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Chá frio no Rivoli ou a espera acalorada de uma mulher judia por um nazi

D.R.

“Und” é a mais recente criação da companhia “As Boas Raparigas” e apresenta, em estreia, no Rivoli, o drama de uma mulher judia, de sangue quente e pensamentos difusos, que aguarda pela chegada de um oficial nazi para tomar um chá

André Manuel Correia

A mesa está servida no palco do Teatro Municipal Rivoli, no Porto. Duas chávenas. Um bule com chá a esfriar. Sozinha em cena, uma mulher de sangue quente, que o elegante vestido vermelho enaltece, está de costas voltadas para a plateia. Aguarda impacientemente por alguém que está atrasado. No discurso revela pertencer a uma classe social elevada, mas logo clarifica: “não sou aristocrata. Sou judia”. “Und”, nome desta mulher e do espetáculo encenado por Rogério de Carvalho, a partir do texto do Howard Barker, leva o público até a um universo interior, cercado pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, onde o real e a fantasia se confundem e entrecruzam. A peça estreia esta quinta-feira e fica em cena até sábado.

Mas por quem aguarda, afinal, Und? Não espera por Godot, mas por um oficial nazi, por quem mantém uma relação de amor-ódio. “Ele reúne judeus”, bem sabe, “mas provavelmente os judeus esgotam-no”. Descreve-o de forma magnânima, mas também com desdém. “Ele está atrasado. Quase nada, mas atrasado”, diz a personagem logo no início do monólogo e, isso, brinca-lhe com os nervos.

É uma espera angustiante de alguém que se perde em pensamentos, memórias, descobertas e ficções difusas. “O mundo é um espetáculo degradante”, atira e exaspera. “Levem daqui esta bandeja”, pede às criadas, reais ou imaginadas, enquanto recorda tempos “menos infelizes” e em que “não costumava precisar de companhia”.

Ali, solitária no centro da sala, confessa-se cansada e tem a sensação de estar cercada. “O cerco é desejo. Desejo expresso como raiva”, conclui. Aborrece-a “a sabedoria oceânica dos homens”, explica no exato momento em que alguém começa a tocar a campainha insistentemente. “Não é ele, é um vadio”, convence-se. Ordena que não abram a porta, pois aquilo não é “forma de tratar uma campainha”.

O emaranhado de sentimentos contraditórios toma conta daquela mulher, interpretada pela atriz Maria do Céu Ribeiro, que decide servir-se do chá que já está frio, tal como o mármore em que deambula entregue às convulsões de um discurso assertivo mas fragmentado. Em estilhaços. Tal como os vidros das janelas que se partem, quando alguém, do lado de fora, deixa de fazer retinir a campainha. A chávena de chá cai-lhe das mãos. Tem os joelhos ensopados, os olhos marejados e transpira – “o calor sou eu”, diz.

Recorda tempos passados e dos judeus que outrora ali viviam. “As últimas crianças que se lembravam que aqui existia uma casa, algumas morreram” e “as raparigas foram enviadas para fábricas”, narra num tom cada vez mais perdido. Tudo se mistura. Tudo é um jogo de sentidos e de palavras. “Perseguidos e perseguidores, a mesma campa molhada”, conclui Und.

Alguns momentos após mais um dos ensaios, Maria do Céu Ribeiro, ainda visivelmente extenuada de toda a violência da peça, reconhece que “o texto é um pouco complexo porque não tem uma narrativa linear”, o que obrigou a “fazer um levantamento daquilo que está por trás do que é dito”. A atriz frisa ter sido “um processo longo e exigente”, uma vez que a personagem tem “contradições muito presentes”.

O processo criativo passou então por, juntamente com o encenador Rogério de Carvalho, “tatear e chegar a algumas conclusões possíveis”, dado que as obras de Barker se inserem no estilo de escritas contemporâneas e pós-dramáticas. “Serve-se de opções artísticas e políticas, com um leque de recorrências e sinais do universo dele e que aparecem aqui. A fragmentação, o espelho e o outro lado do espelho, o real e o nem por isso”, explica a atriz.

Este espetáculo, produzido pela companhia “As Boas Raparigas”, é uma estreia absoluta e fica no Auditório Isabel Alves Costa do Teatro Rivoli durante três noites. Esta quinta e sexta-feira as récitas têm lugar pelas 21h30 e a última apresentação acontece no sábado, às 19h.