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PJ Harvey, repórter de guerra

Ian Gavan/Getty Images

A cantora e compositora inglesa saiu em missão e com a missão de ver e ouvir. Quando regressou, teve a bondade de nos contar o que mais a impressionou. Está tudo em “The Hope Six Demolition Project”. Obrigada, PJ Harvey. Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro

Helena Bento

Jornalista

“The Hope Six Demolition Project” veio confirmar PJ Harvey como a contadora de histórias que ela já queria ser desde pelo menos “Let’s England Shake”, quando passou mais de dois anos a pesquisar sobre conflitos recentes e a falar com pessoas que estiveram no Iraque e no Afeganistão. Interessava-lhe, sobretudo, perceber qual tinha sido o papel do Reino Unido nesses conflitos e houve, de facto, quem tivesse descrito o álbum como um conjunto de canções de protesto, gravadas numa igreja do século XIX, em Dorset, contra a intervenção do seu país na guerra do Iraque, embora ela tenha dito mais do que uma vez que não se sente “qualificada para cantar de um ponto de vista político”, mas antes “como um ser humano afetado pela política”.

Há uns anos, a cantora e compositora inglesa PJ Harvey visitou uma exposição que viria a ter um enorme impacto sobre ela. Tratava-se de um conjunto de fotografias tiradas entre 1994 e 2004 no Afeganistão, integradas numa série intitulada “A Darkness Visible”. O autor, o fotojornalista Seamus Murphy, era já relativamente conhecido, mas ela nunca tinha ouvido falar dele. Quis então conhecê-lo e quando se encontraram PJ Harvey perguntou-lhe se queria trabalhar com ela em alguns dos seus projetos futuros.

Foi com Murphy que a cantora visitou o Kosovo e depois o Afeganistão (passaram uma semana na capital, Cabul) e, finalmente, Washington D.C., entre 2011 e 2014, dir-se-ia que imbuída de um certo espírito de repórter de guerra e claramente comportando-se como alguém que sai em missão e com a missão de ver e ouvir e voltar para contar sobre aquilo que, seja por que razões for, mais impressionou. Tanto é que desse breve périplo resultou o livro de poemas e fotografia, assinado por ela e por Murphy, “The Hollow of the Hand”, e resultou também o álbum “The Hope Six Demolition Project”, o nono gravado em estúdio da sua carreira, quase uma mão-cheia, lançado em abril deste ano. O título remete para um programa governamental norte-americano, muito criticado em tempos e orientado para revitalização urbana.

O próprio álbum foi também criticado por alguns políticos, nomeadamente os de Ward 7, bairro nos subúrbios de Washington D.C., que não gostaram que PJ Harvey tivesse descrito o lugar como antro de “drogas e zombies” e escolas esburacadas em “Community of Hope”, primeiro tema a ser divulgado quando o disco completo estava ainda no segredo dos deuses. Quando o disco foi lançado, houve quem tivesse questionado a pertinência de incluir a cidade capital dos Estados Unidos neste plano de viagem elaborado e cumprido a dois. Seamus Murphy respondeu a isso em tempos e já este ano, no programa do antigo editor de político Andre Marr na BBC One, PJ Harvey explicou: “Foi lá que foram tomadas muitas das decisões que afetaram o Afeganistão e o Kosovo. Pareceu-nos o lugar certo para unir todas as pontas” - para ligar as crianças de “The Wheel” que morreram durante a guerra do Kosovo (“ouvi dizer que foram 28 mil”) e o rapaz que pede “dólar, dólar”, retratado em “Dollar, Dollar”, numa rua de uma cidade do Afeganistão.

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