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Back in URSS

1984 “The Tale of the Tsar Saltan”, magnífica adaptação ao desenho animado do poema de Alexander Pushkin, inspirado num conto tradicional russo

Num tempo em que a DC Comics e a Marvel, entre outros, dominam o mercado mundial de banda desenhada, cinema e desenho animado, vale definitivamente a pena conhecer produções alternativas, mesmo que para tal tenhamos de recuar algumas décadas e revisitar, sem Tintin, o país dos sovietes

Reinaldo Serrano

Perdoe-se-me o facto de, sem pudor mas após reflexão, ter titulado em inglês as lusitanas palavras que aqui escrevo. Mais ainda quando o título remete para os idos de 68, quando os Beatles lançaram este tema no álbum homónimo. Sucede que a frase se aplica literalmente ao que esta semana me proponho sugerir, pensando até na possibilidade acrescida de, em época natalícia, as crianças terem mais espaço no espaço familiar.

Por entre as perversões que a internet permite e, quando não, fomenta, há sem margem para dúvida incomensuráveis qualidades que o seu universo disponibiliza. Uma delas é a possibilidade de vasculhar com algum cuidado o imenso acervo que nela habita, muitas vezes adormecido até que o acaso ou a procura adequada faça despertar os sonhos que se tornarão nossos. É o caso da cinematografia de animação produzida na era soviética.

Sob pena de despertar a ironia de um sorriso entre os leitores que têm ainda reminiscências das tardes de animação apresentadas pelo saudoso Vasco Granja (em que “O Lápis Mágico” e “A Pantera Cor de Rosa” primavam pela assiduidade), a verdade é que não é preciso ser particularmente crítico ou saudosista (e muito menos, caprichoso) para perceber que a evolução dos tempos no que ao cinema de animação diz respeito primou muito mais pelos tempos que pela evolução. Dominados pela reconvertida Disney, pela omnipresente Pixar, pela propagada anime japonesa e por demais estúdios de grande fôlego (que acabam por formatar em excesso os produtos que apresentam), tendemos a esquecer cinematografias alternativas que carecem de urgente visionamento.

Desde logo me permito recomendar “The Snow Queen”, produção de 1957 que, sob a mestria do realizador Lev Atamanov, recria o fascinante universo de Hans Christian Andersen num registo que tem tanto de nostálgico quanto de onírico, bem distante da violência emanada pelas produções em massa oriundas dos Estados Unidos e do Japão (com as devidas exceções, naturalmente).

O mesmo pode dizer-se de “The Tale of the Tsar Saltan”, magnífica adaptação ao desenho animado do poema de Alexander Pushkin, inspirado num conto tradicional russo. A obra, datada de 1984, foi realizada por Ivan Ivano-Vano e é uma delícia para crianças e adultos. Para estes, em particular, recomendo mais uma adaptação de um nome maior das letras universais: estreado em 1992, “The Dream of a Ridiculous Man” transpõe para o cinema de animação uma obra notável de Dostoievsky, onde a animação se assemelha a telas pintadas a óleo, vivamente impressivas, e que constituem o suporte perfeito a uma narrativa cuidada, contida, desta história de um homem que não encontra razões para viver ao mesmo tempo que parece não encontrar razões... para morrer. A curta, de 20 minutos, foi nomeada para o Prémio Nika de Melhor Filme de Animação.

E o que dizer dos 10 preciosos minutos de “New Year´s Eve”, de 1948? Apetece ter lareira e olhar para trás no tempo, neste aconchego de alma que, com quase 70 anos, ainda é capaz de derreter os corações mais graníticos. E, já agora, porque não terminar com “Once Upon a Dog”? Mais uma dezena de minutos que, na história de um cão e do seu inimigo, são uma lúcida reflexão sobre a inexorável passagem do tempo, o modo como lidamos com ela e, sobretudo, o modo como os outros olham para ela. Deliciosa, divertida e pura, esta curta-metragem de 1982 conquistou o primeiro lugar no Festival Internacional de Odense e o Prémio Especial do Júri no festival de Cinema de Animação de Annecy, ambos em 1983.
Numa altura em que o consumo obriga à aquisição e posterior troca de produtos e bens, não haverá bem maior que proporcionar a nós próprios ou a outrem uma agradável passagem do tempo. Sobretudo, sem custos adjacentes que não sejam voltar ao passado para nele colher o melhor... presente.