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Aos 75 anos “é o passado que dá futuro ao presente” do Coliseu do Porto

Coliseu do Porto comemorou esta segunda-feira 75 anos de existência. Uma história de altos e baixos, de resistência e reinvenção, de uma sala de espetáculos ou “praça coberta” sobre a qual o Expresso esteve à conversa com o atual presidente

André Manuel Correia

Corria o ano de 1941 e o mundo estava mergulhado no confronto bélico mais sangrento da História. O mundo era um enorme palco de guerra e a 19 de dezembro do mesmo ano o Coliseu do Porto abria portas com um sarau de gala para 3500 pessoas, num ambiente sofisticado e de grande elegância. Parecia o início de uma existência dourada, mas ao longo de 75 anos a sala de espetáculos já viveu altos e baixos, já renasceu literalmente das cinzas – após o incêndio em 1996 – e ainda preserva a capacidade de se reinventar. “Quando aqui cheguei, encontrei o Coliseu triste, doente e com muita dificuldade em fazer face àquilo que era a sua responsabilidade e a sua memória”, afirma em entrevista ao Expresso Eduardo Paz Barroso, que assumiu a presidência em setembro de 2014.

“Existia um vazio tão grande que nem dinheiro havia para pagar salários”, recorda o atual presidente da direção dos Amigos do Coliseu do Porto, sucessor de José António Barros, que ocupou o cargo durante 18 anos. Sem imputar culpas a ninguém, Eduardo Paz Barroso questiona apenas se “as pessoas que cá estavam falavam com outras instituições” da mesma forma como ele o garante fazer com Serralves, o Teatro Nacional São João ou o Rivoli, por exemplo. “Há um trabalho em rede e o que o Coliseu precisava era de capacidade de liderança para se encaixar nessa rede”, denota o presidente da instituição.

Atualmente o tempo é de viragem e mudança, mas não se esquece ainda assim toda a herança e identidade histórica. “É uma mistura entre a arqueologia e o presente, porque é o passado que dá futuro ao presente”, frisa Eduardo Paz Barroso.

Desde que assumiu a direção da sala de espetáculos – e com a experiência de ter presidido ao Teatro Nacional São João –, Paz Barroso quis essencialmente alterar a forma como os portuenses e os agentes externos olham o Coliseu, bem como encontrar uma solução de o valorizar economicamente, que passou por um rebranding e por uma nova forma de comunicação. O nome foi encurtado de forma a, paradoxalmente, aumentar o impacto e o peso da relação entre a instituição e a cidade. Coliseu Porto. Apenas. Ponto. E assim nasceu ou renasceu, numa versão mais modernizada, contemporânea e aberta a todos.

“O Coliseu tem uma voz e um estilo. Mas a voz e o estilo do Coliseu são uma espécie de caleidoscópio feito das vozes e dos estilos de todos os nossos públicos e, no fundo, da própria rua. Somos uma praça coberta. Temos esse lado de rua e de espaço público”, vinca o responsável.

Alterou-se também a forma como a instituição interage com os agentes artísticos e a forma como se relaciona com o mercado “Essa relação foi disciplinada, modificada saudavelmente à custa de trabalho silencioso e discreto. Os promotores artísticos perceberam que tinham de olhar e falar com o Coliseu de uma outra maneira”, assegura o responsável, para quem “as instituições não se alugam”.

O momento é de celebração mas também de transição e Eduardo Paz Barroso assume frontalmente ser necessário repensar o atual modelo de gestão do Coliseu, que se mantém vivo muito graças ao apoio da Santa Casa da Misericórdia e aos apoios das autarquias, nomeadamente da Câmara do Porto, embora de maneira informal, através da aquisição de ingressos.

“O Coliseu não tem capacidade para sozinho fazer face a todas as despesas de funcionamento e manutenção”, reconhece o presidente da direção, depois de em outubro Rui Moreira ter dito que o projeto para o Coliseu necessita de algum suporte ou então terá de ser abandonado, passando para as mãos do Estado. Na origem da tomada de posição forte por parte do presidente da Câmara do Porto está um princípio legal que estipula que as autarquias não podem apoiar regularmente instituições das quais são fundadoras.

Em abril de 2017, a direção do Coliseu Porto cessará o atual mandato. Eduardo Paz Barroso garante que deixa trabalho feito para o futuro, mas diz, no entanto, não ter a “pretensão de deixar legados”, mas antes de se “entusiasmar com as causas” em que se envolve.

Esta segunda-feira, o Coliseu Porto comemora o 75.º aniversário e abre as portas para visitas guiadas até aos bastidores. Por cada ano de história, uma pessoa terá a oportunidade de ver a sala de espetáculos como nunca antes, a partir de uma outra perspetiva. As visitas, que requeriam marcação prévia, já se encontram esgotadas e a direção alargou inclusivamente o número de visitantes para dar resposta aos inúmeros pedidos que chegaram.

Até setembro de 2016 passaram pelo Coliseu Porto 143 mil espectadores e a sala portuense acolheu 77 espetáculos.