações do agente George Smiley pelos terrenos pantanosos da Guerra Fria, é provável que se interesse pelas memórias do seu criador: John Le Carré, provavelmente o maior autor de ficções sobre o mundo da espionagem. Escrita na primeira pessoa, esta revisitação do percurso pessoal de David Cornwell (o nome verdadeiro do escritor), que trabalhou para os Serviços Secretos britânicos, permite compreender onde foi ele buscar a sua mundividência e os conhecimentos de que se faz o tecido narrativo dos seus romances. Divertido e esclarecedor, este é um livro que se lê de um fôlego e ilumina o resto da obra de Le Carré.