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A cartola de Bernardino Machado

MUSEU Faz hoje 15 anos o Museu dedicado a Bernardino Machado, instalado em Famalicão no palacete Barão de Trovisqueira

SÉRGIO GRANADEIRO

No Museu Bernardino Machado, que esta quinta-feira celebrou 15 anos, por entre uma panóplia de documentos, quadros, fotografias, adereços, vestuário, dois elementos fulcrais definem a figura em que tornou. Para lá do bigode, impunha-se a bengala e a cartola

Esta podia ser apenas uma história de brasileiros torna-viagem e do modo como, pela riqueza real e pelas aparências de riqueza, com reflexos em comportamentos sociais, moldaram as sociedades em que se integraram. Podia ser apenas uma viagem nostálgica por um passado não muito distante, carregado de memórias e de sensações por um tempo vivido e carregado de singularidades.

Famalicão recebeu alguns desses homens e mulheres que, tendo demandado terras do Brasil, regressaram a abarrotar de ideais e com as posses necessárias à concretização das vontades que neles germinavam. Um deles foi José Francisco da Cruz Trovisqueira, regressado à terra na segunda metade do século XIX. Ali manda construir o agora conhecido como palacete Barão de Trovisqueira. Aquele homem, que emigrara aos 10 anos para o Brasil, fez do regresso um constante desafio contra o marasmo. Edificou uma fábrica de fiação em Riba de Ave, equipada com tecnologia inovadora para a época. Exerceu cargos políticos, foi chefe local do Partido Progressista, deputado em duas legislaturas e presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão.

sérgio granadeiro

Com ele estava António Luís Machado Guimarães, pai de Bernardino Machado, futuro presidente da República. Com outros brasileiros de torna-viagem foram fundamentais para o desenvolvimento do concelho, através da criação da Misericórdia e, muito em particular, de escolas primárias essenciais para a alfabetização de um povo no essencial analfabeto.

O palacete Barão de Trovisqueira é agora o Museu Bernardino Machado, que hoje comemora 15 anos de existência com duas homenagens. Uma, a Elzira Dantas Machado, casada com Bernardino, com quem teve 19 filhos. A outra, a Júlio Machado Vaz, médico e professor, neto do ex-presidente da República, que doou ao Museu o seu rico espólio documental, correspondência, fotografias e postais ilustrados legados pelo seu avô.

Elzira Dantas, que terá a partir de hoje o seu nome atribuído à praceta contígua ao Museu, distinguiu-se ao longo da vida pelo seu papel na defesa dos direitos das mulheres. Foi uma das fundadoras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1909. Em 1916 preside à Associação de Propaganda Feminista. Com o deflagrar da I Grande Guerra e a participação de Portugal no conflito, ajuda a criar a Cruzada das Mulheres Portuguesas, centrada no apoio aos soldados e às suas famílias.

Uma visita ao Museu proporciona uma suculenta viagem informativa à volta dos grandes momentos da vida de Bernardino Machado. Não é apenas o seu percurso pessoal. É também o modo como se estabelecem as relações com os factos, os acontecimentos, as situações que marcaram o tempo da sua longa vida. Morreu em 1944 com 93 anos de idade. Para trás ficava uma intensa participação nos grandes eventos políticos nacionais.

sérgio granadeiro

O catedrático coimbrão – foi, com 27 anos, o mais jovem catedrático de sempre na academia de Coimbra - iniciou a sua atividade política como monárquico. Em 1882 foi eleito deputado pelo Partido Regenerador e, em 1890, o corpo catedrático da Universidade elegeu-o Par do Reino. Em 1893 assumiu a pasta das Obras Públicas.

Aderiu à Maçonaria e chegou a grão-mestre. Depois de, em 1903, ter aderido ao Partido Republicano Português, passou pouco depois a dirigir o partido. Em 1910 foi Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório Republicano.

Eleito Presidente da República entre 1915 e 1919, cargo que voltou a desempenhar em 1925, Bernardino Machado foi deposto pelo golpe de 28 de maio de 1926 e por um seu ex-discípulo: Sidónio Pais. Obrigado a renunciar ao cargo, partiu para um longo exílio entre 1927 e 1940.

A figura de Bernardino Machado ocupa um natural lugar de destaque no Museu. Entre uma panóplia de documentos, quadros, fotografias, adereços, vestuário, lá estão dois elementos fulcrais para definir a figura em que tornou.

sérgio granadeiro

Para lá do bigode, havia a bengala e a cartola. Nos corredores da Assembleia da República, Bernardino era muitas vezes alvo de comentários por sistematicamente chegar atrasado aos debates. Desarmados pela extrema delicadeza e urbanidade de Machado, amigos e adversários necessitados de encontrar uma culpa ou uma desculpa, inventaram uma possibilidade: Bernardino Machado não era indelicado ao ponto de não cumprir horários. Mas era muito cioso do respeito pela sua cartola, que o fazia perder muito tempo. Então, se Bernardino chegava atrasado, a culpa era da cartola. Se non è vero, è ben trovato.