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O traseiro gigante, a duna de moedas, o comboio que não vai a lado nenhum e uma mesa cheia de tralha

PRÉMIO. Obra-choque desta edição do Turner: “Projeto para uma Porta”, de Andrea Hamilton

Tão prestigiado quanto polémico, o Prémio Turner, o mais importante galardão da arte contemporânea no Reino Unido, cujo vencedor será anunciado esta segunda-feira à noite, voltou a dividir as águas este ano. Houve quem elogiasse o arrojo e fulgor criativo dos quatro finalistas, mas também quem questionasse se “isto” é arte. O Expresso visitou a mostra, na Tate Britain, em Londres, e conta o que viu

A menina muito loira, talvez três anos, quatro no máximo, aponta para o gigantesco traseiro, com duas mãos a puxar as nádegas, e pergunta ao pai: “Daddy, what’s this?” (“Pai, o que é isto?”). O progenitor, visivelmente embaraçado, demora a responder, procura as palavras, não as encontra, e acaba por desviar a atenção da filha: “Olha aqui, já viste esta bota?” A bota, coberta de fungos e líquenes, talvez seja a segunda obra de Andrea Hamilton (n. 1978) a que o público presta mais atenção, à frente do casaco em padrão de tijolo. Se é que alguém consegue desviar o olhar do imenso rabo espetado que ocupa grande parte da sala e à frente do qual muitos visitantes se divertem a tirar ‘selfies’ (não só permitidas como incentivadas pela organização, que até sugere a ‘hashtag’: #turnerprize).

A obra-choque da edição deste ano do Turner Prize, o prémio anual para artistas com menos de 50 anos que vivam ou trabalhem no Reino Unido, foi inspirada numa ideia do designer italiano Gaetano Pesce para a entrada de um prédio em Nova Iorque – ideia que nunca se concretizou, por razões compreensíveis. A essa origem decorativa faz menção o título: “Project for a Door” (“Projecto para uma Porta”). Hamilton assume a fortíssima influência de Antonin Artaud, dramaturgo e ensaísta francês que defendia o “conhecimento físico das imagens”. Nas suas obras, a fisicalidade está sempre presente, seja através de manipulações da escala ou da textura dos materiais, seja através da provocação do espectador, levado a duvidar da sua perceção e das suas expectativas.

É o que acontece na sala ao lado. As paredes estão cobertas por um céu azul, com nuvens brancas a pairar. É o céu de Londres, “às três da tarde de um dia soalheiro de Junho”. No espaço vazio, meia dúzia de objetos suspensos do teto por correntes. Ao longe, parecem aves. Aproximamo-nos: são roupa interior impossível de vestir (em metal ou acrílico), “cintos-de-castidade” adornados com motivos gráficos de Hector Guimard.

Antes de chegarmos a estas salas, já passámos pelas obras imbricadíssimas de Helen Marten (n. 1985). As suas instalações fazem lembrar o quarto de um ‘hoarder’, alguém que não controla a compulsão de guardar tudo, de nada deitar fora. Os objetos acumulam-se, espalham-se pelo espaço da galeria, num aparente caos que tem, se lhe dermos suficiente tempo, uma ordem por baixo. Ao observador exige-se a minúcia do olhar e a paciência do geólogo, apto a discernir as muitas camadas e estratos, as sobreposições de materiais que contam diferentes histórias.

À primeira vista, uma mesa cheia de tralha é só uma confusão, um monte de lixo. Mas olhando melhor há histórias que emergem, associações de imagens, complexos palimpsestos. Dentro de uma gaveta, por exemplo, vemos uma faca, um inseto morto (tipo louva-a-deus), um cinzeiro enferrujado, dois rolos de pele de cobra. A imaginação do visitante faz o resto.

Mais imediatas são as obras de Josephine Pryde (n. 1967), que se divide entre a fotografia e a escultura. No centro da sua sala, instalou o modelo em miniatura de um comboio, com uma locomotiva diesel e duas carruagens, em cujos lados podemos ver graffitis que dizem “news” e “déjà-vu”. Não há estação, nem apeadeiros. Só carris barrados, antes e depois. É um comboio aprisionado, sem origem nem lugar para onde ir. Metáfora do Reino Unido em tempos de ‘brexit’? Ou retrato de um mundo onde as notícias se repetem e tudo parece uma encenação?

O foco na vida contemporânea está também presente na série de fotografias de mãos femininas, novas e velhas, lisas e enrugadas, todas de unhas pintadas e a tocar em ecrãs, a digitar furiosamente em ‘smartphones’, numa ânsia de comunicação que nunca chegamos a conhecer verdadeiramente. A participação de Pryde inclui ainda uma série composta por tampos de cozinha, deixados ao sol em Londres, Atenas e Berlim, com objetos pousados em cima. As marcas na madeira contam a história desses objetos e da ação do tempo, são como sombras que não desaparecem da superfície das coisas.

A última sala ficou reservada para o único homem entre os quatro finalistas: Michael Dean (n. 1977). Quando lá entramos, é como se mergulhássemos num pesadelo de formas abstratas. Recorrendo a materiais brutos, como o betão, o ferro retorcido, o gesso, plásticos esponjosos, tabiques de madeira, chapas de metal, ele cria um alfabeto próprio, uma linguagem visual que coloca sempre o espectador num lugar de desconforto, até físico, uma vez que é preciso entrar dentro das obras, contornando as esculturas disformes que criam uma espécie de labirinto selvagem.

De entre todas as obras que convergem na instalação pensada especificamente para o Prémio Turner, há uma que se destaca. É uma verdadeira duna de moedas de um ‘penny’. Muitos milhares de moedas, no valor de 20.436 libras, o montante que o governo britânico definiu como sendo o mínimo que permite a subsistência de dois adultos e duas crianças, durante um ano. Ao instalar o seu trabalho, Dean fez questão de retirar uma das moedas, de forma a materializar o mais possível como o dinheiro não chega e representar o que é, afinal, a “linha de pobreza” que ameaça tantos dos seus compatriotas.

Abaixo da linha de pobreza não ficará nenhum dos finalistas do Prémio Turner. Ao vencedor, anunciado na noite desta segunda-feira, em transmissão direta na BBC, caberá um cheque de 25.000 libras. Aos vencidos, o prestígio de terem disputado um galardão que já distinguiu grandes nomes das artes britânicas, como Anthony Gormley ou Damien Hirst. As portas das principais galerias, que nalguns casos já estavam abertas, mais abertas ficarão. O impacto mediático do Prémio Turner é sempre enorme, mesmo quando as reações são de repúdio e resistência. Por natureza, divide as águas do gosto instituído e este ano não fugiu à regra. Embora a reação dos críticos tenha sido globalmente positiva, com alguns comentadores a sugerirem que se trata de uma das melhores exposições de sempre, não faltaram polegares virados para baixo e vozes a exigir a eliminação do limite de idade, ou uma refundação estética dos critérios do júri.

Antecipando as habituais polémicas, a organização teve a feliz ideia de oferecer aos visitantes a oportunidade de escreverem o que pensam e afixarem os seus textos num quadro de cortiça, à saída. Não faltam elogios entusiasmados a alguns dos artistas ou a obras específicas, mas o tom geral é bastante ácido: “Isto é um absoluto disparate, por favor deixem de usar o nome de Turner para estas porcarias”; “Já me esqueci do que acabei de ver”; “Odeio tudo”; “Desculpem lá, mas o rabo não é anatomicamente correto”; “Isto não é arte”; “Se estes são a ‘crème de la crème’, como serão os outros?”; “Mais um ano, mais do mesmo, o rei vai nu”. Como em qualquer espaço de comentário público virtual, a opinião é livre mas virulenta. E se a arte também serve para incomodar, para provocar discussões, para criar perplexidades, então as respostas empolgadas revelam que está de boa saúde. “Este quadro de comentários é uma obra de arte em si mesma”, diz um dos papéis. “As pessoas odeiam tudo mas não fazem ideia do que realmente querem.”

A exposição dos finalistas está patente na Tate Britain e pode ser visitada até 2 de Janeiro