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Heroico regresso a casa

Saroo Brierley em criança (Sunny Pawar)

DR

A história do menino indiano que se perdeu da família e encontrou a sua aldeia 25 anos depois no Google Earth já está nas salas e é candidato a Óscares — diz-se em Hollywood

Iain Canning, produtor responsável, entre outros, por “Shame” e “O Discurso do Rei”, estava no Festival de Sundance em 2013 quando soube da incrível história de Saroo Brierley. Contactou os irmãos Bob e Harvey Weinstein, também eles produtores que dispensam apresentações, e dali partiu para a Austrália, para adquirir os direitos de “A Long Day Home”, o livro em que o herói contou a sua aventura. E é, de facto, inacreditável o que documenta este filme assinado pelo australiano Garth Davis, estreante em longas-metragens.

Em 1986, Saroo (papel de Sunny Pawar em criança e de Dev Patel em adulto), filho mais novo de uma família muito humilde da remota aldeia de Kwanda, entra num comboio vazio para descansar (esperava o regresso do trabalho do seu irmão mais velho) sem saber que o mesmo vai viajar mais de 1000 quilómetros para leste, e sem paragens, até Calcutá. Saroo tem cinco anos. Fala hindi e, na gigantesca Calcutá, cidade de língua bengali, ninguém entende patavina do que ele diz. Perdido na estação, junta-se aos sem-abrigo. Ali passa três semanas — é a parte mais conseguida deste filme — até ser recolhido por um orfanato onde um casal de australianos de Hobart, na Tasmânia, o vai adotar. Todos os esforços para o identificarem tinham até então caído por terra. “Esta é infelizmente a realidade de milhares de crianças indianas”, acrescentou Davis, com quem conversámos na estreia europeia do filme, no Festival de Zurique, no fim de setembro (depois da obra ter feito a sua estreia mundial em Toronto).

É em Hobart, e em língua inglesa, que Saroo é depois educado por aquele casal sem filhos (papéis de David Wenham e de Nicole Kidman). Já adulto, Saroo continua sem saber a sua verdadeira identidade. Com a ajuda da namorada (Rooney Mara), desata então a traçar planos das labirínticas linhas férreas da Índia com a ajuda do Google Earth, tentando cruzar o que vê com as escassas memórias que lhe ficaram da sua aldeia. Vinte e cinco anos depois de se ter perdido, no princípio de 2012, consegue finalmente localizar a sua casa e reencontrar a mãe. O que está aqui em causa é uma sinfonia sobre o abandono infantil, desequilibrada na parte final (no momento em que Davis decide seguir o bê-á-bá do género biográfico), mas assaz interessante no seu início, com uma criança sozinha a ter de enfrentar o mundo.

Saroo Brierley em adulto (Dev Patel) em “Lion...”, de Garth Davis

Saroo Brierley em adulto (Dev Patel) em “Lion...”, de Garth Davis

DR

“Partimos para a Índia sem argumento: foi a comoção da história que nos levou”, afirmou Davis. “Começámos por investigar o terreno, calcorreámos as ruas de Calcutá, visitámos orfanatos... Tentámos mergulhar naquela realidade: queríamos encontrar crianças que ainda vivem nas mesmas condições de Saroo. Só depois fomos para Hobart para encontrarmos o yin e o yang desta história e, aí sim, esperámos pelo argumento de Luke Davies, que fez as mesmas viagens que nós.”

Nicole Kidman e Rooney Mara, habituadas a serem cabeças de cartaz, têm aqui papéis reduzidos se comparados com o de Dev Patel mas a estrela da companhia acaba por ser Sunny Pawar, que Davis encontrou após um longo casting: “Dirigir uma criança de cinco anos é sempre uma dificuldade para qualquer realizador e fazê-lo num país como a Índia torna-se um pesadelo. Fizemos audições a umas duzentas crianças, em três cidades indianas, ao longo de quatro meses duros, e depois apareceu-nos este miúdo, o Sunny, que tinha no rosto toda a expressão que queríamos. Era ele o nosso Saroo”. Por esta altura, Davis, que confessou ter sido influenciado pelo neorrealismo italiano, talvez não soubesse ainda que iria assinar um filme de fazer chorar as pedrinhas da calçada — e a um ponto tal que “Lion...” já foi apontado como um candidato à próxima edição dos Óscares.