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Luís Miguel Cintra: “Encerramento da Cornucópia é irreversível. Tentativa de solucionar o problema veio tarde”

gonçalo ROSA DA SILVA

Com o aparecimento surpresa do Presidente Marcelo no espetáculo de encerramento da Companhia de Teatro da Cornucópia, o anúncio da extinção da Cornucópia tornou-se um dos temas políticos deste fim de semana. Luís Miguel Cintra fala ao Expresso após os últimos desenvolvimentos

Depois da intervenção do Presidente da República, que falou sobre a possibilidade de um estatuto de exceção para a companhia de Teatro da Cornucópia para evitar o encerramento, o ministro da Cultura afirmou no Fórum da TSF que não haverá estatuto de exceção...
A situação de encerramento não é de facto reversível. A tentativa de solucionar o problema veio muito tarde e, apesar de todos os esforços, a situação tornou-se drástica. O que aconteceu no sábado foi que o professor Marcelo assumiu a opinião pública e, por iniciativa própria, apareceu de surpresa no último espetáculo da Cornucópia para perguntar o que toda a gente nos queria perguntar: “É mesmo verdade? Não é possível que a Cornucópia possa acabar!”. Entretanto chegou o ministro da Cultura, também de repente, e o assunto foi deslocado. As pessoas convenceram-se de que haveria um esforço institucional para impedir o encerramento da companhia.

Isso independentemente de poder haver um estatuto de exceção que isentasse esta companhia de prestar provas no concurso anual da Direção-Geral das Artes, para o orçamento da companhia?
O estatuto de exceção é o que temos vivido sempre. A tentativa de solucionar o problema veio muito tarde. Quando fomos falar com o secretário de Estado, a decisão já estava tomada. O problema que queríamos tratar era: “O que vai acontecer ao legado da Cornucópia?”

E o que pode acontecer?
A ideia não é fazer um museu. É ser um espaço que as pessoas possam utilizar. Precisamente o que queremos saber junto do ministério da Cultura é como é que se pretende ocupar o espaço e o que pode fazer com aquele material. Estão interessados nisso ou não? Essa decisão poderá até determinar os estatutos legais do encerramento da companhia.

Que legado é esse?
Existe um espólio, que por enquanto ainda é nosso, mas a casa é alugada a um privado, quem paga a renda é o ministério. Na primeira reunião o secretário de Estado disse que tinham tomado a resolução de nos deixar disponível o espaço Teatro do Bairro Alto durante um ano, para que decidíssemos o que seria melhor fazer com o espólio da companhia.

O que pode ser feito?
O que está ali dentro pode ser útil para muito gente. O Teatro da Cornucópia, tal como nós o utilizamos, é um instrumento de trabalho único, na medida em que se faz tudo o que é preciso fazer para um espetáculo: Salas de ensaios, palco amovível, construção de cenários, pintura, guarda roupa, adereços, tudo. É uma espécie de ateliê, onde tudo pode ser construído em conjunto, como se fazia antigamente. Provavelmente de uma forma mais artesanal - e por isso mesmo tem uma qualidade enorme. É um instrumento de teatro completíssimo. Quando o ocupámos, o Teatro do Bairro Alto era um espaço vazio. Tudo o que lá está foi construído por nós e transformado numa máquina de cena extraordinária.

E depois da extinção da Cornucópia o que gostaria que ali acontecesse?
Que alguns dos elementos mais novos com quem gostámos muito de trabalhar fossem capazes de se organizar e se pudessem candidatar a um apoio do Estado que pudesse funcionar com o nosso legado, servindo-se, por exemplo, dos nosso projetores, do material de som que lá está, das salas de ensaio, do palco...

O que gostaria era de poder entregar o legado para que ele, de algum modo, pudesse continuar?
Não era para continuar. Gostaria que uma outra geração mais nova pudesse usufruir daquele legado e que pudesse inventar outras maneiras de fazer teatro.

Acompanharia?
Não. Nem me quero responsabilizar pelo que possa vir a acontecer.