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Rui Reininho: “Gostava muito de ver o mundo 
de pernas para o ar”

josé carlos carvalho

A prosa onírica de “Alice no País das Maravilhas” sempre encantou o letrista dos GNR, que agora foi convocado para anotar um livro que o Expresso acaba de publicar. Viagem com Reininho ao universo das letras

Ana Soromenho

Ana Soromenho

texto

Jornalista

José Carlos Carvalho

José Carlos Carvalho

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Fotojornalista

Existem os leitores que rasuram e anotam e os que deixam os livros limpos. Que tipo de leitor é?
Leio e releio, volto sempre aos livros. Uso-os muito. Anoto, dobro os cantos, marco certas páginas com uns ‘santinhos’ — como lhes chamo, como aqueles que existem nos missais — e ando com um lápis no bolso para fazer anotações. Nunca uso esferográfica, porque tenho um problema de caligrafia e com o lápis posso apagar. Nesta edição que fui convidado a anotar, julgo que as minhas notas foram passadas por cima a esferográfica. As letras estão redondinhas.

Neste trabalho, recorreu mais à memória e ao jogo de palavras do que à pesquisa. Por vezes, parece quase escrita automática.
Dont google, ask me... Tudo feito à la main nas mesas dos cafés. Reli três ou quatro versões diferentes da história, fui buscar um livro antigo, vi alguns filmes e depois comecei a anotar por associação livre. Tive o cuidado de deixar bastante espaço por preencher, não quis impor-me demasiado. Nestas coisas, gosto imenso da poesia haiku. Dizer pouco, editar pouco. Respeito muito o papel e a arte impressa, deve-se dar tempo para respirar.

É diferente fazer anotações para ser lido por outros? Pensou nos leitores?
Linguisticamente, anotei para mim, como se fosse um livro que poderia guardar. Ando sempre com bloquinhos e escrevinho praticamente todos os dias. Por exemplo, sou disléxico, e esse jogo de troca de letras e de palavras é muito inspirador.

Essa é a sua escola. De onde lhe vieram as primeiras referências?
Lembrei-me de mim, sem grande pretensão, quando li “Uma Cerveja no Inferno”, do Rimbaud, traduzido pelo Mário Cesariny. Senti uma identificação que não sabia de onde era e imediatamente pensei: “Uma cerveja no inferno, que coisa tão esquisita!” Agradou-me imenso. Aquele livro levou-me a entrar num universo que eu pensava que não existia. Houve alturas em que tinha coisas patetas na cabeça mas que faziam sentido... Estou a lembrar-me, por exemplo, de ‘caixa negra’. Depois tenho a sorte de poder recriar, de ir para o palco e pegar naquilo da maneira que mais me apetece no momento sem ter de respeitar a letra. Só preciso de respeitar a métrica, as entradas e saídas. Mas agora estou muito simplificado, já não escrevo assim.

Este ano, um escritor de canções mereceu o estatuto de poeta da Academia. O que sentiu quando atribuíram o Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan?
Senti-me honrado, somos pares. É a nossa academiazinha. A arte de escrever canções é uma arte superior. A seguir ao flautista de Hamelin, a figura do trovador é das mais antigas. As canções são da mais pura poesia que há, porque vêm da tradição oral. É a arte da comunicação.

Vamos falar de Alice. Que importância teve esta história na sua infância?
Continua a ser um livro curioso. Nunca distingui os livros infantis dos livros ditos para adultos. São sempre livros para as crianças estranhas que existem dentro de nós. No meu universo havia meia dúzia — o capitão Nemo, o barão de Münchhausen, “A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia” — que eram muito atraentes e que de alguma maneira me afastaram completamente das escritas mais neorrealistas. Quando eu era pequenito, comecei por ver a Alice numa banda desenhada brasileira adaptada ao original. Cada episódio tinha sempre a mesma ladainha: “Areia grossa, areia fina, areia me faz ficar pequenina...” Usei essa frase nas minhas anotações.

Em criança sentia medo desse livro?
Sentia estranheza, como uma febre, ou um estado febril, mas gostava. Vivíamos naquelas casas art déco do Porto, com um corredor comprido, portas de um lado, portas do outro... Uma das coisas mais agradáveis que a minha mãe me fazia era levar-me de um sítio para outro de pernas para o ar. Gostava bastante dessa sensação de ver o mundo de pernas para o ar. Claro que a minha mãe não fazia isso muitas vezes, devia pensar: “O rapaz já deve estar meio enlouquecido.”

Ainda gosta de ver o mundo de pernas para o ar?
Ainda gosto, sim. Nunca dou nada por adquirido nem julgo que haja uma ordem nas coisas. Gosto de mergulhar e de sonhar. Este livro é bom para sonhar.

“Tequila e água benta”, “O efeito do bolo é mais lento do que o do cachimbo, meninas”... Escreveu anotações que são referências diretas ao mundo dos opiáceos.
Mas há ali análises que não são só lisérgicas, são puramente loucas. A Alice tem muitas pulsões extraordinárias, algumas quase políticas. Claro que depois há também toda essa leitura. Na minha adolescência, era o livro preferido dos psicadélicos, das pessoas que tomavam substâncias e se reviam na queda e no poço. Uma das coisas mais assustadoras que me aconteceram quando passei do chá, café e laranjada para outros produtos, até mesmo para os cigarros, que me davam tonturas, foi essa perceção de estar ‘do outro lado do espelho’, que é também uma constatação que as pessoas têm dos seus fantasmas. Olhar-se no espelho não é só uma reflexão narcísica.

Quando Alice bebe a poção e começa a diminuir, escreveu esta frase: “Nunca mais crescer, mais vale”...
É um verso de uma canção minha.

Que tem também a ver com aquela sua ideia de que, para o rock, quanto mais tardia for a adolescência melhor. Agora que os GNR fizeram 35 anos, ainda pensa assim?
Claro! Temos brincadeiras de adolescentes uns com os outros e continuamos a rirmo-nos de coisas absolutamente disparatadas. É um prazer imenso. Agora sou mais contido, porque não gosto de chamar a atenção fora do palco. Até porque há aquela coisa horrível de estarmos sempre a ser fotografados. A culpa é do professor Marcelo e do Ronaldo. Eles aceitam e nós também temos de aceitar. Gostava tanto de andar à vontade, mas não posso. Aquilo marca-nos a data, a hora, o local...

O calendário pesa?
A contagem não é feita por nós.

Não há idade para o rock?
A verdade é que os músicos de jazz também tentam tocar até cair. Além disso, quem é que quer aturar o Keith Richards em casa? Ele é uma simpatia, mas deve ser um chato. Os filhos e os netos devem dizer-lhe: “Ó homem, vai tocar! Vai para a tournée.” [gargalhada] E ele gosta. É melhor do que estar ali em casa a dizer mal dos outros e do Governo. Afinal, a coisa mais maravilhosa que a pessoa pode ter é o palco, não é? É difícil prescindir dele. Quando não se tem, inventa-se. Ainda agora podia estar sossegado, mas não estou. Lá vou eu para Macau cantar umas músicas com os Bala. São 35 degraus, mas espero chegar aos 39, como no filme do Hitchcock. E ainda é pouco. Faço muito pouco, sou preguiçoso. É preciso recriar.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de dezembro de 2016