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A reminiscência da morte

Um homem passa 23 anos no corredor da morte de uma prisão norte-americana. Desapontado com a Justiça, com a sua própria vida, com a passagem do tempo, pede às autoridades que acelerem a sua própria execução. O seu testemunho é uma irrefutável prova de vida

Reinaldo Serrano

A memória é, à semelhança da própria vida, a mais grata das ingratidões, ou a mais ingrata das gratidões, oscilando a sua classificação em função do grau da sua plenitude. É também ela que nos ajuda, em maior ou menor grau, a edificar os alicerces dessa coisa a que se chama ética e que, em última análise, funciona como formadora de caráter; são, afinal de contas, os exemplos passados e que preservamos que nos ajudam a construir o nosso próprio padrão de comportamento. Tenho para mim que o centro de toda a minha vida, pessoal e profissional, tem no conceito de ética e, sobretudo, no conceito de justiça, os seus alicerces mais fundos.

Aliando os conceitos à memória, lembro-me como se hoje fosse de dois episódios antigos que, justa ou injustamente, teimam em não me abandonar: o primeiro, há anos antiquíssimos (teria uns 15 anos), foi assistir aos impropérios de um pai para com a filha deficiente que, limitada na mente e desorientada nos gestos, demorava para sair do carro da família, mal acomodado num qualquer parque de estacionamento; os gritos e o desespero da vítima, injustamente acusada de um “crime” sem qualquer culpa, desvaneceram num ápice a tranquilidade que eu normalmente levava a caminho de mais um encontro de amigos.

O outro episódio de que me lembro foi nos tempos de faculdade, quando, numa estação de metro, fui abordado pela humildade própria e desarmante de alguém pouco habituado às convenções citadinas. Um homem, na casa dos 60 anos e manifestamente desenquadrado no tempo e no espaço, pareceu ter arranjado coragem para perguntar a um transeunte o que fazer para chegar ao Rossio, uma vez que as composições do metro titulavam inevitavelmente a palavra Alvalade. Expliquei-lhe sem esforço os procedimentos e, no agradecimento exagerado, acompanhado pelo olhar grato e aliviado, contou-me ter chegado nessa manhã da província para ir ao médico na capital, por força de maleita grave que a geografia impedia resolver a contento. Bem ou mal, senti um misto de pena e de injustiça, lembrando-me do conto do vagabundo na esplanada, contemplado no “Tempo de Solidã”, de Manuel da Fonseca.

Servem estes desabafos, pelo quais desde já me penitencio, para dar a conhecer um notável documentário de 2015 a que chamaram “The Fear Of 13” (“O Medo do 13”). O título é, também ele, extraordinário mas, por razões óbvias, aqui me absterei de explicar. Antes quero chamar a atenção devida para a tensão de vida que foi a do senhor Nick Yarris. Assim se chama o (único) protagonista deste filme, dirigido pelo documentarista britânico David Sington, uma história incrível, narrada de forma incrível e apresentada de forma também ela incrível, com um grau de contenção e bom gosto raras vezes presentes em objetos desta natureza.

A história de Yarris é a de alguém que passou 23 anos no corredor da morte de uma prisão norte-americana. De apelo em apelo, de rejeição em rejeição, o condenado exerceu o derradeiro direito que a lei lhe confere: pediu para que a sua própria execução tivesse lugar o mais cedo possível, mais exatamente 60 dias depois de ter feito seguir o pedido para o juiz respetivo. O porquê de tal decisão por parte do prisioneiro é o que vamos descobrindo, a par de outros aparentes mistérios cuja solução se vai desenrolando na exata medida em que as peças do puzzle de Yarris vão ganhando forma.

O resultado final é o retrato único de um homem, de um sistema e de uma vida adiada. E, no entanto, não há qualquer “cliché” ou devaneio, queixume agreste ou auto-comiseração; não há nada mais que as palavras e a imagem de Nicholas Harris, o percurso da sua vida sem avanços que não fossem recuos, o monólogo que é partilha, a narrativa vívida e loquaz, incisiva e assertiva, notavelmente complementada pelas soluções encontradas por David Sington para recriar os ambientes que Yarris interpreta de forma assombrosa.

Sem querer ser irritante, também não vou aqui revelar o desfecho destes 20 anos de vida contados em hora e meia. Digo somente que Nick Yarris foi condenado a mais de 100 anos de prisão, e depois à morte (sem data marcada) e que foi forçado a 2 anos de absoluto silêncio na cadeia. Clamou sempre inocência, lutou sempre para a provar, enfrentou duros reveses de fortuna, mas esta história não é um conto de fadas, não é sequer um conto. É um relato apresentado sem subterfúgios, sem apelos a piedade ou misericórdia, sem qualquer assomo de compaixão. É esta espécie de pudor que enriquece e que torna “O Medo do 13” uma obra a todos os títulos notável, de visionamento obrigatório... e inesquecível.