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Paulo Gurgel Valente: “Ela pertencia ao Brasil”

Uma mãe cuidadosa, singular. Que acordava às 4h da madrugada para escrever. Assim descreve Paulo Gurgel Valente a sua, Clarice Lispector, que faria 96 anos a 10 de dezembro

Tem 63 anos, é economista de profissão e mantém um pé na literatura infantil. Outra coisa não era de esperar — é o filho mais novo dos dois que Clarice Lispector teve com o diplomata Maury Gurgel Valente. Ao telefone desde o Rio de Janeiro fala da mãe, nascida a 10 de dezembro, há exatamente 96 anos.

Quando se apercebeu de que era filho de Clarice Lispector?
Só percebi que era filho de uma escritora importante quando passámos a receber visitas de jornalistas brasileiros e estrangeiros em casa. Eu devia ter uns 9 anos e já morávamos no Leme, no Rio de Janeiro.

Que imagens da sua infância mais recorda?
A casa de Washington, onde vivemos até os meus 6 anos, quando a família ainda estava junta. A casa era semelhante aos desenhos das crianças, com vários animais domésticos — cachorro, patos, coelhos — que influenciaram a escrita de Clarice. E a cidade tinha verão intenso e neve no inverno.

E o que se lembra do regresso ao Brasil?
Para mim foi uma grande mudança. Estava habituado aos Estados Unidos, à escola e à língua — mesmo em casa falávamos inglês. Sentia também falta do meu pai, porque o motivo do nosso regresso foi justamente a separação dos meus pais.

Numa entrevista afirmou que não conheceu outra vida além da de ser filho de Clarice Lispector. O que quis dizer?
A frase tem menos filosofia do que parece: perguntaram como era ser filho de uma escritora e eu respondi que, não tendo sido filho de outra pessoa, não posso comparar. A vida impôs-se dessa forma. Por outro lado, ser filho de Clarice era ser filho de uma mãe singular. Isso vê-se nas cartas que ela me escreveu quando, aos 15 anos, fui para os Estados Unidos por seis meses.

Onde, por exemplo, o trata por “gafanhoto” e lhe diz que a vida é uma grande aventura.
Essa carta é muito significativa. Ela está despedir-se por seis meses do filho numa época em que a comunicação, mesmo por telefone, não era fácil. E em vez de se queixar diz-me que a experiência vai representar muito para mim. Que vou crescer com aquilo. Clarice era uma mãe muito presente. Por isso escrevia na sala, com a máquina ao colo — para fazer parte do movimento da casa. E há também a história do conto infantil “O Mistério do Coelho Pensante”, que ela escreveu para mim.

Quer contar?
Eu via-a na sala sempre escrevendo e um dia disse-lhe: “Você escreve tanta coisa, porque não escreve um conto para mim?” Então ela escreveu, em inglês, uma história que é real. Era de facto um mistério que tínhamos lá em casa, onde havia, na garagem, uma gaiola de coelhos que fugiam não se sabia como. E a garotada do bairro — um subúrbio de Washington — corria atrás deles. Depois, no Brasil, ela acordava às 4h da madrugada e até às 7h ficava com o tempo e o silêncio da casa só para si. Eu acordava com o barulhinho dos dedos a baterem na máquina.

Em Clarice há um lado doméstico e um lado interior, subterrâneo. Foi difícil essa conciliação?
Não havia grande conflito. Um pouco como nesta visita de Tom Jobim ao maestro Villa-Lobos. O apartamento ficava numa rua movimentada, as crianças corriam na sala, e Jobim perguntou a Villa-Lobos como conseguia compor com todo esse barulho. Ele respondeu: “Com o ouvido interno.” Portanto, não era uma situação incomum. Porém, quando estava a finalizar um livro, a minha mãe ia para um hotel e ficava incógnita durante uma semana.

O que herdou de Clarice?
A sensibilidade, a noção de ética, o gosto pela cultura. A escuta diária de música clássica. Quando me apanhava triste, dizia esta frase: “Se Deus cuida até dos passarinhos, porque não ia cuidar de você?” Aos 12 anos escrevi um pequeno conto e mostrei-lho. E ela, com todo o cuidado, disse que estava bom, mas que tinha de o desenvolver um pouco mais. Mais velho, lembro que ela fazia entrevistas para publicar e consultava-me sobre o que devia ou não perguntar.

A sua mãe tinha momentos de tristeza?
De tristeza e sobretudo de melancolia, mas era também muito bem-humorada. Gostava de contar e de ouvir piadas, e de reunir os amigos. Nunca vou esquecer do dia em que viu o filme “Planeta dos Macacos” e depois brincava connosco imitando as personagens.

O que se recorda da vida familiar? Da relação de Clarice com os livros, com a cozinha...
Na época, as editoras mandavam-nos em primeira mão os livros do Drummond de Andrade, do Mário Sabino, do Rúben Braga, que eu ia devorando. Com a cozinha ela não tinha relação — não entrava nessa parte da casa. Como acordava cedo, à noite a cozinheira deixava-lhe uma garrafa térmica de café. Claro que, sendo mulher de diplomata, sabia organizar jantares. E nas crónicas femininas, que fazia sob pseudónimo, até incluía receitas. Mas nunca a vi fazer nada na cozinha.

O biógrafo Benjamin Moser diz que as origens ocupavam nela um lugar mais complexo do que se pensa. Concorda?
Nos anos 60, os meus pais tentaram uma reconciliação e fomos para a Polónia reunir com o meu pai, que estava lá colocado. Ela escreveu uma crónica que falava da sensação de estar sozinha na varanda da casa em Varsóvia. Dizia algo como: “Uma grande floresta negra apontava-me o caminho da Ucrânia. Senti o apelo. Mas eu pertencia ao Brasil.” É como se não quisesse aproximar-se da sua origem, da origem de uma família refugiados que fugira dos pogroms. Ela pertencia ao Brasil e ao misterioso mundo interno das pessoas.

E dentro do Brasil, que lugar ocupa o Recife?
Clarice viveu lá até aos 12 anos e foi lá que desenvolveu a sua consciência social — visitava as antigas empregadas da casa, que viviam em lugares muito pobres. Daí vem a vontade de estudar Direito, revolucionária para uma mulher. Clarice falava com um sotaque nordestino que parecia estrangeiro, devido a um defeito de dicção. Quando estava a tratar da naturalização, escreveu ao Presidente Getúlio Vargas que isso a transformaria numa brasileira de direito e que lhe permitiria fazer da sua vida uma coisa importante. Era uma premonição.

Como era a Clarice dos últimos textos? Na entrevista que deu em 1977 parece silenciosa e triste.
Aquela entrevista não reflete o estado geral da minha mãe. Quando estava no táxi a caminho do hospital, de onde já não iria sair, disse para a amiga: “Vamos fingir que estamos indo para o aeroporto, para embarcar para a Europa.” Sabia que estava doente, mas não estava triste.

Foi a sua última viagem.
Na verdade, a última viagem foi comigo, de ambulância, numa mudança de hospital. Essa, sim, foi bem triste. Eu tinha 23 anos.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 10 de dezembro de 2016

  • Escrevam, por favor, por favor, por favor, por favor. E leiam-na

    Há cinco anos que Clarice Lispector tem um dia só para si — o do seu aniversário. E este 10 de dezembro não é diferente. O evento chama-se A Hora de Clarice e decorre em simultâneo em três cidades do Brasil, em Nova Iorque e em Paris. O Expresso falou com o filho ainda vivo da escritora, do qual publica uma foto que tirou à mãe, e mostra a colagem que a neta Mariana fez para a comemoração em Nova Iorque