Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A vida cheia de cinema do sr. Issur Danielovitch Demsky

d.r.

Nesta sexta-feira, dia 9, o ator norte-americano Kirk Douglas faz cem anos. Memória de uma boa vida cheia de cinema

A festa vai ter 200 convivas, entre família e amigos próximos. Os anfitriões vão ser o filho mais velho, Michael Douglas, e a nora, Catherine Zeta-Jones. Espera-se que, apesar das dificuldades na fala que continuam a atormentá-lo desde que sofreu um acidente vascular cerebral em 1996, Kirk Douglas consiga fazer um pequeno discurso. As informações constam de um artigo que o ator publicou na semana passada na revista britânica “CLOSER”, onde atribui a sua longevidade ao amor e às conversas noturnas com a mulher, Anne Buydens, com quem é casado há 62 anos.

getty

Agora com 97 de idade e de boa têmpera, Anne nasceu alemã e escapou ao nazismo, primeiro para a Bélgica e depois para Paris, onde sobreviveu, durante a Ocupação traduzindo filmes. Foi aí que conheceu Kirk Douglas, quando este estava a filmar “Um Gesto de Amor”, de Anatole Litvak, em 1953. Num artigo publicado no “Los Angeles Times”, em 2014, o ator lembra-se que ela recusou um convite para jantar num dos restaurantes mais caros da Cidade-luz – o Tour d’Argent – e que isso o impressionou. Douglas era uma vedeta e estava habituado a facilidades junto do sexo feminino. Ela não lhe cedeu à primeira. Viriam a casar-se em 1954, em Las Vegas, num intervalo das filmagens de “Vinte Mil Léguas Submarinas”.
Não foram, todavia, 62 anos de harmonia e felicidade continuadas. Anne teve de suportar infidelidades de um homem comummente tido como mulherengo e o casal sofreu a violência da morte de um filho (Eric) por overdose, em 2004 e, em 2009, a condenação do neto (Cameron, filho de Michael Douglas), a cinco anos de prisão por tráfico de droga, pena agravada por Cameron ter admitido introduzir droga na cadeia, o que o fez passar dois anos suplementares em solitária.

Na “Closer”, Kirk Douglas diz ainda que para a festa de aniversário só se espera que esteja “bem de saúde e repousado de modo a poder estar presente e ser charmoso”. E bem o merece.

Um nome imprestável

Nascido numa família de judeus bielorrussos, no lado mais pobre de Amsterdam, no estado de New York, deram-lhe o nome de Issur Danielovitch Demsky que, obviamente, se tornaria imprestável no mundo do showbusiness. Foi uma professora de inglês, Louise Livingston, que o incentivou a ser o grande ator que ele proclamava querer vir a ser. Ao mesmo tempo que o incentivava a cultivar-se, a ler Keats, Byron e Shelley, levou-o para a cama quando o rapaz tinha 15 anos. Num dos vários livros de memórias que Douglas escreveu nas últimas duas décadas, recorda: “Sob a orientação dela, tornei-me uma pessoa diferente… estou-lhe eternamente grato. Pelos parâmetros de hoje, devia ter sido presa. Eu não tinha ideia de que estivéssemos a fazer algo de errado. E ela teria?”

getty

Seguindo as orientações da senhora Livingston, viúva com um filho quatro anos mais velho que ele, Douglas acabaria por ir para a universidade, por estudar arte dramática na American Academy of Dramatic Arts, em Nova Iorque, por se estrear no teatro, por se alistar na Marinha, em 1941, com a entrada dos Estados Unidos na Guerra, por ir para Hollywood e tornar-se uma vedeta nesse pós-guerra em que o cinema americano entrou numa era de mudança e de grandes filmes. E durante todo esse tempo – e durante muitos anos, até que a morte sobreveio – Kirk Douglas e Louise Livingston continuaram a manter uma relação de amizade e amor, apesar de se verem um ao outro cada vez menos e de as cartas que trocavam irem rareando.

Teve sorte na chegada a Hollywood, em 1946. Dali até ao fim da década teve quase sempre papéis secundários, mas sob a mão de grandes realizadores: Lewis Milestone, Jacques Tourneur, John M. Stahl, Joseph L. Mankiewicz… Em 1949 protagoniza um boxeur sem escrúpulos em “O Grande Ídolo”, de Mark Robson – com que teria uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator. Não ganhou – nunca ganharia, aliás, mas iria ter mais duas nomeações na década de 50, curiosamente em dois filmes realizados por Vincente Minnelli, “Cativos do Mal” (1952) e ”A Vida Apaixonada de Van Gogh” (1956). Mas esse filme catapultou-o para o topo do cartaz – e nunca mais de lá saiu.

A meio da década, como muitos outros seus colegas atores, decidiu que era tempo de tomar as rédeas e tornou-se produtor. Os loucos tomaram conta do manicómio, dizia-se, por esses anos, em Hollywood. Fundou a Bryna Productions, em 1955, onde desenvolveria alguns dos projetos mais marcantes da sua vida, como “Horizontes de Glória”, de Kubrick (1957), “O Último Comboio de Gun Hill”, de John Sturges (1959) e, sobretudo, o filme mais ambicioso a que se abalançou – “Spartacus” (1960).

d.r.

“Spartacus” foi um empreendimento tão audaz que a sua produção justificaria um livro. Douglas, de resto, dedicou-lhe um, em 2012, “I Am Spartacus!: Making a Film, Breaking the Blacklist”. Dos conflitos com a realização, começada por Anthony Mann, concluída por Kubrick, às disputas com as vedetas (Laurence Olivier, Charles Laughton, Peter Ustinov eram gigantes que achavam – com razão? – que Douglas não tinha dimensão para eles), dos problemas de censura por causa da sugerida bissexualidade do personagem de Olivier à ousadia de imprimir no genérico o nome de Dalton Trumbo (então na “lista negra”) e tentar aguentar os boicotes das organizações de direita anticomunista (que acabaram por não vir), tudo teve proporções épicas na construção de um épico com notações revolucionárias.

getty

Com mais de oitenta filmes no ativo, Douglas veria a Academia atribuir-lhe um Óscar honorário, em 1996, pouco tempo depois de um AVC pôr um termo abrupto à sua carreira, sobretudo por causa das graves sequelas na fala. O discurso de agradecimento ao galardão que recebeu das mãos de Spielberg foi a primeira vez que se atreveu a falar em público, após longas sessões de terapia.

Dedicou-se, desde então, a escrever livros – de memórias, mas também de ficção – a atividades de filantropia, à família. Tornou-se um homem religioso, na prática do judaísmo onde, de facto, nunca vivera a maior parte da vida. Agora aos 100 anos, merece, pelo menos, um enorme aplauso por parte de todos nós, os que – durante tantos anos – nos habituámos a vê-lo no ecrã com aquele seu jeito excessivo de quem talvez não fosse o melhor ator do mundo. Mas tinha uma energia dos diabos.