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Será que ainda há esperança para a Cornucópia?

MÁRIO CRUZ/LUSA

A companhia de teatro anunciou que ia fechar e este sábado deu o seu último espectáculo. Mas depois de uma vista inesperada do Presidente da República e do Ministro da Cultura, abriu-se a possibilidade de reabrir. Mas apenas moderamente

Este sábado à tarde foi o último espectáculo no Teatro da Cornucópia. O fundador e diretor, Luís Miguel Cintra, anunciou esta semana que o apoio que recebia do Estado não era suficiente e, por isso, não tinha mais condições financeiras para suportar o espaço e a companhia e que iria encerrar de vez. E assim foi. Neste momento não há sessões marcadas e as portas estão fechadas. Mas será que é mesmo de vez?

Durante esta tarde, uma hora antes de começar o recital que marcava o adeus à Cornucópia, Luís Miguel Cintra a co-diretora Cristina Reis, receberam uma visita inesperada: o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que mais uma vez alterou a sua agenda para ir até ao teatro, situado no Bairro Alto, em Lisboa. A presença dele foi o suficiente para o ministro da Cultura, Luís Castro Mendes, alterar também a sua agenda e, em vez de ir a Castelo Branco, como previsto, foi também até à Cornucópia onde os quatro falaram sobre o encerramento.

Marcelo serviu, assim, de mediador entre o ministro e os responsáveis da companhia, dando sugestões e incentivando que mantivessem as conversações para impedir o fim deste teatro. A conversa não foi conclusiva, pelo menos para já, mas pode ter trazido uma esperança moderada.

"A companhia anunciou que queria encerrar. A partir do momento em que decide sobreviver, vamos conversar", declarou Luís Filipe Castro Mendes aos jornalistas, com o Presidente da República ao seu lado, lembrando que as conversações "estão a decorrer há bastante tempo, e continuam a decorrer e nunca foram interrompidas".

Aliás, até referiu que "há uma dotação para 2017 que é igual à dotação que tiveram em 2016", e que a renda do teatro "também está garantida até ao fim de 2017”.

Mas Luís Miguel Cintra mantém-se cauteloso.

"Oxalá desta vez queira dizer alguma coisa de diferente, porque há sempre, nas conversas que temos com as autoridades há muito tempo, sejam de que partido for, no fundo, um 'Big Brother', uma pessoa que não tem nome e que manda em tudo, uma pessoa ou uma entidade, e que é o dinheiro. E a resposta é sempre: eu queria fazer, mas não há dinheiro. Ninguém disse assim: não, não quero fazer porque vocês não prestam para nada. Vamos lá ver se não existe essa entidade que é esse 'Big Brother’”, disse aos jornalistas após a conversa com o Presidente e com o Ministro.

E ressalvou: ”Não estamos a fazer pressão nem estamos a fazer uma jogada para conseguir aumento de subsídio. Não tem nada a ver com isso. Tem a ver com uma situação concreta e real: com o dinheiro que a gente recebe, de há três anos para cá, não é possível esta casa funcionar”. E daí ter mantido a decisão de fechar este sábado.

Ou seja, para o fundador e diretor do teatro, a decisão de reabrir não depende dele, mas do Estado. "Não sei, são eles que decidem. Eu não posso saber o que é que vai mudar. Não sou eu que tenho de voltar atrás. Quem tem de voltar atrás ou não são as decisões de apoio do Estado”, comentou.

Estatuto de excepção?

Uma das sugestões de Marcelo para salvar a companhia de teatro foi a de criar um estatuto de excepção, o que permitiria que a companhia continuasse a sua atividade sem concorrer aos apoios financeiros da Direção-Geral das Artes.

Mas o ministro da Cultura não quis falar de "excepcionalidade em termos jurídicos", argumentando que isso "pode prestar-se a interpretações quanto à constitucionalidade", mas disse que se tem "estado sempre a falar na base da situação especial, que é uma situação, de facto, da Cornucópia”.

E acrescentou ainda: ”Não há excepcionalidade. Há decisões que se tomam, face ao quadro orçamental que se tem, e face às necessidades. Evidentemente que a Cornucópia tem um peso institucional, um peso cultural, uma história, uma memória extraordinários, excepcionais", declarou.