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Escrevam, por favor, por favor, por favor, por favor. E leiam-na

Há cinco anos que Clarice Lispector tem um dia só para si — o do seu aniversário. E este 10 de dezembro não é diferente. O evento chama-se A Hora de Clarice e decorre em simultâneo em três cidades do Brasil, em Nova Iorque e em Paris. O Expresso falou com o filho ainda vivo da escritora, do qual publica uma foto que tirou à mãe, e mostra a colagem que a neta Mariana fez para a comemoração em Nova Iorque

RETRATO. Nesta foto, a escritora filtrada pela objetiva do filho, Paulo Gurgel Valente

RETRATO. Nesta foto, a escritora filtrada pela objetiva do filho, Paulo Gurgel Valente

FOTO PAULO G. VALENTE

O poeta Ferreira Gullar começou a ler Clarice Lispector aos 19 anos, quando se deparou com “O Lustre”, o segundo romance da escritora. “Fiquei surpreso e encantado com uma literatura que não se parecia com nenhuma outra”, disse-me em 2013, a propósito da exposição que a homenageava na Gulbenkian. Depois viria a conhecê-la pessoalmente e a apaixonar-se pela “mulher Clarice”, cuja simplicidade “não se parecia com a sua literatura”.

Para Ferreira Gullar, que morreu há dias, aos 86 anos, “Clarice é uma escritora reflexiva, que está sempre perplexa diante da vida e sempre indagando o seu sentido.” E a última Clarice, a que reencontrou em 1977 — logo no ano da famosa entrevista à TV Cultura que a escritora só autorizou que fosse para o ar após a sua morte —, estava “marcada pelo sofrimento”. Gullar chegou a combinar uma visita ao hospital quando ela foi internada, a qual não se concretizou. “Ela desmarcou à última hora. Durante anos me perguntei porquê.”

‘Porquê’ é uma pergunta que Clarice fazia muitas vezes. E é por isso que Benjamin Moser intitulou “Why This World” a sua biografia — em pequena, esta era a sua “pergunta muda e insistente”. É também aquilo que a pretexto de tudo e de nada ela formulava nos últimos tempos, impaciente, seguida do “e agora?”, dito a um amigo ao telefone às cinco, seis da madrugada. “Se me descuido, morro”, escreveu nessa época, num conto. É claro que, como acontece a todos, mesmo aos geniais como ela, descuidou-se. Morreu a um 9 de dezembro, a um dia de fazer 56 anos. Como não pensar em acontecimento cósmico quando alguém como Clarice nasce a 10 de dezembro e morre a 9 do mesmo mês? Como não suspeitar que há qualquer coisa de circular numa vida assim, destinada a dar uma volta completa sobre si mesma?

ARTE. Colagem da autoria de Mariana Valente, neta de Clarice Lispector, para o evento Hora de Clarice em Nova Iorque

ARTE. Colagem da autoria de Mariana Valente, neta de Clarice Lispector, para o evento Hora de Clarice em Nova Iorque

Celebrá-la no Brasil e fora dele

Talvez esta seja uma das razões porque, em 2011, o Instituto Moreira Salles (IMS) tenha instituído que todos os 10 de dezembro a partir de então fossem a Hora de Clarice. Um evento que decorre dentro e fora do Brasil, o país onde cresceu, se naturalizou e se tornou uma voz única — na sua qualidade “densa e inquiridora”, como diria Ferreira Gullar — da língua portuguesa. A programação deste ano — os 96 de Clarice — viaja do Rio de Janeiro para Minas Gerais e Brasília, e voa até Nova Iorque e Paris. Passa por conversas, dramatizações e leituras — cuja programação pode ver AQUI. E passa também por uma grande exposição sob o título Somos Todos Clarice, que até 10 de março de 2017 vai ocupar os espaços de arte contemporânea do Museu da República, no Rio de Janeiro, com obras de 20 artistas e curadoria de Isabel Sanson Portella. Em Paris também se fala dela — o programa de iniciativas porde ser visto AQUI.

É no IMS que o acervo da escritora se encontra depositado — é lá que desde 2004 estão 896 volumes da sua biblioteca pessoal, os únicos originais manuscritos de “A Hora da Estrela” e de “Um Sopro de Vida”, os seus últimos romances, o original datilografado do conto póstumo “A Bela e a Fera”, correspondência entre Clarice e Maury Gurgel Valente, o marido, diplomata, 124 fotografias, 18 documentos audiovisuais e um caderno de notas, além de dois quadros pintados por ela. Mais recentemente, o seu filho mais novo e o único vivo, Paulo Gurgel Valente, entregou ao cuidado do IMS as cartas que a mãe escrevera às irmãs Tânia e Elisa nos anos que passou fora do Brasil, a acompanhar a atividade diplomática do marido.

URGÊNCIA “Escrevam, por favor, por favor, por favor, por favor” — é o final manuscrito desta carta de Clarice às irmãs mais velhas, Tânia e Elisa. Esta correspondência está sob a guarda do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro.

URGÊNCIA “Escrevam, por favor, por favor, por favor, por favor” — é o final manuscrito desta carta de Clarice às irmãs mais velhas, Tânia e Elisa. Esta correspondência está sob a guarda do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro.

FOTO Cortesia de Paulo Gurgel Valente

Esses foram os anos de sedimentação de uma escrita que usa a realidade para a transcender, que tanto se foca no doméstico, no terreno, para daí descolar para um universo interior onde a linguagem é um abismo temido e desejado. É onde tudo se passa e o que a leva a afirmar — em “A Paixão segundo G.H.”, um dos seus livros capitais e o mais radical de todos, onde uma barata é Deus: “Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita.”

Apesar de todas as suas moradas, é na língua — na amada língua portuguesa — que Clarice reside, ela que nasceu longe, na Ucrânia dos pogroms e dos túneis debaixo das casas por onde a população judia desaparecia, se tal fosse possível. Tchetchetnik era o nome da terra de onde a família fugiu a meio de uma guerra civil, indo atravessar a Moldávia e embarcando na Roménia para o Recife, a cidade que os acolheria durante os primeiros 12 anos da vida de Clarice. E Chaya — Chaya Pinkhasovna Lispector —, que significa ‘vida’, o nome primeiro de Clarice, quando a mãe, doente de sífilis, ainda achava que a terceira gravidez poderia salvar-lhe a vida.

Imigrante e subversiva

“Só que não curei a minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei”, escreveu numa das escassas alusões ao assunto. Benjamin Moser, responsável este ano pela publicação integral dos seus contos, observou no prefácio até que ponto ela estava enganada, salientando esse lado estranho, singular, descompassado do resto do mundo, desprovido de uma tradição. E “imigrante” no duplo sentido de ter nascido noutro país que não o da língua que falava e escrevia e de ser suficientemente “subversiva” para ter o desplante de ingressar em Direito no Rio de Janeiro, onde só estudavam mais duas mulheres e nenhum outro judeu além dela. Ali conheceu o pai dos dois filhos, Pedro — já falecido, a quem foi diagnosticada esquizofrenia — e Paulo, a quem dedicou o conto “O Mistério do Coelho Pensante” e que a acompanhou até ao fim, na sua última viagem de ambulância entre hospitais, quando já se sabia doente de um cancro terminal nos ovários.

Viveu em Nápoles, Berna, Londres, Washington, Varsóvia — o mais próximo que esteve do local onde nasceu. Mas ela própria o afirmou: pertencia ao Brasil. Em 1942 escreveu uma carta ao presidente Getúlio Vargas a pedir-lhe que acelerasse o seu processo de naturalização. Descreveu-se como “uma russa de 21 anos de idade que está no Brasil há 21 anos menos alguns meses”, que não conhece uma palavra de russo mas que pensa, fala, escreve e age em português”. Disse-lhe também que obter a naturalização lhe permitiria fazer com a sua vida alguma coisa importante. Basta ler o que veio depois — “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” ou “A Maçã no Escuro”, só para citar dois exemplos — para constatarmos que, definitivamente, o conseguiu.