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A sabedoria hilariante, descarada e independente de Zsa Zsa Gabor

Zsa Zsa Gabor em 1958

AFP/GETTY

Na vida desta lenda que esta segunda-feira deixou o mundo aos 99 anos, e na das suas duas irmãs, nem sequer falta um diplomata português

Luís M. Faria

Jornalista

Em 1951, os produtores de um show de televisão norte-americano, informados de que um membro do painel ia faltar, pediram a Zsa Zsa Gabor que o substituísse. Ela não se fez rogada. Apareceu em direto com um vestido Balenciaga preto, bem como uma bracelete e um anel de diamantes (20 quilates). Quando alguém assobiou de admiração, a jovem atriz relativizou: “Oh dahling, estes são apenas os meus diamantes de trabalho”. ‘Dahling’ – ‘querido’, dito com a sua pronúncia inconfundível e deliberada de alguém que crescera no leste da Europa – era a palavra que ela usava com quase toda a gente. Conforme um dia explicou, servia-lhe para não ser obrigada a recordar nomes. Quanto aos diamantes, eram parte integral da sua imagem, tal como as peles, o cabelo tufado em louro platinado, a sucessão de relações oficiais e não oficiais, e as próprias frases que ia emitindo sobre variados assuntos.

Um dia perguntaram-lhe quantos maridos tinha tido. “Quer dizer, além dos meus?”, respondeu. As suas exigências eram simples: “Quero um homem que seja gentil e compreensivo. Será muito pedir isto a um milionário?”. Feminista, ninguém jamais lhe chamaria. “O único sítio onde os homens querem profundidade nas mulheres é o decote”, sentenciou. Mas sabia bem o que queria. “Sou uma dona de casa maravilhosa. Cada vez que me divórcio de um homem, fico com a casa”. Podiam chamar-lhe realismo (“divorciarmo-nos de um homem por não o amarmos é tão absurdo como casarmos com ele por estarmos apaixonadas”) ou cinismo (“um homem está incompleto até casar. A seguir está acabado”) ou mesmo oportunismo (“nunca odiei um homem o suficiente para devolver os diamantes”), mas era uma visão moderna, à sua maneira. “Macho não significa mucho”, explicou ela um dia.

Salvas por um diplomata português

Zsa Zsa, nascida Sári Gábor e agora falecida de um ataque cardíaco aos 99 anos, era a última das três irmãs Gabor, nascidas na Hungria e emigradas para os EUA durante a II Guerra Mundial. As outras duas, Magda e Eva, também tiveram carreiras no cinema e na televisão. A mãe delas, Jolie, uma aspirante a atriz que casara com um major do exército para ter segurança e um nível de vida confortável, criou as três com grande esmero, pondo-as a estudar em colégios privados e a ter lições de música, dança e representação. Quando um dia quis retomar o seu próprio sonho e percebeu que estava demasiado velha para isso, resolveu realizar o sonho através das filhas. E foi isso que conseguiu, dirigindo as carreiras delas até ao fim enquanto ia gerindo as suas lojas de joalharia, e morrendo em Palm Springs, California, aos 100 anos, em 1997.

Zsa Zsa Gabor (dtª), com a mãe e as duas irmãs, Magda (esqª) e Eva (2ª à esqª)

Zsa Zsa Gabor (dtª), com a mãe e as duas irmãs, Magda (esqª) e Eva (2ª à esqª)

LAS VEGAS NEWS BUREAU / HANDOUT

Jolie Gabor tinha origem judia, mas escondeu isso durante grande parte da vida. A sua amiga próxima, a colunista Cindy Adams, garante que Jolie e as filhas mentiram sobre praticamente tudo a vida inteira. No princípio dos anos 40, tinham motivos especialmente fortes para mentir. Os avós das irmãs Gabor morreriam no Holocausto.
Elas e a mãe escaparam do país graças aos bons ofícios do embaixador português, Carlos Sampaio Garrido, que terá sido amante de Madga, na altura casada com um conde. Garrido ajudou a salvar cerca de um milhar de judeus, feito hoje lembrado em monumentos como uma placa que se encontra em Budapeste e outra no largo de Santa Bárbara em Lisboa, colocada pela Ordem dos Advogados há alguns anos.

“Uma mulher da corte de Luis XV”

Uma das irmãs descreveu assim o modo com Jolie tinha imposto expectativas e padrões às suas filhas: “Não bastava sermos simplesmente belas. Tínhamos de ser as mais belas. Nunca bastava sermos chiques. Tínhamos de estar mais na moda que ninguém. As metas permaneciam sempre fora do nosso alcance”.

Chegada aos EUA, Magda não tardou a divorciar-se e a casar com um argumentista de Hollywood. Outros maridos se seguiram. O quinto marido, o ator George Sanders, seria também o terceiro de Zsa Zsa, que entrou nos EUA em 1945. Sanders tinha fama de conquistador, mas até ele perceberia que Zsa Zsa era uma força da natureza.

“Cada época tem a sua Madame Pompadour, a sua Lady Hamilton, a sua Rainha de Sheba, a sua Cleópatra. Não me surpreenderia se a história incluisse Zsa Zsa como o protótipo desta corte exclusiva”, escreveria o ator no seu livro de memórias.

GYOERGY LAJOS/EPA

O co-autor de uma autobiografia dela, Gerold Frank, confirmou essa ideia: “Zsa Zsa é única. É uma mulher da corte de Luís XV que de alguma forma conseguiu viver no século XX. Mas diz que está sempre a brincar e paga as suas próprias contas. ‘Eu escolho o homem. Não permito que os homens me escolham”.

Um “príncipe” filho de um polícia

A sua carreira tinha começado ao conquistar o título de Miss Hungria em 1936. Nos EUA faria mais de 60 filmes, entre cinema e televisão, mas foi o percurso de uma atriz menor, não particularmente talentosa nem proeminente. Os títulos mais importantes foram “Queen of Outer Space” e “Moulin Rouge”. O realizador deste último, John Huston, a certa altura desistiu de tentar conseguir que ela fosse uma atriz no sentido real do termo. “Zsa Zsa, esquece a representação”, disse-lhe. Faz apenas amor com a câmara”. A fama de Zsa Zsa ficou marcada sobretudo pela presença como convidada em programas televisivos de muitos tipos, desde talk-shows a game-shows, westerns, comédias, etc.

Mais excitantes que tudo isso, ou mais irresistíveis para os media, eram as notícias sobre a sua vida privada. Oito maridos (ou nove, se contarmos um matrimónio realizado no alto mar e rapidamente anulado, até por envolver bigamia…): um diplomata turco, um herdeiro de hotéis, um ator, um industrial, um magnata do petróleo, um criador de brinquedos, um advogado de divórcios, e, por fim, um falso príncipe, ou “Duque da Saxónia”, que tinha obtido o título ao ser “adotado” por uma duquesa, numa transação obviamente comercial. Frédéric Prinz von Anhalt, na verdade, era filho de um polícia, mas foi o casamento mais longo de Zsa Zsa, durando desde 1986 até à morte da atriz.

Reuters

A única filha de Zsa Zsa, Francesca Hilton, contou um dia à Vanity Fair: “A minha mãe costumava sempre dizer-me, ‘deixa o homem pensar que é o boss’ (…) Acho que ela gostava dos seus animais tanto como dos seus cães. Quero dizer, maridos”. Cindy Adams, por sua vez, conta uma história de Zsa furiosa com um empregado de mesa que queria ir para a cama com ela. O problema não era o sexo; quanto a isso, ela estava a fim. O problema é que o homem queria aparecer em público com a actriz. “Podes imaginar? Um EMPREGADO DE MESA?”.

Séria na frivolidade

Adams reiterou a natureza essencialmente falsa, e paradoxalmente sincera, de todo o espetáculo Gabor. Por exemplo, nas constantes mentiras sobre a idade. “Eu costumava dizer que única maneira de perceber a verdadeira idade de uma Gabor era pelas rugas das gengivas. Tudo não passava de história revisionista. Eram louras? Não. Tinham aqueles narizes? Não… mas nós sabíamos. Essa a diferença. Não estávamos à procura de verdade. Sabíamos que não havia nenhuma”.

Com a passagem das décadas, inevitavelmente, as notícias foram ficando deprimentes. Em 1989, Zsa Zsa foi presa três dias por agredir um polícia de trânsito e guiar sem uma carta valida. Anos depois, foi-lhe amputada uma perna. Houve outras operações antes e depois. Nos últimos anos dizia que já devia ter ido embora por ninguém tinha necessidade dela. “Porque é que ainda estou aqui?”. Uma resposta possível seria uma história que a sua filha contou: “ Encontrei Courtney Love no mercado. Pedi o seu autógrafo para a minha filha e disse-lhe que a minha mãe era Zsa Zsa Gabor. Ela disse, ‘Meu Deus, isso é cool!’”.

Pelo seu lado, Zsa Zsa garantia: “Sou uma pessoa muito séria. Não poderia ter construído está imagem idiota de mim ao longo de todos estes anos se não fosse séria”, Isto foi dito em 1960 num perfil que a revista “New Yorker” publicou. Noutra altura, ela resumiu: “Uma rapariga deve casar por amor, e ir casando até o encontrar”.