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Fantasmas dos Natais passados

A (RE)DESCOBRIR António Gedeão (de seu nome verdadeiro Rómulo de Carvalho) e Kevin Rowland são apenas dois dos muitos autores cujas obras merecem ser revisitadas. Neste Natal e não só

FOTOS D.R. E GETTY

Reinaldo Serrano

Ei-lo que chega: descerá pela chaminé, tanto mais larga quanto a bolsa de quem a possui, virá transportado pelas renas a quem deram nomes, será soalheiro de sorriso, noctívago de horário, presente na invocação que lhe fazem em cada casa, em cada rua, em cada desejo ardente nascido de uma inocência primeiro espontânea, depois fomentada e mais tarde ostentada como símbolo dos educadores, orgulhosos do rumo que o crescimento deve seguir.

As convenções assim o ditam e cada ano passado mais não faz que trazer esse mesmo passado ao momento presente. Envenenado, é certo, pelas tradições feitas comércio absurdo, enfatizado pelo consumo que se torna obrigatório em nome do apropriadamente chamado... capital simbólico. Afinal de contas, “Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,/Ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores./É como se tudo aquilo nos dissesse diretamente respeito,/Como se o céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.”

A citação é de mestre António Gedeão, senhor maior entre as letras que nos habitam e que urge (re)descobrir. É esta, aliás, a minha primeira sugestão para a quadra que vigora há demasiado tempo, por força do comércio que a antecipa sem escrúpulos: mergulhar sem reticência na obra do imenso pedagogo que foi Rómulo de Carvalho, readaptado na vasta obra poética editada pela Sá da Costa e que, graças à longevidade das edições, permitiu perpetuar o legado de António Gedeão e dá-lo a conhecer muito para além do poema que o tornou célebre: “A Pedra Filosofal”.

No domínio das letras lusitanas permito-me ainda lembrar nomes que deixaram de o ser nas referências de hoje, mais preocupadas com o (i)mediatismo de recém-autores do que com a herança que outros deixaram: Ferreira de Castro, Fernando Namora, Maria Ondina Braga ou Raul Brandão parecem apaticamente esquecidos, como se a sua arte tivesse sido substituída por uma outra, quiçá mais consentânea com os dias que correm. Quem sabe se o Natal, a pretexto dessa troca de presentes, possa ser também uma troca de experiências e de conhecimento que vai muito além de bilhetes para concertos de verão, o último “gadget” tecnológico ou uma qualquer coletânea baseada nas “playlists” que o éter reproduz em nome de quem as fornece.

Nelas não constará seguramente o nome de Kevin Rowland; e, no entanto, a obra a solo do vocalista dos Dexys Midnight Runners, resumida que seja a dois álbuns de estúdio, é digna de ser escutada, quanto mais não seja para percebermos até que ponto o próprio foi relevante para a banda e esta para a música dos anos 80 e por aí adiante. “The Wanderer”, de 1988, e “My Beauty”, de 1999, são os dois bons exemplos das viagens musicais de Kevin Rowland, antes de um deserto crepuscular sob a égide da droga o ter afastado da senda e da cena musical até um regresso recente ao grupo agora chamado simplesmente de Dexys.

E porque não presentear um próximo ou próxima com a memória dos extraordinários Art Of Noise, nomeadamente o fundamental “The Seduction Of Claude Debussy”, de 1999? E por falar neste ano em particular, que tal rever as aventuras do comandante Koenig e demais tripulação da base espacial Alpha, afastada do planeta Terra para o Espaço:1999? E se quisermos continuar no domínio da ficção científica, não esqueçamos o esquecido Júlio Verne e as quase desconhecidas edições encontradas em alfarrabistas, de contos soberbos e visionários saídos da imaginação do prodigioso francês? Quer a leitora ou leitor uma ajuda? Aqui vai: procure sem medos “Ontem e Amanhã” (Novelas), “Antecipações e Textos Esquecidos”, “O Segredo de Guilherme Storitz”, “O Piloto do Danúbio” ou o extraordinário “O Homenzinho”. São todos das Edições António Ramos e cada um deles custou... 1 euro.

São exemplos singelos na desesperada fuga ao óbvio que, não raras vezes, assinala o tempo pelo qual ora passamos. Que o Natal é consumismo já o sabemos. Aceite que está este facto, tentemos pelo menos não o banalizar e fazer dele uma oportunidade para partilhar alternativas até porque, para tradição, já basta todas aquelas que agora temos de cumprir. Que as festas sejam felizes.