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Reparei que o espelho partido que eu via lá fora também estava cá dentro

Imeh Akpanudosen/Getty Images

Nesta semana de Natal e depois na de ano novo, escrevemos sobre 10 álbuns que fizeram de 2016 um acontecimento melhor - não é definitivamente um ranking, é certamente um roteiro. Começamos com “Sirens”, de Nicolas Jaar

Helena Bento

Jornalista

“Sirens”, o segundo LP de Nicolas Jaar, começou por ser um álbum sobre o mundo que se foi tornando, ao longo do tempo, num álbum sobre o próprio artista norte-americano. “No início, Sirens não era nem remotamente sobre mim. Mas, tal como acontece com a maior parte das coisas, acabámos por nos ver a nós mesmos nas coisas que fazemos”, conta numa entrevista à “Pitchfork”, em que revela que depois de ter terminado o álbum enviou-o aos seus amigos mais próximos. Queria saber o que eles pensavam e a resposta foi praticamente unânime: “Este álbum és claramente tu”.

Enquanto em “Nymphs” (série de máxi-singles lançados entre 2013 e 2015) e “Pomegranates” (banda sonora alternativa que produziu para um filme de 1969, “The Colour of Pomegranates”, realizado por Serjei Parajanov), que descreve como álbuns “mais pessoais e íntimos”, não houve um verdadeiro “questionar da identidade”, em “Sirens” esse processo ocorreu e de que maneira. “Nos meses que antecederam o disco, houve muitas mudanças na minha vida - quando se regressa a casa depois de uma tour longa, é preciso organizar as ideias e arrumar a cabeça. Só percebi o quão de mim eu tinha posto em Sirens quando reparei que o espelho partido que eu via lá fora também estava cá dentro”.

Nicolas Jaar nasceu em Nova Iorque, em 1990, filho do reconhecido artista plástico chileno Alfredo Jaar e da ex-bailarina e também artista Evelyne Meynard. Foi através dos seus pais que, aos 14 anos, ouviu pela primeira vez Ricardo Villalobos, produtor e DJ chileno a viver em Berlim, na Alemanha, que viria a despertar o seu interesse pela música eletrónica. Entre os três e os nove anos, Jaar viveu só com a mãe, no Chile, depois de os pais terem decidido separar-se. Em entrevista ao diário chileno “La Tercera”, por ocasião do lançamento de “Sirens”, recorda os jogos de futebol com os seus colegas do Lycée Antoine-de-Saint-Exupéry (liceu francês), em Santiago, embora admitindo que as suas memórias dessa altura são muito vagas. Jaar regressou depois a Nova Iorque, onde vive atualmente, e é desse trânsito sentimental por lugares concretos e outros imaginários que marcaram a sua infância e adolescência que se faz muito do que é “Sirens”.

Em “Leaves”, terceiro tema do álbum, ouvimos Jaar, ao fundo, com voz de criança pequena, a falar com o seu pai sobre uma estátua que fora mordida por leões mas aguentou-se graças ao seu tamanho e peso. E em “No”, essa bela misturada de géneros e ritmos e sons diferentes (com qualquer coisa de “Sofrendo por você” dos Sensible Soccers ali pelo meio), há igualmente uns minutos de uma gravação caseira em que se ouve o seu pai a pedir-lhe para contar uma história, a que Jaar, ainda criança, responde então contando a história de um pássaro que estava a voar quando foi atingido por um tiro. O homem que o atingiu começa a correr, sendo surpreendido mais à frente por um leão que lhe lança um rugido retumbante.

A letra da música, por sua vez, é o relato de uma conversa que Jaar teve um dia com um vizinho seu, que lhe disse: “Ya dijimos no pero el si esta todo” (em português: “Já dissemos que não, mas o sim está em todo o lado). A frase remete para um acontecimento muito específico da História da Chile, quando o povo do país foi chamado a decidir sobre a permanência ou não do general Augusto Pinochet no poder mais oito anos, a 5 de outubro de 1988 - e a sua inclusão aqui é prova da tentativa de Jaar de compreender melhor a sua herança e história enquanto norte-americano filho de pais chilenos, que nasceu no mesmo ano da queda do regime de Augusto Pinochet, em 1990, e todos anos viaja para o Chile para unir traços da sua cartografia pessoal.

“Sirens” foi lançado em setembro pela editora Other People (Lydia Lunch, William Basinski, Lucretia Dalt), que fundou em 2013 e dirige desde então. É o seu segundo LP, depois de “Space is Only Noise” (2011). Além de “Pomegranates”, Nicolas Jaar produziu a banda sonora, desta vez oficial, do filme “Dheepan”, sobre uma família de refugiados do Sri Lanka que vive nos subúrbios de Paris, realizado pelo francês Jacques Audiard e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2015. É também conhecido o seu projeto “Darkside”, entretanto suspenso, com o multi-instrumentista e amigo de longa data David Harrington.