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“Climas” agitados no TNSJ questionam a “panela de pressão” onde vivemos

João Tuna D.R.

A peça “Climas”, uma criação da companhia Circolando e baseada na obra “Diário das Nuvens”, de Goethe, transporta para o palco a força da natureza e envolve o público na turbulência de tempestades interiores

Chegamos ao Teatro Nacional São João e não sabemos muito bem que “Climas” nos aguardam, nesta que será a última estreia da temporada. Ainda antes de entrar na sala de espetáculos, através dos corredores que dão acesso aos camarins, ouvimos o som cada vez mais forte e ensurdecedor do vento. Do ponto de encontro entre o teatro, a dança, a poesia, a música e o vídeo gera-se uma tempestade ao longo das quase duas horas deste espetáculo performativo, em cena a partir desta quinta-feira e até 18 de dezembro. No palco que, repentinamente, parece ser a céu aberto, seis intérpretes expõem-se à turbulência de vendavais interiores, numa viagem desde o céu noturno até ao centro da Terra.

Sentamo-nos, com as luzes já apagadas, e ficamos a ver, expostos e vulneráveis, o temporal passar, enquanto os intérpretes dançam em círculos no meio da intempérie. Numa enorme tela de vídeo, que pinta as diferentes paisagens que atravessamos durante o espetáculo, são projetadas imagens do céu noturno, estrelas cadentes, explosões nucleares, ondas que rebentam nas rochas e árvores que se vergam ao vento.

João Tuna D.R.

Tudo é intenso e arrebatador nestes “Climas” incertos, que se abatem sobre lugares pantanosos e recônditos; horizontes que se metem dentro de nós. “The future is dark”, pressagia repetidamente uma das personagens deste elenco transdisciplinar. Em entrevista ao Expresso, André Braga, cocriador do espetáculo em parceria com Cláudia Figueiredo, explica que a peça “parte de uma ideia de sanatório”.

“É um grupo de artistas, pessoas hipersensíveis, que se retira num laboratório no cimo de um monte. Trata-se de um lugar de distância, para estar ao ar livre, e ao mesmo tempo é um lugar transitório, tal como a vida”, descreve o encenador.

Na base desta que é a mais recente criação da companhia Circolando está a obra “Diário das Nuvens”, do autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, mas esse é apenas o ponto de partida. O projeto começou a ser pensado há dois anos, conta André Braga. “O clima é uma das variáveis mais potentes a atuar sobre nós”, vinca o encenador acerca destes “Climas” que tomam “o corpo como paisagem” e onde são exploradas as tempestades e dilúvios interiores. “Pretendemos questionar a panela de pressão em que vivemos, seja ela climática ou social”, frisa o responsável.

João Tuna D.R.

Em “Diário das Nuvens”, Goethe preconiza a ideia de que a observação atenta da natureza pode desenvolver uma outra forma de lucidez, como um novo órgão que se forma dentro de cada um. “A ideia é libertar o espectador do pensamento e ser uma dança emotiva que leva o público para sensações e não tanto para raciocínios”, afirma André Braga. “É o amor ao pormenor, como forma de nos abrirmos ao exterior e à observação do real através das pequenas coisas, como uma folha ou um cabelo, para que assim estejamos mais disponíveis a conhecer o todo e compreender as relações humanas”, acrescenta.

A improvisação é protagonista neste espetáculo em que tudo é exploratório, e que está estruturado em quatro partes: pântano irrespirável, febre seca, coração da terra e buraco negro, numa “espécie de carta meteorológica com diferentes centros de baixas e altas pressões”, explicam os criadores.

Esta será a primeira vez que a companhia teatral se apresenta na sala principal do Teatro Nacional São João, depois de já ter passado com outras criações pelos outros espaços geridos pelo TNSJ, o Teatro Carlos Alberto e no Mosteiro de São Bento da Vitória. “Climas” é uma coprodução da Circolando, Culturgest, Teatro Aveirense e do TNSJ. As récitas decorrem às quartas-feiras, às 19h, de quinta-feira a sábado, pelas 21h, e ao domingo à tarde, às 16h.