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Musical dos Clã, dançar em Alepo e “Os Veraneantes” de Gorki no inverno do TNSJ

Lucília Monteiro

Pontes entre a dramaturgia russa e americana, dançar sobre a destruição da cidade de Alepo, “Confissões” de Santo Agostinho”, “Os Veraneantes” de inverno e muito mais para ver na próxima temporada do Teatro Nacional São João

André Manuel Correia

O Teatro Nacional São João (TNSJ), no Porto, apresentou esta quarta-feira a programação para a próxima temporada, entre janeiro e o final de março. Destaque para as três estreias – produções e coproduções da casa – com o musical dos Clã (5 a 29 janeiro), encenado por Nuno Carinhas e intitulado “Fã”, “Os Veraneantes” (9 a 18 de março) de Gorki, pela mão de Nuno Cardoso e um elenco de luxo, e ainda “Confissões” de Santo Agostinho, com direção de Rogério de Carvalho, entre 17 e 26 de março.

O próximo trimestre traz igualmente encontros improváveis entre a dramaturgia americana e russa, como “A Noite da Iguana”, obra de Tennessee Williams e encenada por Jorge Silva Melo, e “Como Ela Morre”, uma criação de Tiago Rodrigues a partir da obra “Anna Karénina”, de Tolstói.

Em entrevista ao Expresso, o diretor artístico do TNSJ, Nuno Carinhas, fala numa programação que “insiste nas coproduções e no acolhimento” de espetáculos de “alguma dureza” e de “alguma desesperança em relação à sociedade e às classes dominantes”, como os de Gorki e Tennessee Williams, “entremeados com alguma alegria”, conferida, por exemplo, pelo musical dos Clã. O responsável garante que “Confissões”, outra das estreias, “vai ser um momento de grande reflexão filosófica, até pela ligação que faz com Platão”.

A temporada abre logo com “Fã”, um musical concebido pela banda liderada por Manuela Azevedo e dirigido por Nuno Carinhas. “E se um fantasminha, um ‘fantasputo’, se apaixonasse por uma cantora em pânico que vai estrear-se no palco onde está a ensaiar?”, é esta a pergunta que serve de mote para o espetáculo com canções dos Clã, dedicado aos “supernovos”, mas também para os mais graúdos.

Dançar em Alepo “Antes que Matem os Elefantes”

Destaque também para “Antes que Matem os Elefantes”, da companhia de dança Olga Roriz, apresentado no TNSJ, entre 26 e 28 de janeiro. Esta coprodução entre a companhia e o Centro Cultural de Ílhavo coloca em cena uma tragédia contemporânea e leva o público até aos horrores da cidade síria da Alepo, palco de uma das batalhas mais sangrentas da atualidade. Coloca-nos perante a iminência de uma catástrofe, mas também a possibilidade de resistência.

O Teatro Carlos Alberto (TeCA), um dos espaços geridos pelo TNSJ, prepara o palco, entre 23 e 26 de fevereiro, para que ali se monte “A Máquina de Emaranhar Paisagens”, um espetáculo dirigido e interpretado a solo por Dinarte Branco, a partir dos textos e poemas herméticos de Herberto Hélder. Depois de ter sido estreado no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, a 25 de outubro, a peça desloca-se agora até ao Porto e espelha a imagética, a musicalidade e o ritmo de um dos maiores e mais desconcertantes poetas da lusofonia. “É um espetáculo muito intimista, reflexivo e com uma dramaturgia muito delicada”, frisa Nuno Carinhas.

A encenação de Jorge Silva Melo d“A Noite da Iguana”, de Tennessee Williams, conta com um elenco de peso, no qual figuram nomes como Nuno Lopes, Maria João Luís, João Meireles, Isabel Muñoz Cardoso, Joana Bárcia, Catarina Wallenstein, entre muitos outros. O enredo desenrola-se num hotel rústico do México, numa noite difícil de passar para personagens que carregam “paraísos perdidos e infernos construídos”, com se lê no texto de apresentação do espetáculo que estreia a 19 de janeiro no Teatro São Luiz, em Lisboa, e depois chega ao TNSJ a 9 de fevereiro.

Do deserto mexicano passamos para as estepes russas, mas sem mudar de palco. “Os Veraneantes” de Máximo Gorki chegam mais cedo ao TNSJ, a 9 de março, com a companhia “Ao Cabo Teatro” liderada por Nuno Cardoso. Atores como Álbano Jerónimo, Joana Carvalho, Luís Araújo ou Cristina Carvalhal criam em palco uma “imensa tapeçaria de desejo e frustração que autopsia, então e agora, a nossa impotência perante o desenrolar da vida, a caminho de um futuro assustador e frio para lá do presente estival”, pode ler-se na sinopse.

Ainda dentro da dramaturgia russa, entre 22 e 25 de março assiste-se no TNSJ a “Como Ela Morre”, com encenação de Tiago Rodrigues, a partir do clássico “Anna Karénina”, de Leon Tolstói, nesta que é uma coprodução entre o Teatro Nacional D. Maria II e a companhia belga “tg STAN”.

“Neva”, de João Reis, concorre a prémio internacional em Milão

Além dos espetáculos que o Teatro Nacional São João irá receber, muitas das produções e coproduções estão de malas feitas para partirem digressão pelo país até outros palcos. Disso são exemplo “Os Últimos Dias da Humanidade”, “Climas”, bem como os mais recentes “Fã” e “A Noite da Iguana”.

“Neva”, de João Reis, foi recentemente apresentado no Luxemburgo e estará agora a concorrer, em Milão, pelo prémio internacional “Il Teatro Nudo di Teresa Pomodoro”, atribuído pelo Spazio Teatro NO’HMA.

O TNSJ prossegue ao longo do próximo trimestre com a aposta nos espetáculos com tradução em Língua Gestual Portugal, assim como com o serviço de audiodescrição, que para Francisca Carneiro Fernandes, presidente do conselho de administração, “mais do que uma aposta ganha em números, é uma obrigação, uma necessidade e um compromisso social”.

A dirigente adiantou ao Expresso que o TNSJ espera encerrar o ano com um número a rondar os 60 mil espectadores, com uma taxa de ocupação de sala de 78%, com um crescimento de 1% relativamente a 2015.