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O labor prodigioso de Bruno Pernadas

Jose Frade/D.R.

O músico de 33 anos arrebatou em 2014 com “How Can We Be Joyful in a World full of Knowledge”, seu primeiro disco a solo. Este ano, voltou a entusiasmar com dois álbuns lançados de uma assentada. Destacamos aqui “Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them”. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

Depois de um disco de estreia que pareceu ter deixado a crítica completamente hipnotizada - tais foram as palavras usadas para descrever o álbum e o seu autor, em publicações da especialidade e em revistas e jornais generalistas - o músico português Bruno Pernadas regressou este ano com “Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them”, um disco que mistura, com uma coerência e mestria assinaláveis, uma variedade de géneros e linguagens, desde o jazz à pop, passando pela folk, rock e rock psicadélico, eletrónica, space age-pop e afrobeat. Nele colaboraram os músicos João Correia, Nuno Lucas, Margarida Campelo, Afonso Cabral, Francisca Cortesão, Diogo Duque, Diana Mortágua, João Capinha e Raimundo Semedo.

Bruno Pernadas tem 33 anos e cresceu entre Benfica e Amadora. Estudou música desde criança. Numa entrevista ao jornal i, contou que quando começou a ter aulas de guitarra clássica percebeu logo que era isso que queria fazer. “Conseguia sacar de ouvido uma ou outra canção, mas ouvia jazz e bossa nova e não conseguia tocar. Havia uma espécie de barreira limitativa. Lembro-me de conseguir sacar ‘Meu Caro Amigo’, do Chico Buarque, e sair-me a custo! Foi como querer construir um móvel perfeito sem usar um martelo”, disse.

Bruno Pernadas frequentou a Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal entre 2003 e 2007, período durante o qual estudou também Análise e Técnicas de Composição com o compositor e maestro Vasco Mendonça. Ao longo dos últimos anos, fez parte de formações como os Real Combo Lisbonense, Suzie’s Velvet, Julie & The Carjackers (que, aliás, fundou com João Correia, em 2009), Minta & the Brooktrout, Benjamin e When We Left Paris; compôs e tocou ainda em vários projetos de artes performativas. Atualmente, além de continuar a compor, dá aulas de música, tanto no Hot Clube como a alunos particulares, e toca em eventos para “poder viver”, disse na entrevista ao jornal i. “É um trabalho. Sou, como diz um amigo, mão-de-obra especializada. Se me ligassem para ir tocar música ligeira no domingo a um casamento, tipo Dino Meira ou Marco Paulo, eu ia.”

Pernadas estreou-se a solo em 2014, com o álbum “How Can We Be Joyful in a World full of Knowledge”, criado a partir de uma série de ideais e apontamentos guardados, na sua maioria, entre 2012 e 2013. Nele, o músico português dá “vida própria a um cadavre exquis feito de jazz, space-age, pop, psicadélica, eletrónica ou exótica”, lê-se na nota de apresentação do seu concerto no Teatro Maria Matos, em Lisboa, aquando do lançamento do álbum.

Na adolescência, Pernadas ouvia jazz, mas também Sonic Youth, Pixies, Tom Waits e Morphine, contou numa entrevista, este ano, ao Ipsilon, do jornal Público. “Não seria a mesma pessoa hoje se não tivesse ouvido aquilo. Vai totalmente contra todo o lado académico e todo o lado das pessoas ligadas ao jazz”, disse então. Hoje, entre as suas grandes influências estão bandas como os ingleses Stereolab, Van Dyke Parks (o músico que ajudou Brian Wilson a escrever as letras de “Smile” e tocou inclusive no álbum), Jim O’Rourke, Neu!, Les Baxter (fundador da exotica, um género muito popular nos anos 1950 e 1960 muito virado para os sons tradicionais da Oceania, sudeste asiático, Havai, Amazónia e África; Pernadas referiu-se em tempos a Baxter como o seu “grande herói”).

Mas “Those Who Throw Objects…” não foi o único álbum que Pernadas lançou este ano. “Worst Summer Ever”, também com selo da Pataca Discos, de João Paulo Feliciano, chegou praticamente ao mesmo tempo. O músico descreveu-o como um “disco de jazz mais moderno, contemporâneo, com muitas influências de rock, um álbum agressivo”. As canções foram escritas há mais tempo, entre 2009 e 2010. Ao i, Pernadas admitiu que se fizesse um disco de jazz em 2016, seria “diferente”. “Neste momento, o jazz que mais me agrada – ouvir e tocar – é mais livre. Já não tenho paciência para estar a ver vídeos de guitarristas virtuosos, como fiz com os colegas do Hot Clube, a estudar técnicas e exercícios.” Pelo dito e implícito, estamos em crer que 2016 foi um ano maravilhoso para Bruno Pernadas. Para nós, que o ouvimos, foi de certeza.

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