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Doze Natais

FESTA “A 12.ª noite” (ou “O Rei bebe”), pintura de David Teniers, o Jovem (1635)

d.r.

Está aí o Advento, vem lá adiante o Natal. E a sugestão desta semana tenta entrar no espírito da quadra

O Advento já vai na segunda semana e o autor desta coluna — semana sim, semana não — assume que embarcar de alma e coração no espírito da quadra. Se o lado comercial das festividades é entediante, quando não incomodativo, não é menos certo que o Natal dá pano para mangas a quem estiver disposto a entregar-se à introspeção. E as semanas de preparação do grande dia a tal convidam. Em todo o caso, como virar costas a um livro cuja contracapa promete “geada, cristais de gelo, visco e trenós”, “uma árvore de Natal com poderes misteriosos” e até “um gato, um cão e uma rã em prata maciça”?

Para os que têm fé, o Natal é tempo de perscrutar a mensagem cristã e vivê-la cabalmente. Mas os que não têm religião não estão condenados a passar estes dias sob o signo da Popota. Dezembro é típico mês de balanços, propiciados pelo solstício de inverno, pela passagem de ano e respetivas resoluções, pelos reencontros com família e amigos que sobrecarregam a agenda do cidadão comum e inspiram, na ficção literária e cinematográfica, divertidíssimas e/ou intensas histórias de reuniões tempestuosas em dias que se queriam de paz e amor.

Autobiografia e culinária

Não é para estragar as festas ao leitor que propomos, esta semana, um livro que contém a frase “A maioria das crianças cresceu acostumada a deixar algo para o Pai Natal na noite de Natal… já eu fazia presentes para os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”. No autobiográfico “Christmas Days”, da britânica Jeanette Winterson, o encontro acaba por ser tranquilizador. A quadra é descrita como o único período feliz do ano em casa da sua maltratante mãe adotiva.

“Era a única altura do ano em que ela encarava o mundo como se este fosse algo mais do que um vale de lágrimas”, escreve a premiada autora, conhecida em Inglaterra por romances, novelas gráficas e livros para crianças. “Ela era uma mulher infeliz, por isso este tempo feliz em nossa casa era algo de precioso. Estou certa de que, se adoro o Natal, é porque ela também adorava.”

SÍMBOLOS. Azevinho, hera e flocos de neve numa ilustração do livro de Winterson

SÍMBOLOS. Azevinho, hera e flocos de neve numa ilustração do livro de Winterson

Difícil de classificar, o volume tem por subtítulo “12 histórias e 12 festas para 12 dias” (os “twelve days of Christmas” da canção homónima, que vão do nascimento do Menino ao Dia de Reis). Traz contos de inspiração natalícia, um hábito anual da autora, e inclui pérolas como a história do nascimento de Cristo vista pelo burro do presépio (“The Lion, the Unicorn and Me”), figura com quem Winterson diz identificar-se.

Além de histórias ficcionais, que vão de fábulas a aventuras com fantasmas (e nas quais não falta a presença do Pai Natal e suas renas), o livro inclui receitas, ensaio e memórias. “The Guardian” destaca um capítulo “comovente” sobre a amizade da autora com Ruth Rendell, célebre escritora de policiais desaparecida no ano passado e que foi um pilar emocional para Winterson.

Bagunça espalhafatosa

O jornal britânico garante que estes contos “nunca falham o objetivo de nos deixar iluminados”. Com apontamentos de magia, por vezes explicável por outras não, sofrimento digno de Dickens (um gigante da literatura natalícia) e alguma reciclagem de material antigo, o livro anuncia-se catártico e, ao mesmo tempo, promotor de perdão e generosidade, adequadas à época.

A descrição que Winterson faz do seu Natal não é estranha ao autor destas linhas: “Um festival de bagunça espalhafatosa que vai buscar coisas emprestadas a toda a parte.” Encontrar espaços de calma no meio do turbilhão de viagens, refeições e embrulhos é, possivelmente, o maior desafio da quadra e um dos mais gratificantes, quando vencido.

AZÁFAMA “Cozinha”, pintura de David Teniers, o Jovem (1646)

AZÁFAMA “Cozinha”, pintura de David Teniers, o Jovem (1646)

d.r.

O jornal britânico garante que estes contos “nunca falham o objetivo de nos deixar iluminados”. Com apontamentos de magia, por vezes explicável por outras não, sofrimento digno de Dickens (um gigante da literatura natalícia) e alguma reciclagem de material antigo, o livro anuncia-se catártico e, ao mesmo tempo, promotor de perdão e generosidade, adequadas à época.

A descrição que Winterson faz do seu Natal não é estranha ao autor destas linhas: “Um festival de bagunça espalhafatosa que vai buscar coisas emprestadas a toda a parte.” Encontrar espaços de calma no meio do turbilhão de viagens, refeições e embrulhos é, possivelmente, o maior desafio da quadra e um dos mais gratificantes, quando vencido.

“Christmas Days”, Jeanette Winterson, Editora: Grove Press, 240 páginas €20

“Christmas Days”, Jeanette Winterson, Editora: Grove Press, 240 páginas €20

Segundo o blogue “Lambda Literary”, o tom destas histórias vai “do humor ácido à pirosice”, abordando questões que não se limitam à temporada, como as complexas amizades entre pessoas de classes sociais diferentes, a solidão, os demónios internos de cada um de nós. Recomenda a sua leitura em “noites frias, frente a lareiras crepitantes”, e diz que o leitor não deve ficar admirado se ele lhe deixar os olhos húmidos. O melhor, acrescentaria, é ter à mão uma boa chávena de chá quente, um cálice de eggnog ou vinho quente com especiarias.