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Português de 22 anos conquistou o mundo do metal com os seus videoclipes 

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Guilherme Henriques concebe videoclipes para bandas de metal de todo o mundo e tudo começou com um e-mail. O Expresso foi conhecer o trabalho deste jovem realizador, espalhado pelos países mais improváveis, como Taiwan, Índia ou Argélia

Estamos no terceiro piso de centro comercial Stop, no Porto, e o tempo parece parado.Já ninguém faz compras há vários anos neste edifício com um aspeto abandonado, mas autêntico viveiro para artistas e bandas da cidade que transformaram pequenas lojas em salas de ensaios. Encontramo-nos numa dessas salas à conversa com Guilherme Henriques, guitarrista nos tempos livres, para falar de música, mas noutra perspetiva. Guilherme é realizador e aos 22 anos concebe videoclipes para bandas de metal de todo o mundo. Em pouco mais de um ano, tudo aconteceu de forma meteórica e o portefólio já conta com mais de duas dezenas de trabalhos, espalhados por 11 países.

Quem diria que um simples e-mail pode mudar a vida de alguém? Para Guilherme Henriques isso fez toda a diferença. Recuamos até agosto de 2014, altura que a banda austríaca de ‘death metal’ “Belphegor” edita o álbum “Conjuring the Dead”.

Guilherme, grande admirador da banda e nessa altura a concluir a licenciatura em Comunicação Audiovisual na Universidade Lusófona do Porto, ouviu o trabalho discográfico e arriscou. “Decidi, a título de experiência ou exercício, elaborar uma proposta [para conceber o vídeo para uma das músicas]. E enviei um e-mail, assim do nada, como se alguém me tivesse contratado”, recorda entre risos.

“Aquilo caiu no esquecimento. Passado quase um ano desde a proposta, já nem me lembrava daquilo e recebi a resposta do vocalista a dizer que estavam muito interessados e que tinham verba para fazer o vídeo”, acrescenta o jovem natural de Santa Maria da Feira. Guilherme não conseguia acreditar. Hesitou. Tomou três cafés e respondeu.

Foi então hora de pôr mãos à obra. Reuniu uma equipa de amigos para concretizar o projeto, filmado e editado inteiramente em Portugal. Em outubro de 2015, saiu finalmente o videoclipe de “Black Winged Torment”, que ainda hoje é “cartão de visita” para o trabalho deste realizador português.

E quando as bandas não vêm até ele, ele vai à procura delas, sempre numa lógica de trabalhar como “freelancer”, explica, pois ainda não lhe passa pela cabeça montar uma produtora.

A partir daí o trabalho não tem parado de chegar e já levou Guilherme Henriques num périplo internacional e a trabalhar com diversos grupos dos mais variados países. Onze, para sermos mais específicos: Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, Eslovénia, Dinamarca, Suécia, Noruega, Austrália, Argélia e até… Taiwan, com a banda de ‘black metal’ “Armed Judas”, que nem sabiam onde ficava Portugal.

Em fevereiro do próximo ano vai trabalhar pela segunda vez com uma banda indiana. “É fixe perceber como atuam as bandas de ‘metal’ nesses países. Normalmente pensamos que nem existem, porque achamos que são culturas muito religiosas e que cortam a cabeça a quem têm visões diferentes, mas não é bem assim. É importante perceber como funciona o ‘underground’ da arte dentro desses países”, frisa o realizador, que todos os dias tenta aprender um pouco sobre como funciona a indústria.

“Basta perder um bom tempo de estudo e não partir logo para a ação. Acho que nós, os latinos, somos muito intuitivos”, considera o jovem de 22 anos, acompanhado durante a entrevista pela namorada Catarina, que também o ajuda nestes projetos.

Trabalhar em lugares inóspitos e conhecer ídolos bem gélidos

E se há exemplo que exigiu de Guilherme uma enorme preparação, esse é o videoclipe que realizou na Dinamarca, com a banda de folk metal “Heidra”, em fevereiro deste ano, para a música “The Eyes of Giants”.

“Encontrámos locais lindíssimos, paisagens de filmes e de postais, mas o sítio onde gravámos a banda a tocar foi em Mons Klint, uma montanha branca e com um enorme penhasco”, começa por explicar Guilherme. “No fundo do monte, semelhante a uma parede gigante com mais ou menos 100 metros, tinha uma pequena praia, em que, se viesse uma onda mais forte, acabava-se ali a vida. Tivemos de carregar todo o material lá para baixo. Demorámos três horas a montar tudo e foi quase o dia inteiro a filmar aquilo”, garante.

O trabalho também já levou Guilherme a conhecer alguns ídolos que segue desde “puto”, como é o caso do baterista Frederik Andersson, antigo membro dos “Amon Amarth” e que o português foi encontrar inesperadamente na Suécia, quando filmou para a banda “Netherbirds”. “No último dia, a restante banda estava toda melosa na hora da despedida e eu fui ter com ele, abracei-o, disse-lhe que foi um prazer conhecê-lo e ele responde-me qualquer coisa como: ‘pá, caga nisso’”, recorda o realizador, de forma bem-humorada.

Diálogo criativo

Nunca recusou qualquer proposta e isso nem lhe passa pela cabeça. Mesmo quando os artistas já trazem ideias pré-concebidas que querem ver retratadas nos vídeos e que podem não resultar tão bem. Guilherme acredita que é sempre possível dar a volta à situação, através de um “diálogo criativo” e de um “trabalho conjunto” que faz com que no final todos os vídeos tenham a estética que o caracteriza, o seu “embrulho”, como diz.

“Já fiz coisas um bocado ‘fora’”, admite, como o vídeo da música “Vassalage Grotesque”, que concebeu para a banda portuguesa “Grunt”. “O estilo da banda tem um cariz sexual muito forte. É aquela onda do latex, de ‘dominatrix’ e coisas assim. Tinha elementos um bocado fortes, mas faço sem problema. Não se deve recusar só porque não gostas de ver sangue ou um órgão sexual”, afirma Guilherme, que nunca imaginou ter feito tantas coisas em apenas um ano.

“Estou tão preso ao trabalho que nem paro muito para pensar nisso. É muito gratificante fazer aquilo que gosto. Não faço por frete e isso é o mais importante”, assevera o jovem, que destaca o apoio familiar que sempre teve.

“Os meus pais e a minha avó são sempre os primeiros a ver os vídeos, a comentar, partilham todos os meus ‘posts’. Tenho bastante suporte da parte deles, não me falta nada”, reconhece Guilherme Henriques, que só pensa em continuar a fazer disto a sua vida e não exclui a possibilidade de trabalhar com artistas de diferentes géneros musicais.