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Doação de espólio de Saramago é “homenagem à liberdade”

As palavras são do primeiro-ministro António Costa. Os textos de Saramago ficarão a partir de agora disponíveis ao público, sem necessidade de autorização prévia para a consulta

“Tornar público um espólio é um ato de grande coragem porque é a violação total da privacidade”, disse o primeiro-ministro no encerramento da cerimónia de doação do espólio de José Saramago à Biblioteca Nacional, que decorreu este sábado em Lisboa.

Lembrando que tudo fica visível, desde as hesitações e correções da escrita às notas das agendas, passando pela correspondência, António Costa considerou também que a doação do espólio do Prémio Nobel da Literatura, há exatamente 18 anos, tem dois significados.

“É uma homenagem à Biblioteca Nacional, e ao papel de todas as bibliotecas, mas tem também um segundo significado”, disse o primeiro-ministro, lembrando a época da censura prévia à publicação de livros e artigos de jornal.

“José Saramago pertenceu a uma geração a quem a escrita foi muitas vezes reprimida, a quem o Estado quis calar e censurar, libertar o espólio, doando-o à Biblioteca Nacional, é uma última homenagem à liberdade”, vincou António Costa.

A divulgação do espólio torna público “o que está hoje publicado, mas também o que até agora estava nas gavetas; é um bom ato de libertação e é um grito pela liberdade”, concluiu o chefe do Governo.

Antes, já as duas legatárias do espólio de Saramago, que inclui manuscritos e correspondência, para além de textos soltos, entre outros, tinham sublinhado a importância do momento.

“Esta casa [a Biblioteca Nacional] tem para mim um significado acrescido: é aqui que está o que de melhor meus pais produziram, a obra deles”, disse a filha de Saramago, Violante.

“Os escritores partilham, são generosos e convocam-nos como nos faz hoje Saramago nesta casa, que a partir de hoje vai habitar de outra maneira”, vincou Pilar del Rio, mulher de Saramago e presidente da Fundação com o mesmo nome.

Os textos de Saramago ficarão a partir de agora disponíveis ao público, sem necessidade de autorização prévia para a consulta: “Não teria qualquer sentido que a consulta destes e de outros documentos ficasse a depender de uma autorização minha; os documentos não são meus, estão à guarda da Biblioteca Nacional e pertencem a todos”, disse José Saramago numa troca de correspondência com a direção da biblioteca, citada pela atual diretora, Maria Inês Cordeiro.

José Saramago já tinha iniciado em 1994 um processo de doação de documentos à BNP, entre os quais se encontra o original do romance “O ano da morte de Ricardo Reis”, assim como o diploma do Nobel da Literatura, que lhe foi atribuído em 1998.

Sem contrapartidas financeiras, a doação inclui uma “cláusula de colaboração permanente” com a Fundação e, segundo disse à agência Lusa Sérgio Machado Letria, da direção do organismo, a transferência para a BNP dará um novo impulso à identificação e catalogação do espólio, que está ainda por concluir.

Com Lusa