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Alberto Seixas Santos (1936-2016)

Seixas Santos durante as filmagens de “Mal”, em 1999

Jorge Leitão Ramos escreve sobre Alberto Seixas Santos: “Ele era a consciência crítica de um certo cinema português”. “Com a sua morte, é toda uma época que finda.”

Morreu esta madrugada, na sua casa de Lisboa, o cineasta Alberto Seixas Santos. O seu último filme, “E o Tempo Passa”, de 2010, marcara a sua despedida de cena. Cineclubista nos anos 60, nessa década estudou cinema em Paris e Londres, fez crítica de cinema na imprensa diária, passou pelo documentarismo industrial patrocinado até se estrear na longa-metragem com “Brandos Costumes”, em 1974. A sua obra, ancorada nessa raiz primordial onde pontuava a morte do Pai (Salazar), a utopia da Revolução marxista e a firmeza de um cinema que recusava a transparência e os processos simples de identificação do espectador, não havia de ser prolífica.

Entre “Brandos Costumes” (1974) e “Mal” (1999) – os dois pilares sólidos em que o cinema de Seixas Santos assenta – não houve muitos filmes. Mas eu diria que esses dois teriam bastado para fazer dele um cineasta maior. Não se pode falar do fim do salazarismo sem o primeiro. Não se pode olhar no fundo a herança dos dez anos de governo cavaquista sem interrogar o segundo. Além de tudo, esses filmes evidenciam e balizam um diálogo permanente com a realidade portuguesa de que ele, como nenhum outro, deu fílmica conta ao longo dos anos.

Na geração do Cinema Novo foi Seixas Santos quem menos filmou. Mas não houve personagem mais influente nos destinos do cinema português dos últimos 50 anos. Lugares de poder, teve-os todos, do Centro Português de Cinema (a cooperativa, sob os auspícios da Gulbenkian, onde o cinema português renasceu no início da década de 70), à direcção da Escola de Cinema do Conservatório. Foi presidente do Instituto Português de Cinema e diretor de programas da RTP. E teve uma influência surda junto do poder político que permitiu que, anos a fio, afeiçoasse legislação e regulamentos e pessoas para os pôr em prática. Em todos os lugares que ocupou deixou marcas na defesa intransigente – férrea – de um cinema de autor, contra os ditames do mercado. Durante muito tempo dizia-se que, em Portugal, só filmava quem ele quisesse. Fama que excedia um poder real de segurar as rédeas de uma cinematografia, mas a afirmação não era destituída de sentido, sobretudo para quem chegava à profissão e precisava de algum amparo. De algum modo, pode dizer-se que foi – com João Bénard da Costa – a consciência crítica de um certo cinema português que, alvorecido no início dos anos 60 e no poder após 1974, se tem mantido na linha da frente, resistindo às vagas dos produtos de rápido e massivo consumo que, nos últimos anos, mudaram a face do nosso panorama audiovisual.

Com o desaparecimento de Seixas Santos, fecha-se um ciclo. De repente, apetece olhar o Terreiro do Paço vazio como ele fez – como Vítor Gonçalves fez (“A Vida Invisível”) ainda há pouco – porque a morte levou uma tutela maior do nosso tempo.

Seixas Santos estará em câmara ardente, a partir das 17h de domingo, no Teatro Thalia (Estrada das Laranjeiras 205, em Lisboa), sendo o funeral na segunda-feira, pelas 16 h no cemitério dos Olivais onde será cremado.