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A missa maldita do padre (ou frei) Renato

Um dos nossos melhores “diseurs” de poesia, ele próprio poeta, tem andado pelo país a apresentar um espetáculo de poesia com uma diferença

Luís M. Faria

Jornalista

Renato Filipe Cardoso (n. 1971) é um homem grande com uma voz possante e calorosa, que utiliza com virtuosismo eclético. No seu trabalho quotidiano é locutor e professor. Mas já foi outras coisas, incluindo jornalista. E escreve poesia. Também a lê, em especial às quintas-feiras, num café do Porto.

Uma variante dessa atividade é a Missa Maldita, um espetáculo hilariante de poesia ordinária (muita da qual de autores clássicos) que ele tem andado a apresentar em festivais literários, e ao qual Expresso já assistiu duas vezes este ano. A última foi em Viseu, no festival Tinto no Branco. Foi lá que conversamos com Renato.

A avaliar pelo que se encontra nestes eventos, não há assim tantas pessoas em Portugal capazes de ler poesia de uma forma que seja realmente (para usar uma expressão horrível, por melhor que a leiam) impactante. Além de si, encontrei o Pedro Lamares…
Há outros. O Rui Spranger, o Eduardo Ferreira, a Teresa Coutinho… Neste momento, existe um conjunto de grandes dizedores de poesia, fruto de tertúlias e eventos poéticos que nasceram, alguns há muitos anos, e têm permanecido.

A internet tem ajudado?
Eventualmente, pode servir como uma forma de divulgação. Mas são mais os eventos. Existem tertúlias por todo o país. Eu tenho ido dizer poesia a escolas, a bibliotecas, a encontros. Mesmo nos festivais, tenho participado mais como diseur do que como poeta. Estive como poeta nas Correntes de Escrita, onde um livro meu foi finalista em 2015, mas tenho ido com mais frequência dizer poesia.

Já o vi duas vezes fazer este espetáculo em que aparece vestido de monge, com cachecóis dos três grandes do futebol português à volta do pescoço. Como é a experiência?
É uma experiência de evangelização. As pessoas em Portugal estão um pouco adormecidas para a literatura e para a capacidade que ela nos dá de sermos mais inteligentes, mais expeditos a fazer escolhas, a procurar as melhores alternativas em termos de raciocínio, de pensamento, de sentido físico. Os festivais têm esta mais-valia de abrir caminhos através da literatura. Caminhos que depois se repercutem em toda a vida.

É sempre um prazer participar. No caso deste festival com humor, mas tentando expandir um pouco os horizontes das pessoas, levando-as a pensar de uma outra forma.

Entre um debate sobre o amor ou outro tema geral e uma sessão de poesia, sobretudo com uma entoação como a sua, imagino que esta seja bastante mais eficaz a interessar as pessoas, no sentido que diz.
Não sei. Acho que não. Há várias linhas possíveis. Ler poesia de humor é ir por um caminho ao qual as pessoas, à partida, já estão mais abertas.

Mesmo quando não é poesia de humor. As tais quintas-feiras no Porto, por exemplo.
Sim, aí essencialmente não é de humor. Ler poesia é sempre mais fácil, porque estamos a levar a palavra diretamente às pessoas e a sensibilizá-las com o próprio ato da leitura. Falar sobre a literatura é muito mais abstrato. Acho que aí tem muito a ver com a qualidade dos interlocutores, a maneira como se fala sobre as coisas. Há pessoas que escrevem belissimamente mas não são bons pedagogos a falar em público sobre o que fazem. Aí é mais interessante ler o que escrevem do que ouvi-la.

No seu caso, começou a escrever – escrever com alguma seriedade, entenda-se – depois de ter experiência a dizer?
Não. Comecei a escrever com consistência aos 14, 15 anos, e aos 19 já estava envolvido nas noites do Penguin Café no Porto. Lia as minhas coisas e também as de outros poetas. Eram noites muito partilhadas, em que podes levar o que é teu e de outros. Através do Penguin Café, que ao longo dos anos fez duas coleções de poesia, tive vários convites para editar. Nunca quis, porque sempre tive um fenômeno de mimetismo na minha escrita. Lia Herberto Helder, e queria imitá -lo. O mesmo com Ruy Belo, Al Berto, e por aí fora. Até eu cheguei a uma fase da minha vida, quase com 41 anos, em que achei que já tinha uma propriedade na escrita que me permitia estar à vontade para editar. Porque tenho algo para dizer e escrevo como o Renato e não como outro qualquer. Criei, se assim se pode dizer, o meu próprio estilo.

Editei o meu primeiro livro em 2012, numa microeditora do Porto. Fizemos 500 exemplares. Embora digam que a poesia não vende, ao fim de três anos estava esgotado. Claro que ajudou o facto de ser finalista do prêmio Correntes de Escrita. Mas também houve algo que me agradou, pois, tendo eu trabalhado como jornalista durante 12 anos e tendo muitos amigos jornalistas, as pessoas perguntavam: então nunca mandaste nada? Eu não mandei porque não queria favores. No entanto, os meus livros têm vindo a fazer o seu percurso.

Acontece, sobretudo, através do boca a boca. Também é verdade que tenho uma linha poética com pendor interventivo e humorado… Um título como “O Cavalo de Troika” não engana. Esse livro foi o primeiro a ser lançado no festival de Paredes de Coura. Achámos que não ia vender nada ali, mas vendeu trinta e tal, quarenta exemplares. Miúdos de 17, 20 anos trocavam oito euros, que dariam para comprar aí umas quatro cervejas, por um livro de poesia. Identificavam-se com uma escrita panfletária, interventiva, muito política.

Os meus livros têm tido um pouco o efeito bola de neve. Há pessoas me contactam via Facebook, compram o livro, leem num tertúlia, e a seguir há mais gente a pedi-lo. Vou fazendo assim o meu caminho. Nunca tive nenhum artigo publicado no "Jornal de Letras". Hoje em dia existe este percurso alternativo da poesia, que está um pouco arredado da grande imprensa.

Voltando a sua experiência de diseur, quem são os melhores poetas para dizer? Em termos de efeito imediato.
Eu acho que claramente não existem poetas, mas textos de poetas – uma certa linha de poesia que deve ter mais uma leitura de olhos no papel, porque nos exige um espaço interior e uma interpretação. Herberto Helder é difícil de dizer. Há tanto por trás de cada palavra que, dito, é um denominador mínimo.

A poesia mais discursiva é melhor para ler?
A poesia mais discursiva, mais direta, obviamente, é mais fácil para ser dita. Alberto Pimenta, Jorge Silva Braga, Bocage…

Como elabora os seus programas nas tais quintas-feiras?
Normalmente tento criar uma linha e gerir momentos altos e momentos baixos. É muito fácil arrancar risos do público quando sai uma c…ada, ou uma coisa mais sexual, ou futebol. Eu procuro também ter textos que apelem a outro tipo de humor. Para não ser apenas escatológico.

Como se lembrou de fazer este espetáculo que apresentou aqui em Viseu?
Basicamente, eu já tinha feito isto em Lousada, nas jornadas pedagógicas de bibliotecários, de uma forma quase ad hoc. Tinha levado uns textos de humor para adultos. E resultou tão bem que eu e o Paulo (da Booktailors, e empresa que organiza o festival literário de Viseu) resolvemos fazer a partir dali uma ‘missa maldita’. Porque parecia uma missa.